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Arístocles e Uchiha Madara

por em 21/10/2019 em Ciência, Notícias | Nenhum comentário

Arístocles e Uchiha Madara

Hey Judes, como estão?

Se vocês curtiram nos idos anos 1990 a mistura do Brasil com o Egito (ba dum tss), espero que curtam também essa conexão entre Grécia e Japão e que não vai falar de Cavaleiros do Zodíaco. Hoje vamos falar sobre o que conecta o filósofo grego Arístocles, mais conhecido como Platão, ao anti-herói da saga Naruto Shippuuden Uchiha Madara.

Platão, apelido recebido por conta de suas costas largas devido às suas grandes omoplatas – Platão vem do grego Plátōn e significa algo como “largo” -, é um dos maiores filósofos gregos e mantém-se ainda presente e vívido até hoje, especialmente por suas ideias sobre a metafísica que trazem ao leitor a noção de dualismo. Essa noção é trazida de maneira alegórica na sua obra A República, em que apresenta o mais que conhecido Mito da Caverna no Livro VII. Mas, se você não conhece ou só ouviu falar dessa alegoria platônica, segue o link aqui para a leitura, não só do Livro VII, mas da obra toda.

Nele Platão descreve a condição cativa que o homem vive em uma realidade constituída apenas de projeções do mundo real. Assim, vivemos de acordo com representações formadas por nossos sonhos, desejos, hábitos, crenças e etc. Enfim, tudo o que nos constitui como parcela social e identifica a nossa existência nesse plano são representações. É o mundo sensível para ele; é o nosso mundo.

Dessa forma, a Filosofia seria o meio pelo qual nos libertaríamos dessa Caverna do Dragão. Falando nisso, já perceberam como o Mestre dos Magos compõe bem o estereótipo do filósofo? Velho, sábio, saca das magias (o que foge do plano da materialidade), fala umas coisas aparentemente nada a ver e que ninguém entende… ah, claro, aparece, planta um enigma e some. Se pensarmos bem a Caverna de Platão deve ter alguma influência sobre a do Dragão. Mas, ao contrário desta, na alegoria platônica, um dos prisioneiros consegue sair da caverna, tomar consciência da realidade representativa que constituía o mundo seu e de seus companheiros e acessar o mundo inteligível; a mundo das ideias. Ao retornar à caverna e contar o que tinha visto, é considerado louco e assassinado por seus ex-companheiros. A forma como se desenha seu fim é uma referência à morte de Sócrates, de quem Platão fora discípulo, e que foi condenado à morte acusado de corromper a juventude e negar os deuses da cidade com a sua filosofia.

A dinâmica de projeção da realidade ou ainda dos desejos e sonhos na realidade é o aspecto que conecta Platão à Uchiha Madara, uma vez que anseia por uma paz definitiva em seu mundo. Para isso, Madara traça um plano que permeia todo o enredo do anime: o Tsuki no me. A tradução do nome do plano, Olho da Lua, é quase autoexplicativa quanto à forma como é posto em ação, mas o método utilizado assim como os significados embutidos guardam detalhes que reforçam ainda mais essa ligação. Exemplo disso é o fato de que Madara utiliza-se de um genjutsu – técnica de ilusão – visual chamado Mugen Tsukuyomi – Leitor da Lua Infinita. Aliado a isso temos ainda o simbolismo ligado aos olhos e ao sentido visual que conectam os mundos interior e exterior e são associados à percepção.

Madara espelha seu olho especial, o Sharingan, na Lua, que, por sua vez, emana uma luz que prende todos os seres vivos nessa técnica quase inescapável. De maneira análoga, o Mugen Tsukuyomi de Madara faz referência à mitologia japonesa, na qual Tsukuyomi é o deus da Lua. Isso faz crer que não foi por coincidência a escolha do nosso satélite assim como pelos antagonismos como Lua e Sol, Luz e Escuridão ou ainda vermos a Lua pelos raios solares. Um outro aspecto do Tsukuyomi enquanto técnica é dizer respeito ao mundo espiritual e à escuridão, o que também pode referenciar o dualismo platônico entre o sensível e o inteligível ou o material e o imaterial assim como ao antagonismo luz e trevas.

Sabemos já o bastante sobre Tsukuyomi e o Mugen Tsukuyomi, mas o que ele faz efetivamente? Resumida e metaforicamente, o Mugen Tsukuyomi é a própria caverna da alegoria platônica, uma vez que o Uchiha colocaria todo o mundo sob uma ilusão suprema na qual a realidade seria múltipla, pois seria individual e moldada de acordo com os sonhos e desejos de cada um. Com isso, ele pretendia extinguir os conflitos e as guerras acabando também com as mortes decorrentes, o que não é gratuito se tivermos em mente que somos inseridos em sua história e na da fundação da Vila da Folha – cenário principal do anime – apresentados ao conflito entre seu clã e o clã Senju. E em uma dessas batalhas, Madara perde seu irmão, Uchiha Izuna. O embate entre os clãs Uchiha e Senju termina com um acordo de paz e a fundação da Vila Oculta da Folha – Konohagakure – e também faz referência ao antagonismo Sol e Lua por conta de suas origens dentro da mitologia do próprio anime.

Assim, temos que a perspectiva da realidade e das projeções, dos mundos “real” e “dos sonhos” conecta Platão e Madara com essência e constituição semelhantes, mas interesses em vias opostas. Enquanto o grego propõe e estimula a saída da caverna e a libertação das ilusões, o anti-herói reconhece apenas na ilusão suprema a solução para a tendência à violência do homem.

Ah, e antes que me esqueça:

  • Mugen também pode ser traduzido como “sonhos”, “visões” ou “fantasia”;
  • O Tsukuyomi enquanto técnica aparece pela primeira vez no cap. 142 do mangá e no ep. 82 do anime;
  • O Mugen Tsukuyomi aparece pela primeira vez e é explicado no cap. 606 e no ep. 205.

 

Referências

http://www.eniopadilha.com.br/documentos/Platao_A_Republica.pdf

https://www.ebiografia.com/platao/

https://www.jstor.org/stable/29751192?read-now=1&seq=1#page_scan_tab_contents

https://naruto.fandom.com/pt-br/wiki/Tsukuyomi

https://naruto.fandom.com/pt-br/wiki/Tsukuyomi_Infinito

http://www.encontro2017.abri.org.br/resources/anais/8/1498427712_ARQUIVO_EncontroABRI2017TrabalhoAvulsoHRICarolinaDantasNogueira.pdf

https://www.dicionariodesimbolos.com.br/olho/

https://super.abril.com.br/mundo-estranho/qual-o-significado-dos-simbolos-com-olhos/

 


Felipe Figueiredo. Pesquisador independente interessado em diálogos improváveis e viciado em associações livres. Amante de música, culturas em geral, livros e conhecimento científico. Pensante fora da caixinha, caminhante fora da casinha.

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