Um funcionário de buffet está terminando de montar um prato de aperitivos. Ele está muito apreensivo, pois começou bem cedo e não vê a hora de ir embora. Quando finalmente termina, percebe que ele e seus colegas deixaram montanhas e mais montanhas de alimentos que não puderam ser aproveitados. Ou porque eram partes defeituosas, ou por não participarem da montagem da receita.
Ao ver aquele desperdício, o funcionário e seus colegas logo dialogam com o supervisor sobre a possibilidade de levarem aqueles alimentos para suas casas, afinal seriam desperdiçados, não haveria motivo para não serem doados, não é mesmo? Mas o nobre líder disse que ninguém poderia levar os itens, alegando segurança alimentar. Isso está realmente certo?
No texto, vamos entender como as doações de alimentos podem se relacionar com a segurança alimentar. Afinal, se eu tenho um restaurante, não posso doar alimentos? E existem critérios para que eu consiga dar essas sobras aos outros? É o que iremos ver hoje!
Muitos devem pensar que perdemos e desperdiçamos muito alimento aqui no Brasil, logo deveríamos estar mais preocupados em doar toda a comida que seja possível. Bem, no cenário brasileiro, segundo o índice de Perda Alimentar (IPA), cerca de 14% de todos os alimentos se perdem antes de chegar ao varejo [1]. Apesar de não ser 30% como outras métricas antigas informam, ainda é um número alto.
Aqui precisamos fazer uma distinção importante: a diferença entre perda e desperdício. A perda ocorre na fase inicial da cadeia, tanto na produção quanto nas etapas de processamento. Já o desperdício ocorre nas fases de venda, manipulação em serviços e consumo residencial. Apesar de esta distinção ser importante, a quantidade descartada permanece relativamente igual para cada fase.
No Brasil, é estimado pela Embrapa o descarte de 37 milhões de toneladas de alimentos em virtude de perda/desperdício [2]. Isso nos deixa com um prejuízo real em torno de 61,3 bilhões de reais por ano. E também nos coloca na posição de 10º país que mais desperdiça alimentos [3]. É muita coisa, mesmo para um país com perfil produtor.
Agora que já temos uma ideia do panorama geral, fica uma pergunta no ar: se temos esse cenário de desperdício, por que não podemos simplesmente doar esses alimentos que sobram dos eventos e serviços? Diariamente, quartéis, restaurantes e organizadores de festas jogam muita comida fora. E se pudéssemos usar toda essa massa de comida pra frear a insegurança alimentar?

Imagem um. Banco de Alimentos entrega mais de quatro toneladas de doações arrecadadas após evento [4]. Essas entidades são responsáveis por gerir a cadeia de alimentos arrecadados, garantindo armazenamento, transporte e distribuição por tempo determinado. Assim, mantêm a segurança alimentar de diferentes modos. Na figura, podemos observar uma equipe tirando foto atrás de caixas de plástico cheias com alimentos dispostos embaixo de árvores.
A verdade é que todas as empresas podem se tornar doadoras de alimentos. Porém, existem sim barreiras para que consigamos manter uma certa qualidade dos alimentos doados. Precisamos nos lembrar que, como já foi mostrado aqui, a segurança alimentar também diz respeito à qualidade nutricional da comida em questão. E, nesse caso, temos que nos ater à possibilidade de o alimento estar contaminado com alguma Doença Transmitida por Alimento (DTA) ou ser vetor de Doença Diarreica Aguda.
Em nível legislativo, a lei 15.224 de 2025 é a que melhor versa sobre o assunto [5]. Ela dispõe sobre a Política Nacional de Combate à Perda e ao Desperdício de Alimentos (PNCPDA), criando inclusive um selo que identifica as instituições que se preocupam com a temática. Na lei, também temos a criação de microcoletas (que visam aproximar doadores de receptores) e a Rede Brasileira de Banco de Alimentos.
Para trabalhar como doador, o instrumento legal nos diz que o estabelecimento deve contar com um profissional legalmente habilitado que ateste a qualidade sanitária daquilo que será doado. E, dessa forma, será necessário que ele atenda certas necessidades logísticas e sanitárias, assim evitando que o alimento seja contaminado depois que ele perdeu sua finalidade no restaurante ou buffet.
Basta lembrarmos que o tempo de vida do alimento já começou a contar desde que ele foi preparado. A logística da doação precisa ser impecável para evitar gargalos e problemas.
O armazenamento, transporte e distribuição precisam estar adequados a esses novos processos físicos e térmicos que estão ocorrendo no alimento [6]. E o manipulador ainda deve estar de acordo com o preconizado pela RDC 216 de 2004, que dispõe sobre Boas Práticas de Manipulação de Alimentos.

Imagem dois. Justiça suspende lei de Piracicaba (SP) que prevê multa de R$ 3 mil para quem doar para pessoas em vulnerabilidade sem autorização da Prefeitura [6]. Os excessos da norma extrapolaram o entendimento de doação segura do governo federal. Na figura, podemos observar diversas marmitas com arroz, feijão tropeiro e macarrão.
Embora tenhamos o entendimento de que burocracia é algo ruim, a verdade é que ter controle sobre processos e variáveis é algo benéfico para todo tipo de sistema. E com a doação de alimentos não pode ser diferente. Afinal, não sabemos da intenção de algum doador e sempre poderemos ser vítimas de alguma intercorrência na esfera civil, criminal ou administrativa.
Assim, nosso personagem precisa se ater a algumas questões se quiser comer algum alimento industrializado, minimamente processado ou in natura daquele montante. Primeiro: descartar os alimentos expostos a contaminações durante o buffet [7]. Não vale pegar algo que já ficou exposto na festa, sendo vítima de perdigotos, contatos com mãos, adereços e utensílios e outros agentes ambientais.
Segundo: a doação precisa ser rápida, respeitando o limite máximo de armazenamento de alimentos prontos já normatizado pela RDC 216/2004. Observar o limite máximo de 6 horas a 60ºC para armazenamento sob calor e período igual sob refrigeração.
Terceiro: em todo alimento manipulado coloque embalagem, seja plástico filme, sacola de conservação ou embalagem descartável. E não se esqueça de colocar dados como o dia de manipulação e recomendação de consumo imediato. Ah, e não se esqueça de que existem pessoas alérgicas podendo receber estes alimentos! Caso contenha algum componente alergênico, é bom deixar isso bem exposto.
Assim, aquele carinha do início poderá criar todo um segmento de logística reversa dentro de sua empresa, e poderá beneficiar a si mesmo e à sociedade com doações seguras e íntegras. O caminho para a segurança alimentar não é fácil, mas com certeza envolve muitos agentes que têm boa índole no processo.

