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Games no Lab: Games indies, cantoras sem voz e nós vamos copiar sua mente

por em 30/11/2018 em Ciência, Games | Nenhum comentário

Games no Lab: Games indies, cantoras sem voz e nós vamos copiar sua mente

Nem só de grandes empresas e orçamentos milionários vive o mundo dos games (ainda bem). No meio disso tudo existem desenvolvedoras independentes que, com pouco dinheiro, mas com muita vontade de fazer jogos e boas ideias, nos trazem excelentes games. Elas são chamadas de indie, e a Supergiant Games é uma dessas desenvolvedoras. Em 2011 ela lançou seu primeiro game, Bastion, um action/rpg com visão isométrica. Com sua direção de arte incrível e trilha sonora marcante, o game foi sucesso de crítica e público, então não foi surpresa quando todos ficaram animados com o anúncio de um novo game da desenvolvedora. Transistor foi lançado em 2014 e é como um sucessor espiritual de Bastion, mantendo a visão isométrica, a excelente direção de arte além da magistral trilha sonora, porém a temática mudou, aqui estamos em um mundo sci-fi.

No meio de megacorporações e cidades comandadas por máquinas, conhecemos uma “arma” capaz de copiar a mente daqueles que foram mortos por ela. Tal arma armazena essas mentes e as usa na forma de golpes durante o combate. Essas mentes também se mantêm conscientes e falam com a protagonista dando conselhos, como se fossem inteligências artificias. Assim, é esse tema que iremos explorar: Já é possível fazermos uma cópia de nossas mentes? Ou melhor ainda, já é possível uma inteligência artificial ser alimentada com dados de uma pessoa e assim emular o comportamento de tal pessoa? Então não fiquei parado aí, planeje seus próximos movimentos e vamos entrar no mundo de Transistor, descobrindo se uma mente pode ser copiada.

Antes de tudo, um pequeno disclaimer: O tema desse texto é sobre realizarmos uma cópia da mente humana, ou seja, a mente original permanece “intacta” e a cópia se transforma em uma I.A. com a personalidade da mente original.

Isso é diferente de fazermos o upload da mente para outro corpo, máquina ou “rede”. São coisas parecidas mais ainda sim diferentes e, se o segundo caso também te interessou, já deixo aqui a recomendação do excelente texto do Felipe Novaes sobre o tema: Seria possível o upload da consciência?

Esclarecido isso, sigamos em frente. O game segue a história de Red, uma cantora que perdeu sua voz depois de sofrer um ataque durante um show. A cantora só não foi morta porque um homem se jogou na sua frente, se sacrificando por ela. Porém, a consciência desse homem foi copiada para a “arma” que o matou, o Transistor. Red então foge levando consigo a “arma”, que também serve como guia nesse mundo sci-fi, tanto para o jogador quanto para a protagonista, já que a mente copiada do misterioso homem não para de falar um só minuto. Assim, aos poucos vamos conhecendo esse universo, através dos constantes monólogos da consciência no Transistor.

Como a cor do cabelo já entregou, essa é a protagonista Red

Ao longo da história descobrimos que o responsável pelo atentado a vida de Red é um grupo conhecido como Camerata. Seus membros vão se revelando durante o game e funcionam como chefes de fase, e cada chefe derrotado tem sua mente copiada para o Transistor, liberando novos golpes e movimentos para Red. Essas mentes interagem com Red, contando mais sobre suas histórias de vida e sobre o mundo de Transistor.

No game não fica claro como o Transistor faz a cópia da mente das pessoas, o que podemos afirmar é que, para que isso ocorra, é necessário o contato físico entre a “arma” e o indivíduo que terá a mente copiada. Então vamos conhecer em que pé anda essa tecnologia no nosso mundo e supor como poderia ser o funcionamento da “arma”. Mas antes vamos entender melhor o que é um transistor na vida real e se seu funcionamento serviu de alguma inspiração para o game.

Contemplem o verdadeiro Transistor!

Transistor, de maneira simplificada, é considerado um tipo de interruptor. Ele pode operar como uma chave liga/desliga, porém com diversas configurações direcionando cargas de energia para circuitos elétricos. Eles foram criados na década de 50 com a intenção de substituir as antigas válvulas eletrônicas que regulavam as cargas de elétrons em equipamentos eletrônicos. Sua invenção foi um sucesso e revolucionou o mundo da eletrônica, já que os mesmos eram menores, mais baratos e “transmitiam” mais energia, se comparados às válvulas eletrônicas. É graças aos transistores que hoje temos computadores pessoais (PCs), celulares e nossos queridos videogames.

Fazendo uma pequena analogia, um transistor pode ser considerado uma “ponte” entre circuitos elétricos. Aparentemente foi apenas isso que inspirou os desenvolvedores a dar o nome Transistor a “arma” do game, já que essa “arma” serve de ponte às mentes copiadas para o local conhecido como “O País”, uma espécie de matrix ou céu (isso não fica muito claro).

Vamos agora partir para a tecnologia de copiar mentes e conjecturar sobre o funcionamento da “arma” no game.

Infelizmente hoje ainda não temos nada concreto nessa área, porém diversos estudos estão sendo feitos em paralelo. Um exemplo é o curso de conectomia do MIT, em que pesquisadores tentam criar um mapa que contenha todas as conexões do cérebro humano. Já em outro projeto, o “US Brain”, especialistas tentam registrar a atividade cerebral de milhões de neurônios. Na Europa, o projeto “EU Brain” tenta simular essas atividades.

Esses são grandes passos em direção a um ponto em que seremos capazes de copiar um cérebro humano em sua totalidade. Hoje já é possível mapear pequenas amostras do tecido cerebral em três dimensões. Talvez à medida que novas tecnologias forem sendo descobertas, partes escanceadas do tecido possam ser convertidas em informações e rodadas em um simulador.

O próprio Google possui um projeto chamado Google Brain. O diretor do projeto, Ray Kurzweil, diz que acredita ser possível fazer um back-up do cérebro, afirmando que ainda estaremos vivos para ver isso. Nessa mesma linha de pesquisa, um empresário russo, Dmitry Itskov, fundou um projeto chamado de “Iniciativa 2045”, com o objetivo de que em 2045 já possamos fazer uma cópia de nossas mentes. Ainda não foi divulgado nenhum resultado positivo desses projetos, porém, é visível que existem esforços para se desenvolver essa tecnologia.

Uma dificuldade em se copiar mentes hoje é que todos os avanços que conhecemos nessa área possuem métodos extremamente invasivos, sendo difícil até agora evitar a destruição da mente copiada. Isso, de certo modo, explicaria o “porquê” de no game o Transistor só conseguir copiar mentes de indivíduos que foram mortos pela “arma”. Talvez, nesse processo de copiar a mente, seja necessário que o cérebro seja despedaçado.

Ainda nessa linha, pesquisadores da Universidade Tecnológica de Viena, na Áustria, conseguiram copiar o cérebro de um verme para um computador e depois transferi-lo para um corpo robótico. Melhor ainda, o novo “verme” foi treinado para balançar um objeto em sua cauda por um processo similar ao usado para treinar cães. A cópia do cérebro do verme é uma única linha de código que foi inserida no programa do “robô”, não sendo alterada ou programada pelos pesquisadores. Vale ressaltar que o corpo do verme original mede um milímetro de comprimento e tem apenas 300 neurônios, que formam seu sistema nervoso. É uma criatura exatamente simples, mas o processo se mostrou um sucesso e até agora nada indicou que, com melhores técnicas, não seja possível fazer a mesma coisa com animais mais complexos.

Agora uma pergunta: São nossas experiências e as lembranças delas que definem quem somos? Se sua resposta for sim, talvez para copiar sua mente não seja preciso abrir seu crânio. O site Eterni.me oferece serviços que preservam a “consciência” de uma pessoa mesmo depois de sua morte. Através do acesso às redes sociais, e-mails e uploads de fotos e históricos geográficos por onde tal pessoa esteve, o site consegue filtrar e processar essas informações criando um avatar que imita a personalidade do indivíduo. Quanto mais informação o avatar recebe, mais ele se parecerá com o indivíduo.

Segundo Marius Ursache, um dos criadores do site, “A ideia é criar um legado interativo, uma forma de evitar que (a pessoa) seja totalmente esquecida no futuro”. Por enquanto essa tecnologia ainda está “engatinhando”, e talvez o sistema precise receber informações por décadas para que se torne preciso, porém já é um começo e o serviço está em funcionamento. E se você está achando isso muito parecido com um episódio de Black Mirror, acertou. A ideia do serviço é exatamente a mesma mostrada na série. Com a diferença de que o avatar seria apenas virtual, nada de replicantes andando por aí, por enquanto…

Só mais uma imagem, porque a arte desse game é incrível

E isso é tudo pessoal. Chegamos ao fim de mais um texto, espero que tenham gostado. Esse acabou sendo um tema mais leve, sem muitas “extrapolações”. Fica a recomendação para jogarem Transistor e/ou Bastion, os dois são ótimos games indies que merecem sua atenção e, se possível, ouçam a soundtrack dos games, é maravilhosa. Os links aqui e aqui. Críticas, sugestões ou devaneios existenciais são bem-vindos. Até a próxima.

Fontes: Wikipedia, Transistor Wiki, Tecmundo Transistor, Tecmundo Verme Robô e BBC  Brasil