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A Fúria: E outros contos – Resenha

por em 06/09/2019 em Entretenimento, Notícias | Nenhum comentário

A Fúria: E outros contos – Resenha

Essa resenha é uma parceria do Portal Deviante com a Cia da Letras, que disponibiliza livros do seu catálogo para os nossos redatores escreverem as resenhas. Livro de hoje: “A Furia e outros contos”

Cheia da brutalidade crua que não deixamos transparecer em nossas vidas sociais, a coletânea A FÚRIA: E OUTROS CONTOS, de Silvina Ocampo, traz textos desconfortantes, mas altamente identificáveis que fazem a sua leitura dinâmica e cativante.

Silvina Ocampo (1903-1993) é uma autora de contos, poeta e artista Argentina, é conhecida por trazer gotas de fantasia em suas obras para mostrar situações do cotidiano, principalmente envolvendo a mudança, para melhor ou pior, das suas personagens, sem esforços para que seja uma experiência aprazível, buscando mostrar de modo cru como é a sua percepção das pessoas em sociedade e por trás dela também.

Silvina Ocampo (1959)

A coletânea A FÚRIA: E OUTROS CONTOS é um de seus maiores tesouros e finalmente está traduzida para o português com esmero por Livia Deorsola. Tive a curiosidade de ler o conto principal A FÚRIA em espanhol e digo que a tradução não perde em nada as sensações que, imagino, a autora quis passar. Além de ser sempre muito legal ver produções latino-americanas de alta qualidade sendo divulgadas. Se somos marcados como um povo “quente e carnal”, afirmo tranquilamente que esses contos representam bem nossos pequenos vícios e distúrbios de um modo viceralmente aquecido.

Quanto um palco é grande o suficiente?

O conto que nomeia a coletânea é a estória de uma jovem que queima a amiga por inveja quando era criança e na vida adulta passa a se comportar de um modo peculiar para tentar se redimir, ou ao menos se sentir melhor, através dos erros dos outros. Não considero o que falei aqui como um spoiler, pois está em diversas sinopses dessa obra e é uma maneira interessante de realmente pontuar o tom dos textos que irá encontrar aqui.

Quem nunca passou por momentos de inveja e apenas a mais pura trava social impediu que agisse de uma maneira mais direta? Ao pegar situações extremas, Silvina Ocampo conseguiu me fisgar na entrada ou na saída de seus contos, me fazendo me identificar e, num certo momento, me deixando até encabulado de estar lendo em público, tal o envolvimento com algumas de suas personagens e tal o tabu apresentado. Daqueles que, num momento expansivo, nós colocamos num papel usando canetas vermelhas e, depois de ler algumas vezes com um sorriso lascivo ou cruel, nós rasgamos e jogamos fora, para seguirmos com nossas vidas.

 

Quanto nossas manias ditam nossas personalidades?

 

Outro dos contos, chamado A CASA DE AÇÚCAR, trabalha muito com o TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo) da protagonista, a qual se recusa a morar em qualquer casa que tenha sido habitada anteriormente e, por uma mentira, acaba cedendo, se mudando para uma casa reformada e pagando um preço alto em sua personalidade.

Como mencionei antes, obviamente a situação apresentada é um extremo daquelas cotidianas que temos de lidar, mas traz imediatamente em como mudamos ao termos de quebrar, por bem ou por mal, alguns de nosso pequenos costumes. Quanto entramos no vale da estranheza em gestos simplórios como trocar os talheres de mão, passando a comer com o garfo na esquerda após anos usando ele na direita, e nos deixa pensando no que realmente aconteceria se tivéssemos um dos nossos taboos internos rompidos.

Passamos por diversas situações similares, mas quantas dessas vezes olhamos para nós mesmos e tentamos identificar o que aconteceu? 

 

Quanto nós fingimos para sobreviver?

Por fim, gostaria de mencionar também o primeiro conto, A LEBRE DOURADA, onde a fantasia chega ao ponto quase de uma fábula, por ter animais falantes, a própria lebre e os cães de caça que a perseguem, mas não deixa de metaforizar assim mesmo uma situação cotidiana numa roupagem extrema.

Quem nunca fingiu ser algo que não é para sobreviver num meio que não é o seu?

Para um conto de abertura, achei bem leve e com o gostinho de “testar” a água. Quando ela “bater na bunda” com o conto da Fúria, vai sentir que as coisas se construíram para chegar lá. O que não impede e muito menos dificulta a sua identificação com as situações e personagens.

 

Quanto devaneios exagerados podem tocar nossa mente?

 

Foi muito interessante passar por uma catarse dessas através das mãos de um terceiro. Jogar com sentimentos mundanos e cotidianos de uma forma bruta e “sem dó”.

Entretanto, gostaria de ressaltar aqui que o livro, todos os contos e as suas respectivas traduções, são mega bem escritos, com vocabulário elaborado, para não dizer rebuscado, dignos da época em que foram produzidos (mesmo podendo se tornar uma barreira para leitores desavisados e menos acostumados), e que não devemos confundir termos como viceral e bruto com grotesco e escatológico. A elegância está presente em cada página, o que torna ainda mais impactante a experiência.

 

Espero que gostem muito e que deixem aqui nos comentários as suas impressões.

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