Pages Menu
TwitterRssFacebook
Categories Menu

Homens gostam de coisas e mulheres gostam de pessoas: diferenças sexuais de estilo cognitivo

por em 24/01/2018 em Ciência | 7 comentários

Homens gostam de coisas e mulheres gostam de pessoas: diferenças sexuais de estilo cognitivo

“As pessoas se dividem basicamente, ao que parece,

em dois tipos, ou num continuum entre dois extremos:

há pessoas pessoas, e há pessoas coisas”

 ~ D. Hamilton, biólogo evolutivo

[“People divide roughly, it seems to me,

into two kinds, or rather a continuum

is stretched between two extremes.

There are people people, and things people.”]

Em meados de 2017, a internet veio abaixo com uma alegação polêmica de James Damore, então engenheiro da Google. Em um memorando enviado a seus superiores hierárquicos, Damore criticou as políticas de inclusão de gênero da empresa, constituídas para facilitar a entrada de mulheres em áreas dominadas por homens. Para ele, essas políticas de diversidade são um equívoco, pois partem do princípio de que as quantidades diferentes de homens e mulheres em determinada área acadêmica/profissional se devem apenas ao machismo. Na verdade, segundo James, essa desigualdade pode ser explicada também simplesmente por homens e mulheres terem diferentes preferências. Sendo assim, políticas de inclusão de gênero seguem sendo uma solução sem evidência de eficácia para um problema não estudado adequadamente. Quando suas opiniões vieram a público, James Damore foi demitido.

Muitos assuntos viram polêmicas desembestadas simplesmente porque o público leigo sabe muito pouco para levar uma discussão séria, o que se soma à falta de divulgação científica dos especialistas — que muitas vezes não falam justamente por medo de represálias.

Meu objetivo aqui não será julgar o mérito das ações afirmativas criadas pelo Google, tampouco discutir o valor da liberdade de expressão num ambiente de trabalho [principalmente em um como a empresa Google]. Também não vou explicar cada uma das diferenças cognitivas e de personalidade entre os sexos. Já existem matérias pontuando detalhadamente cada uma delas. Pelo menos no sentido estritamente técnico, Damore não errou ao apontar diferenças psicológicas entre os sexos.

Esse texto não vai ser uma repetição de matérias anteriores. Vou me concentrar nos diferentes estilos cognitivos que parecem estar por trás dessa variação desses traços de personalidade e que explicam as diferenças psicológicas entre homens e mulheres.

Sistematizadores e Empáticos

É possível caracterizar a cognição de várias maneiras, uma delas é em relação ao estilo cognitivo, que pode variar de acordo com dois contínuos: o da sistematização e o da empatia.

A sistematização descreve traços associados ao pensamento mecânico. Pessoas com altos níveis de sistematização conseguem descobrir facilmente como objetos funcionam, consertar e até criar mecanismos novos. Também tendem a ser boas classificadoras. Essas habilidades poderiam ser chamadas de física do senso comum (folk physics).

A empatia, por sua vez, descreve um espectro de traços associados ao entendimento e previsão de como as pessoas pensam e se comportam. São mais voltadas para a cognição social ou para a chamada psicologia do senso comum (folk psychology).

Diferenças entre homens e mulheres

Como você já deve ter imaginado, homens tendem a ser mais sistemáticos e menos empáticos, enquanto mulheres tendem a ser mais empáticas e menos sistemáticas.

Antes de partir para qualquer conclusão, é preciso entender um pouco a natureza dessas mensurações.

Essas diferenças entre homens e mulheres possuem natureza estatística. Isto é, quando usamos uma escala apropriada para medir os níveis de empatia e sistematização de uma amostra de pessoas, homens e mulheres tendem a apresentar diferenças.

Essa imagem representa as diferenças e semelhanças entre homens e mulheres. Apesar de haver grande sobreposição entre as duas curvas — o que indica que homens e mulheres são muito parecidos em seus traços — há certa área sem sobreposição, o que indica suas diferenças.

De forma alguma isso significa que cada homem e cada mulher individualmente correspondem a esse padrão populacional. Por exemplo, estatisticamente, o grupo dos homens pode ter alta sistematização e baixa empatia, mas nada garante que um homem específico nessa mesma amostra não apresentará índices diferentes da tendência do grupo.

Tendências possivelmente hormonais

Existem evidências de que esses padrões estão presentes desde muito cedo no desenvolvimento humano. Por exemplo, bebês masculinos sustentam o olhar por mais tempo em direção a objetos. Bebês femininos, por outro lado, sustentam o olhar por mais tempo em relação a pessoas, além de encarar rostos por mais tempo do que os bebês masculinos.

A testosterona parece desempenhar um papel fundamental nessas diferenças. Por exemplo, um estudo recente investigou o papel de níveis pré-natais e salivares do hormônio em duas amostras, uma de homens superdotados (QI>130) e uma amostra controle com homens normais (QI em torno de 100). Os homens superdotados tiveram níveis de testosterona pré-natal maior e salivar menor. Além disso, eles pontuaram significativamente menos em tarefas que envolviam a “leitura mental”, que é basicamente especular sobre o que uma terceira pessoa está pensando ou prever seu comportamento. Em outras palavras, eles apresentaram baixos níveis de empatia, o que pareceu estar correlacionado negativamente com a testosterona.

A relação entre testosterona e estilos cognitivos está presente em um transtorno altamente hereditário, o autismo. Toneladas de evidências mostram que quanto maior o nível de testosterona pré-natal, maior a chance de bebês nascerem com traços do espectro autista. Autistas são caracterizados por níveis mais elevados de sistematização e mais baixos de empatia, em comparação com a média populacional. Parece que os traços autísticos são uma espécie de maximização de características psicológicas tipicamente masculinas, graças à masculinização do cérebro possivelmente causada pela testosterona.

Outra consequência da relação entre traços mais masculinos, espectro autista e sistematização, são os tipos de interesses associados a temas de estudo ou brincadeiras durante a infância e idade adulta. Meninos em geral se interessam mais por hobbies ligados a coisas mecânicas, numéricas, classificáveis, enquanto meninas tendem a se interessar mais por brincadeiras associadas à empatia, leitura mental e relações sociais.

Cerca de 90% das crianças autistas desenvolvem algum hiperfoco, um interesse muito intenso e persistente num assunto. Geralmente esses assuntos dizem respeito à habilidade de sistematização (como interesse por ciência). Os interesses de meninas autistas variam um pouco em relação aos de meninos autistas. Elas podem se interessar em brincar com bonecas, mas suas brincadeiras ainda assim vão ter tendências mais sistemáticas e solitárias do que a especulações imaginativas e relações sociais.

Alguns pesquisadores acreditam que cientistas famosos como Marie Curie, Albert Einstein, George Price, Alan Turing e Paul Dirac estariam no espectro autista (https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC539373/)

Consequências sobre a vida acadêmica/profissional

Na vida adulta, essas tendências parecem impactar nas escolhas profissionais. É muito comum as mulheres desempenharem melhor que os homens em atividades associadas à linguagem e ao relacionamento interpessoal. Elas não só têm maior interesse em atividades associados ao exercício da empatia, comparando com os homens, como se saem melhor tanto no ambiente acadêmico quanto no profissional. O padrão contrário ocorre com os homens. Eles têm maior interesse e melhor desempenho em atividades associadas ao pensamento mecânico, em relação às mulheres.

Por exemplo, além de a maioria dos estudantes de enfermagem serem mulheres, alunos desse curso tendem a ter níveis de empatia maiores do que os de alunos de outros cursos. Um estudo realizado recentemente no Brasil revelou que homens tendem muito mais a escolher cursos de Exatas, enquanto mulheres, cursos de ciências Biológicas e de Humanas. Independente do sexo, os estudantes de Exatas tinham maior nível de sistematização e menor de empatia, enquanto os estudantes de Biológicas e Humanas tinham maior nível de empatia e menor de sistematização.

Um estudo de 2015, numa amostra de mais de 2000 americanos, verificou o quanto as diferenças cognitivas entre homens e mulheres explicavam as diferenças de quantidades de homens e mulheres em algumas carreiras. Parece que índices de sistematização e empatia diferentes explicaram em torno de 10-20% a assimetria sexual em áreas como construção, ciência e tecnologia, administração e educação. Esses índices não influenciaram a assimetria sexual na área da saúde.

O mecanismo é biológico, mas a causa é social?

Essas diferenças poderiam ser causadas pelo contexto de desigualdade social? Isto é, em vez de serem causadas pela biologia/psicologia diferente de homens e mulheres, poderíamos supor que contextos sociais com elevados índices de desigualdade de gênero poderiam empurrar homens e mulheres para certas áreas por mero efeito da discriminação social, não por preferências inerentes ao sexo.

Um estudo de 2016 investigou diferenças entre sexos e entre países de diferentes níveis de igualdade de gênero, em relação à ansiedade matemática. Ansiedade matemática é uma expressão que se refere à desmotivação em relação à área e ao mal-estar psicológico associado a fazer exames de matemática. Os resultados mostraram que quanto mais igualdade de gênero e quanto mais economicamente desenvolvido o país, menores os níveis de ansiedade social. Mas ao mesmo tempo, surpreendentemente, quanto mais igualdade de gênero, maior a diferença sexual em relação à ansiedade matemática, com o sexo feminino apresentando maior ansiedade que o masculino.

Isso pode acontecer porque em países mais estáveis economicamente e com maior igualdade de gênero as pessoas em geral tendem a se sentir mais livres para seguirem áreas acadêmicas diversas. Pode não haver pressão suficiente dos pais e da sociedade para ter uma carreira “mais compatível” com seu papel de gênero ou que dê retornos financeiros mais velozes. Mas o fato de nesses mesmos países mulheres terem maior ansiedade matemática que os homens, comparando com países menos desenvolvidos e mais machistas, pode significar que essa maior liberdade pode fazer com que homens e mulheres se sintam mais à vontade para seguirem as áreas mais compatíveis com seus talentos individuais. Assim, as mulheres poderiam tender a preferir carreiras mais ligadas à leitura mental, empatia e relações sociais, e a se afastar de áreas ligadas à sistematização.

Mas ainda é cedo para explicar por que isso acontece, se as habilidades de homens e mulheres em relação a raciocínio verbal e matemático seriam influenciadas pela igualdade de gênero de cada contexto analisado. Existem poucos estudos sobre isso, apesar das evidências já apontarem em alguma direção.

No final das contas, Damore pode ter causado mais polêmica por causa da sua maneira rascante de expressar ideias e por ter tocado num assunto que é extremamente polêmico no atual zeitgeist. Tecnicamente as informações do memo não parecem estar especialmente equivocadas. A sociedade luta pela igualdade e justiça como nunca. Nesse contexto, é esperado que as pessoas tendam a rejeitar qualquer informação que pareça sugerir que dois grupos não são exatamente iguais. Talvez o próximo passo para a eficiência desses movimentos seja promover a igualdade social de homens e mulheres levando em conta suas diferenças fundamentais.

 


Felipe Novaes, mestrando em Psicologia Social. Estuda a interface entre cultura e evolução. Gosta de reflexões mindblowing sobre filosofia da ciência e filosofia da mente, principalmente misturadas em doses de ficção científica. Acredita que Dataísmo pode ser o futuro. Tentando aprimorar suas habilidades Jedi no aikido.

Modo Noturno