Pages Menu
TwitterRssFacebook
Categories Menu

A páscoa, o chocolate e a pandemia

por em 05/04/2021 em Ciência, Notícias | Nenhum comentário

A páscoa, o chocolate e a pandemia

A páscoa é um dos feriados preferidos de brasileiros de todas as idades, sendo eles cristãos ou não. Por meio da comemoração, trocamos e comemos chocolate e outros doces, na forma de bombons ou ovos de páscoa; além, é claro, de uma refeição pra lá de farta, sentados à mesa com nossos parentes e amigos mais queridos.

Acompanhando a discussão sobre o chocolate fazer bem ou não, sabemos que existem diferentes versões que fundamentam o feriado e seus rituais religiosos.

Espero passar a mensagem das diferentes versões históricas que fundamentam o feriado, bem como realçar as principais tendências no setor alimentício ligadas ao evento; assim elucidando algumas curiosidades sobre o assunto e dando um pouco mais de brilho à festividade neste segundo ano de isolamento social. O que esperar da páscoa em 2021?

A páscoa comemorada pelos judeus possui certas particularidades em relação a cristã. Mais conhecida como Pessach, a festividade celebra o êxodo do povo hebreu no Egito em decorrência das condições de vida em que foram submetidos. É com esta data que o povo hebreu demarca sua aliança com Deus, a liberdade e fundação do povo de Israel [1]. A libertação destas pessoas pelo faraó é demarcada por uma série de eventos e pragas que ficaram conhecidas em lendas, histórias e no folclore ao redor do mundo.

Os judeus não podem comer nada fermentado durante este dia, que é marcado por muita reflexão a respeito dos fenômenos passados. Logo após a leitura dos eventos que levaram ao êxodo judaico, é servida a refeição. Alguns alimentos reforçam a simbologia durante o jantar do Pessach, conhecido como Sêder. Entre os quais:

  • Mátsa: O pão ázimo, feito de uma forma com que a massa fique bem fina;
  • Vinho de pessach: Feito sem fermentação;
  • Zeroá: Pedaço de osso de carneiro com carne tostada que reforça o sacrifício;
  • Maror: Raiz amarga que simboliza os dissabores pelos quais passaram o povo hebreu durante o cativeiro;
  • Charorósset: Pasta oriunda da mistura de uvas, tâmara, maçã e canela que simboliza a argamassa utilizada na construção das casas dos hebreus;
  • Água salgada: Reflete sobre as lágrimas e o suor derramado pelos cativos;
  • Beitzá: Ovo cozido que simboliza a esperança da construção e o luto pela destruição do templo de Salomão

 

Na imagem, alguns elementos que estão presentes durante a comemoração da páscoa judaica, com destaque para o vinho, o matsá, o beitzá e o maror [2].

É bom reforçar que a comemoração – mesmo possuindo a nomenclatura em comum – não está competindo com a data cristã pela validação histórica/religiosa. Inclusive, as comemorações são realizadas em dias diferentes. Alguns elementos reforçam o caráter sinonímico entre os dois eventos, como por exemplo ter sido a passchea comemorada por Jesus Cristo durante a santa ceia [3].

Para a comemoração cristã, a páscoa é vista como a ressignificação de valores judaicos originais, imbuídos de novas simbologias como a de Jesus Cristo, a nova aliança com o divino e a ressurreição. Logo no início do cristianismo, os cristãos primitivos comemoravam a páscoa judaica com os judeus, mas os detalhes das comemorações foram divergindo ao longo dos tempos.

Aos poucos, os cristãos começaram a se reunir no domingo do solstício para a comemoração da ressurreição de Cristo e a redenção da humanidade [3]. Imbuídos de simbologia própria que caracteriza o cristianismo primitivo – como o vinho, o pão e o peixe – a páscoa cristã recebeu novas influências alimentícias e simbólicas no século VII, absorvendo cultos às divindades pagãs da primavera que subsistiam na Inglaterra medieval [4], como frutas, amêndoas e doces.

Porém, no século XV, os espanhóis trouxeram uma bebida pra lá de surpreendente (e amarga) para começar a ser produzida pelos monges europeus, o chocolate [5]. Com a absorção lenta da bebida de cacau, os espanhóis preferiram iniciar algumas mudanças na produção, como a inserção do açúcar no século XVI, e a inserção do leite e de castanhas e avelãs no século XIX. Sua fórmula foi sendo alterada ao longo do desenvolvimento industrial.

Aos poucos o produto começou a ganhar o mundo e a preferência dos apreciadores de doces. Em 1910, finalmente o produto ganhou a forma de barra pelo qual o conhecemos, adquirindo significados espaciais para as festividades de consumo [5], como os bombons para o dia dos namorados ou o formato de ovo para a páscoa.

No Brasil, o mercado de ovos de páscoa e o chocolate são capazes de remodelar lógicas de oferta e procura por algum tempo, uma vez que a indústria precisa contratar mais trabalhadores para suprir a demanda de pedidos. Porém, o ano de 2020 impôs novas barreiras ao mercado em ascensão, com a diminuição do consumo atrelada ao desemprego e outras incertezas econômicas emergentes.

 

Explosão de oferta em abril, o mercado de ovos de páscoa é capaz de oferecer empregos temporários par suprir o aumento da demanda por chocolate, como em Minas Gerais , com 12 mil trabalhadores requisitados [6]. Descrição da imagem: Mulher e homem usando máscaras olham para uma pilha de ovos de páscoa disposta em uma mesa num supermercado.

As redes de varejo sentiram o impacto da pandemia de covid-19 em 2020, porém as tendências observadas em anos posteriores podem ter ajudado na diminuição dos prejuízos atrelados a quarentena. No Brasil, o mercado tradicional industrial concentra suas vendas no varejo alimentar, trabalhando com o cacau como commodity (sem grandes preocupações com a precedência) [7]. Desta forma, este mercado industrial concentra a maior parte da produção e da capacidade de distribuição de ovos de chocolate, porém existem outras tendências no cenário nacional, com destaque para:

O mercado emergente oriundo da massa de novos empreendedores (e de pessoas que perderam seus empregos) fomenta o mercado artesanal caseiro [7]. Geralmente trabalhadores autônomos, é comum que eles produzam trufas, bombons e pães de mel ao longo do ano, sendo em sua maioria derretedores de chocolate. A venda de seus produtos é feita em lojas especializadas ou em “atacarejos”.

E existe ainda uma nova tendência oriunda dos consumidores “mãos na massa”, – com destaque às pessoas que viram na gastronomia uma distração para a quarentena – o mercado bean-to-bar. O chocolate maker compra diretamente do produtor os grãos de cacau fermentados, sendo ele quem transforma a matéria-prima em produto, da forma como ele quiser [7]. Existem empresas que facilitam esta intermediação entre fazendeiro e produtor, mas é o próprio chocolate maker responsável pela venda ou o consumo caseiro do resultado.

Para as empresas do complexo industrial, observa-se tendência em suas mensagens de palavras que reforçam a transparência na produção (humanização da cadeia do chocolate), a reconstrução das relações humanas, voltado para a nutrição e produtos plant based (100% baseado em planta). As empresas também se convencionaram ao trabalho na “realidade figital”, com canais de venda e distribuição convenientes e online, serviço delivery de entrega e gestão de mídias sociais com a contratação de influenciadores [7].

Por todos esses motivos, espera-se uma páscoa bem dinâmica e que possa nos passar a felicidade que existia em períodos anteriores. E para o leitor? O que podemos esperar dessa e das próximas festividades nos meses que virão? Não deixe de comentar a sua percepção e até a próxima!

 

Referências:

 

[1]: BELMAIA, Nathany Andrea Wagenheimer. Do Pessach à Pascha: ressignificação dos significantes da Páscoa judaica pela Páscoa cristã. Antíteses, v. 10, n. 19, p. 543-564, 2017. Disponível aqui http://www.uel.br/revistas/uel/index.php/antiteses/article/view/27412#:~:text=Através%20da%20aplicação%20do%20conceito,Pessach%20são%20ressignificados%20pela%20Páscoa
[2]: DUARTE, Marcelo. Passchea. Portal Guia dos curiosos, 24 abr. 2019. Disponível aqui.
[3]: HACKMANN, Geraldo. O sentido cristão das festas religiosas. Teocomunicação, v. 36, n. 154, 2006. Disponível aqui.
[4]: BELMAIA, Nathany Andrea Wagenheimer. De Eostre a Easter: Ressignificação de um culto pagão na Inglaterra medieval?. Tempos Históricos, v. 20, n. 2, p. 89-116, 2016.
[5]: COUTO, Flórence. Chocolate: mais ‘amargo’ do que nunca. Revista Conjuntura Econômica, p. 40-41, abril de 2003.
[6]: Estado de Minas. Indústria planeja abrir quase 12 mil empregos temporários para a páscoa. Disponível aqui.
[7]: DA SILVA PEDREIRA, Jumar; QUINTANA, Mario. As tendências de consumo 2021: reflexos sobre a páscoa do chocolate em um Brasil pandêmico. Disponível aqui.

 

Modo Noturno