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Ciência em Crise (?) – parte III: Informação não é conhecimento

por em 13/03/2018 em Ciência | Nenhum comentário

Ciência em Crise (?) – parte III: Informação não é conhecimento

Finalmente, chegou ao fim a série que iniciei no ano passado e que prometi que seria uma trilogia falando sobre uma (suposta) crise atual do conhecimento científico (acesse aqui e aqui). Relembrando, este sentimento surgiu e começou a ganhar força ao longo do tempo por eu estar sendo bombardeado diariamente com um monte de non-sense sobre os mais diversos temas (Terra Plana sendo a gota d’água). Daí, resolvi escrever algumas coisas relacionadas ao assunto com o intuito não só de compartilhar meus sentimentos ruins em torno deste (aparente) retrocesso, mas também de tentar organizar as ideias e entender como podemos estar vendo negacionismos e debates tão infundados em um mundo onde as fontes de informação estão cada vez mais acessíveis e no qual nossa dependência da ciência e de suas tecnologias nunca foi tão grande.

Após muito gastar neurônios pensando sobre isso, a principal conclusão a que cheguei é a que dá título ao post: informação não é conhecimento. Estar soterrado de dados, notícias, papers, livros, posts, etc. não garante que você seja um polímata que sabe tudo o que existe para ser sabido e possa dar opinião sobre qualquer assunto. A informação simplesmente não entra por osmose no cérebro e, não, aquela técnica de aprender dormindo não funciona.

O grande fato atual é que nossa atenção é extremamente disputada por todos os lados. São coisas demais para serem absorvidas por minuto. A quantidade de conteúdo sendo produzido aumentou exponencialmente, todavia, o tempo não mudou. Ainda temos a mesma quantidade de minutos por dia e estes ainda valem os mesmos 60 segundos. Ou seja, para adquirir tanto conhecimento quanto tanta gente acha que tem, só existem dois caminhos: ou você se torna sábio somente depois de velho, por ter tido tempo de digerir toda a informação a que se expôs e formar opiniões coerentes, ou você se torna muito superficial em tudo, pescando uma ideiazinha aqui e outra ali e colando as peças com cuspe.

O que vemos, arrisco dizer, em mais de 95% dos casos, é a segunda opção. Devido a este sentimento coletivo de que nunca fomos tão sábios, as pessoas não querem entender profundamente o que está acontecendo. O que se faz não raro é tirar todas as conclusões e previsões a partir de uma foto atual do presente ou de poucas premissas básicas e clichês, sem querer nem saber como aconteceu nem tentar imaginar o que poderá acontecer.

Apesar da nossa ilusão de controle, o mundo ainda continua sendo um lugar onde a instabilidade e a incerteza são constantes e que, por isso, não existe uma resposta certa para todos os tipos de pergunta. Simplesmente, muitas vezes, a melhor resposta é um sonoro “Não sei!”. É aí que mora o perigo. Todo mundo acha que entendeu como as coisas funcionam, que não há nada mais para ser descoberto, ou que o conhecimento humano já chegou a um estágio em que flui do cérebro dos especialistas para a grande massa populacional. Destas ilusões e sentimentos que algumas pessoas têm de serem super-humanos é que começam a surgir os negacionismos dos mais diversos.

Um exemplo são os anti-vaxxer ou, como costumo chamar, “os malucos brincando de roleta-russa com os filhos”. Paradoxalmente, vemos um crescente número de pais que não levam os filhos para vacinar justamente naqueles grupos com maior acesso a recursos, sejam financeiros puros ou derivados da aquisição de conhecimento especializado. Para mim, está muito claro que esta tendência anti-vacina é fruto do imenso sucesso que as vacinas atingiram, isto é, tem a ver com uma baixa percepção de risco.

Minha geração conviveu muito de perto com pessoas com marcas de varíola e com dificuldades de locomoção por conta da poliomielite. Conheci pessoas do meu círculo social que morreram de sarampo, crianças com deficiência auditiva por conta de rubéola gestacional, etc. Estas doenças faziam parte do cotidiano de quase todos que nasceram antes dos anos 90 e não distinguiam classe social. Qualquer pessoa, rica ou pobre, estava sujeita a pegar uma dessas doenças e morrer ou ter sequelas. O medo era forte e fazia com que todas as famílias se esforçassem muito para que suas crianças se vissem livres disso.

Hoje, como estas cenas não são mais comuns no dia-a-dia, nossa ilusão de controle nos tapeia, porque achamos que a medicina está tão avançada que as doenças já são um mal superado e que as epidemias ou fazem parte do passado ou que ainda persistem somente naqueles locais com acesso precário aos recursos. E isso, infelizmente, também tem se aplicado a doenças que ainda não têm cura, como a AIDS.

Então, o que acontece é que muitas pessoas muito bem aquinhoadas financeira e intelectualmente começam a se sentir praticamente imunes a diversas doenças infecciosas, visto que estas ainda são associadas à pobreza. Quando o que está em jogo é a sobrevivência, não há espaço para exotismo. Faz-se o que tem de ser feito para garantir o futuro. Quando ocorre o contrário, a ilusória supressão de volatilidade percebida na vida de quem chegou a um certo patamar de conforto material alimenta o tédio do cotidiano e se torna terreno fértil para experimentações heterodoxas. Se estas experimentações se restringissem só aos adultos entediados, tudo bem. O problema é que coloca em risco a vida de crianças e/ou de comunidades inteiras, uma vez que a imunidade compartilhada por um grupo também é importante.

A grande ironia é que esta percepção de invencibilidade termina em casos de epidemias, fomentando outro fenômeno curioso: a corrida para fugir do fim do mundo. Pessoas desesperadas porque não há vacina nos postos, entupindo pronto-socorros ao primeiro espirro ou ainda elegendo vítimas inocentes como culpados.

Ou seja, o povo se acha invencível e adota um discurso pomposo anti-científico quando as coisas vão bem. Mas, basta uma pequena quebra na bolha social pessoal de cada um para que o comportamento irracional e de manada apareça. Como corolário, fica a lição: a volatilidade reflete a diferença entre o mundo como imaginamos e o mundo como ele realmente existe. Às vezes, pode dar ruim!

O próximo assunto é um pouco mais mamileiro: aquecimento global/mudanças climáticas. Existe? Invenção? Fruto de conspiração capitalista/globalista/comunista/ escolha-seu-ista? Para não espichar desnecessariamente este assunto, já que a base científica fundamentando a existência de aquecimento planetário anômalo está bem explicada, vou tecer alguns poucos comentários sobre o outro lado, os discordantes.

Em princípio, qualquer hipótese científica está sujeita a discordâncias e ceticismo. Isso é normal e saudável, uma vez que a principal diferença entre ciência e outras formas de ver o mundo é a sua possibilidade de ser falseada.

O grande problema dos negacionistas, inclusive daqueles acadêmicos que são céticos com relação ao aquecimento, até onde eu pude apurar, é que eles falham em mostrar provas convincentes de que a hipótese do gás carbônico é falsa. A maior parte do que se diz é retórica circular, argumentação ad hominem, falácia de autoridade, hipóteses conspiracionistas e muita lacração em redes sociais e YouTubes da vida. Zero pesquisas publicadas em revistas revisadas por pares, que é como, de fato, se publica ciência.

Mas, só para complicar um pouquinho o meio de campo, vamos para o plot twist: eu não nego que existem evidências do aquecimento global, mas isso não me torna menos cético em relação ao assunto, já que, como eu disse antes, o ceticismo saudável e racional deve acompanhar todo cientista. O que eu quero dizer é que não necessariamente endosso 100% do que é falado sobre o assunto. Meu principal ponto de discordância é em relação às projeções catastrofistas para o futuro, como se o planeta todo estivesse em perigo. O planeta, como eu sempre digo, está pouco se lixando para o que acontece. Ele vai continuar aí, como já está fazendo há bilhões de anos. A vida vai se extinguir e ressurgir com novas roupas como já aconteceu em pelo menos 5 ocasiões anteriores.

A grande preocupação é com a nossa espécie que pode, sim, padecer, principalmente em regiões menos assistidas financeiramente. Por isso, não costumo dar ouvidos a quem tenta impor certas agendas claramente ideológicas usando a desculpa de salvar o planeta do aquecimento global, não raro apelando para a emoção ao invés da razão. Principalmente, aquelas relacionadas ao que se deve comer, vestir, consumir e como se deve morar. Antes de vir com soluções radicais, vamos garantir que todos os seres humanos tenham pelo menos o que comer, vestir, beber e onde morar? Poucas pessoas param para refletir que a sua saída para um mundo melhor pode interessar somente a um círculo restrito de convívio, sendo uma porcaria para os vizinhos no quarteirão do lado.

Há muito mais entre o gênio de Facebook e a sabedoria do que supõe nossa vão ilusão (fonte)

Para concluir, qual a solução para não se perder mais tempo com este assunto: simplesmente, não discuta sobre isso. Ou só o faça em caso de receber algum benefício relacionado ao seu posicionamento seja de um lado seja do outro. Deixem-me elaborar um pouco melhor: quem se posiciona contra, recebe muito views no YouTube, downloads no seu podcast ou vende muito livros, justamente porque é contrário a algo hegemônico. Ou seja, obtém vantagens, nem que seja no ego. Polêmica dá audiência.

Quem é a favor, ganha consideração na academia ao publicar um paper impactante em uma revista de prestígio ou, se tiver na iniciativa privada, ganha dinheiro por explorar energias limpas, vender soluções verdes, etc (né, Elon Musk?). O caso é que o aquecimento global já está tão consolidado na mentalidade das pessoas que a busca por um mundo mais “limpo” não tem mais volta. O mercado fechará as portas para quem lutar contra. O resto da massa fica desperdiçando seu tempo escasso discutindo algo inútil de ser discutido, simplesmente porque vai acontecer o que tiver que acontecer, não interessa quais hashtags bombarão no Twitter.

Por último, vou dar meu pitaco em mais um “negacionismo” que tomou conta das Internets no ano de 2017 e que é um dos maiores desperdícios de tempo e recursos que eu já vi nos últimos tempos: saber se o Nazismo era de direita ou de esquerda.

O Nazismo foi um regime monstruoso, que revelou as faces mais perversas da humanidade e escancarou até onde o fanatismo pode levar um povo a cometer barbaridades contra outros povos simplesmente por eles não seguirem um padrão pré-estabelecido. Per se, é uma coisa tão abjeta que não deve ser esquecida para jamais ser repetida. Que diferença faz se de direita ou de esquerda?

Duas lições que se podem tirar desta história toda: (1) o regime causa tanto asco até hoje que ambos os lados do espectro político fazem mil e um malabarismos retóricos para empurrar a culpa para o outro lado, afinal, ninguém reclama paternidade de filho feio e (2) novamente, quem se beneficia e colhe os dividendos da polêmica é quem lança a ideia na mesa pela primeira vez. Todo o resto vai atrás sem ganhar nada de concreto.

Para concluir: a ciência como forma de conhecer o mundo não está em crise. O negacionismo científico sempre existiu e sempre existirá. O que chama a atenção e nos choca atualmente é que nossa era é uma das mais científicas e tecnológicas da humanidade. Devemos quase tudo o que temos hoje de conforto e possibilidades ao conhecimento humano adquirido através do método científico. Além disso, a realidade é absoluta, não importa a sua ideologia. As leis de funcionamento dos sistemas físicos do nosso universo vão continuar funcionando como sempre fizeram, não importa se você não gosta ou discorda. Inventar fatos “alternativos” para explicar coisas simples é correr o sério risco de ficar alijado dos processos sociais diferentes que estão surgindo a todo momento. E o pior, de maneira voluntária e consciente.

Até a próxima!

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