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“Ah, agora tudo faz sentido!”: A psicologia das teorias conspiratórias

por em 03/06/2021 em Ciência, Notícias | Nenhum comentário

“Ah, agora tudo faz sentido!”: A psicologia das teorias conspiratórias

Other centuries have only dabbled in conspiracy like amateurs. 

It is our (the Twentieth) century which has established conspiracy 

as a system of thought and a method of action

(“Outros séculos só se meteram em conspirações como amadores. É o nosso século (XX) que estabelece a conspiração como um sistema de pensamento e método de ação”)

 (Moscovici, 1987, p. 153)

O coronavírus foi criado de propósito pela China para minar a economia capitalista. A China criou a pandemia para vender máscaras e vacinas. Existe uma agenda comunista por trás da pandemia, seja ela fabricada ou não. A vacina é a marca da besta.

Você deve ter lido o parágrafo anterior com um leve sorriso de lado, porque, afinal, tratam-se de absurdos de um mundo tecnológico, movido por redes sociais que espalham desinformação.

Mas isso não é verdade. Teorias da conspiração provavelmente sempre existiram. Algumas são paranoias inofensivas, mas outras causam danos à saúde e podem levar a guerras.

Por exemplo, desde que o homem foi à Lua existem conspiradores alegando que tudo não passou de uma filmagem de Kubrick. Alguns acreditam que governos manipulam a população jogando sonífero por meio de jatos, e a prova disso seriam os rastros que eles deixam no céu. No meu primeiro período de graduação, um professor de economia alegava que o estado colocava antidepressivo na água encanada. Outros professores defendiam que a indústria farmacêutica criava doenças (especialmente as psiquiátricas) para lucrar. O movimento antivacina segue nos dias atuais alegando basicamente a mesma coisa (“vacinas causam autismo” etc).

Teóricos da conspiração acreditam que os rastros deixados por esses jatos são compostos por tranquilizantes usados para manipular a população

É graças a esse pensamento que doenças já erradicadas estão voltando em lugares desenvolvidos e com  população educada, como Estados Unidos e Europa.

Teorias conspiratórias às vezes movem a História também. O antissemitismo que levou à Solução Final na Alemanha e à Questão do Cosmopolitismo Sem Raízes na União Soviética (escrevi mais aqui no deviante sobre isso) foi em grande medida fruto de uma teoria conspiração segundo a qual maçons e judeus estavam tramando secretamente para dominar o mundo. O Hamas se baseia no Protocolo dos Sábios de Sião (documento forjado na Rússia czarista que expunha esse suposto plano) até hoje para justificar os atentados contra civis israelenses.

Como você pode ver, importantes eventos históricos tiveram a participação de teorias conspiratórias para além de mera curiosidade. Hoje elas continuam povoando o imaginário não só da população geral, mas também de autoridades políticas.

Diante disso, torna-se imperativo investigar por que teorias conspiracionistas surgem e se espalham com tanta facilidade, causando tantos danos. Quais as raízes psicológicas desse tipo de crença? Estamos todos suscetíveis a ela?

O que são teorias conspiratórias?

Você já deve ter se perguntado o que diferencia conspiração de teoria da conspiração. Em outras palavras, como saber se uma teoria da conspiração não é uma conspiração real? Essa é uma dúvida pertinente porque, de fato, a história está cheia de conspirações.

Por exemplo, muito provavelmente foi uma conspiração entre o rei Filipe IV e o Papa Clemente V que resultou na morte e posterior dissolução da Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo, os famosos Templários. Parece que o Rei francês estava endividado com a Ordem e arrumou um jeito de acabar com ela antes que pudesse quitar seus débitos com os monges guerreiros. Como se sabe sobre isso hoje? O próprio Papa absolveu secretamente a Ordem das acusações de heresia no Pergaminho de Chinon. Entretanto, mesmo não encontrando nenhuma cabeça de bode empalhada, o fim da Ordem foi decretado numa fatídica sexta-feira 13 do século XIV.

Na Rússia, os Bolcheviques realmente conspiraram não apenas para depor o czarismo, mas para assassinar a família real e suplantar de uma vez por todas as bases da monarquia. Embora o fato não tenha vindo a público inicialmente, hoje o fato é amplamente documentado. Na época, corria o boato de que a Revolução Bolchevique era uma continuação da Revolução Francesa, ocorrida cerca de um século antes, tramada por debaixo dos panos por maçons e judeus interessados em dominar o mundo acabando com a monarquia e criando uma espécie de internacionalismo.

Mais recentemente, sim, de fato existiu um projeto da CIA, chamado MK-Ultra, criado para desenvolver técnicas de resistência e de interrogatório (que culminaram em absurdos como o caso de Abu Grab). Apesar de ter muita conspiração rondando esse projeto, pela sua própria natureza ultrassecreta, há experimentos documentados. Um deles foi o estudante superdotado de Harvard chamado Ted Kaczynski, posteriormente mais conhecido como o terrorista UNABOMBER. Acredita-se que o trauma sofrido durante a participação no projeto na própria universidade tenha sido decisivo na sua transformação em terrorista.

Apesar das teorias conspiratórias, de fato a CIA esteve envolvida em conspirações secretas durante a Guerra Fria

Conspirações e teorias da conspiração envolvem plots secretos. A diferença entre ambas é o pressuposto. Conspirações podem ser detectadas, provadas por evidências documentais. Seus responsáveis podem ser apontados publicamente. Por outro lado, teorias conspiratórias partem do pressuposto de que os reais responsáveis estarão para sempre escondidos, agindo por debaixo dos panos. Evidências minando uma teoria conspiratória costumam ser apontadas como mais uma prova de que há um plot secreto, não de que a teoria está errada.

A necessidade de diminuir perigos e incertezas

Não sei você já percebeu, mas a maioria dos exemplos de teorias conspiratórias que citei ocorrem em contextos conflituosos, caóticos, quando há necessidade de explicar algo complexo. O conspiracionismo envolvendo judeus e maçons é o mais evidente. Se coloque no lugar de cidadãos comuns e políticos vivendo entre século XVIII e XX. O tecido social e a realidade conhecida estava se rompendo com revoluções sangrentas. As cabeças decepadas da própria família real rolavam rua afora. Monarquias eram substituídas por governos liberais. Vinha a revolução industrial modificando as relações de trabalho.

Como explicar tudo isso? Não tem como dar uma explicação simples, mas o povo urge por explicações sucintas. É mais ou menos como num jantar em família: quando seu avô pergunta o que você estuda ou no que trabalha, ele quer uma resposta de duas linhas, não um livro inteiro. Se a pressa é grande num jantar em família, imagina diante do caos de uma guerra mundial, do caos das revoluções. As pessoas (incluindo políticos) querem explicações pragmáticas capazes de embasar decisões.

Nesse momento, um complô judeu maçônico satisfazia a necessidade epistêmica de diversos países. Posteriormente, a tensão da Guerra Fria levou a novas teorias, muitas trazendo consequências até hoje. Por exemplo, o governo cubano até hoje propaga a informação oficial de que a dengue é uma doença introduzida na ilha pela CIA. No leste europeu, até hoje acredita-se que a AIDS tenha sido levada para lá pelos EUA como arma.

Nessas situações de risco e caos, tudo que as pessoas querem é ouvir algo que dê a sensação de “Ah, agora tudo faz sentido!”. “Ah, claro, então estamos sofrendo por causa daquele grupo X, então basta expulsá-los, certo?”.

Como são as pessoas que acreditam em teorias da conspiração?

 

“Eu acho que eventos aparentemente desconectados

frequentemente são resultado de atividades secretas”

~ item de uma escala de mentalidade conspiratória

Contextos são importantes, mas não são todas as pessoas que passam a crer em teorias conspiratórias diante da incerteza e do perigo. Por que algumas cedem?

A personalidade explica isso em grande medida. Pessoas muito abertas a novas experiências geralmente são mais curiosas, analíticas e inteligentes. Elas tendem inclusive a se interessar e a acreditar mais no que cientistas dizem. O problema é que ser mais aberto também significa ter menos critério, isto é, elas toleram tanto o contato com novos conhecimentos que também têm grandes chances de acreditar em coisas como sobrenatural, astrologia, medicina alternativa e teorias conspiratórias.

Essas pessoas muito provavelmente gostam de ciência não porque entendem o método, mas porque elas gostam de ter contato com ideias novas, menos tradicionais e muitas vezes excêntricas. Para esses indivíduos, a ciência supre essa necessidade tanto quanto um guru qualquer.

Outra dimensão importante é a agradabilidade. Pessoas mais altas em agradabilidade são mais cooperativas, positivas, enxergam mais o melhor dos outros. Pessoas com menor agradabilidade, por outro lado, são mais ranzinzas e tendem a desconfiar mais das boas intenções alheias. Elas têm mais chances de ver comportamentos ou acontecimentos aleatórios como intencionalmente hostis, o que também acontece com pessoas com menor estabilidade emocional.

Na medida em que a personalidade se trata de características individuais básicas e estáveis ao longo do tempo, qualquer coisa tem a ver com a personalidade em algum nível. Existem características mais precisas que aparentemente explicam a mentalidade conspiratória.

Teóricos da conspiração tendem a perceber intencionalidade onde outras pessoas não enxergariam. O lema dessas pessoas bem poderia ser “nada acontece por acaso” ou “não existem coincidências”. É até por isso, inclusive, que teóricos da conspiração geralmente também acreditam em paranormalidade e em outras crenças New Age.  Sabe quando um objeto se move sozinho e alguém prefere acreditar que um espírito ou alguém com poderes telecinéticos o movimentou? O mecanismo psicológico por trás dessa atribuição de intenção é o mesmo que explica por que as pessoas acham que doenças são provocadas por governos ou empresas com propósitos obscuros. É o que acontece com as teses conspiratórias de que acha que o acidente nuclear em Fukushima foi causado intencionalmente.

Conclusão

Talvez a verdade mais dura sobre a COVID-19 seja a de que ela não é culpa de ninguém. Quer dizer, obviamente podemos culpar a China por negligência, por esconder informações que seriam preciosas para todo o mundo caso tivessem sido divulgadas em tempo hábil. Mas de certo modo estamos sempre sujeitos ao surgimento de uma nova doença que pode ou não ser danosa para a espécie humana.

O mundo todo tem sofrido com a pandemia e isso é óbvio. Há muita incerteza e danos, e esse tipo de contexto acaba sendo muito fértil para o surgimento de teorias conspiratórias, especialmente entre as pessoas mais prejudicadas. De alguma forma, nos recusamos a aceitar explicações relativamente banais para grandes perdas. Uma situação análoga é a morte da Princesa Diana. Como diabos uma princesa pode morrer num acidente causado por um motorista bêbado? Grandes acontecimentos merecem grandes explicações. Não, ela só pode ter sido assassinada. Olha como o carro simplesmente se chocou exatamente contra a quina da pilastra do túnel. Não qualquer outro lugar, mas a quina. Isso tem que significar algo.

É basicamente isso que acontece sempre que passamos por momentos de instabilidade. Momentos em que nosso modo de vida é colocado à prova.

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