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Ciência em Crise (?) – Parte II: A Polêmica das Publicações Científicas

por em 10/09/2017 em Ciência | Nenhum comentário

Ciência em Crise (?) – Parte II: A Polêmica das Publicações Científicas

Como comentei no último post que escrevi, aquele seria o início de uma trilogia sobre a crise (?) na ciência que estamos vivenciando atualmente. Para quem não captou a ideia da primeira parte, eu escrevi sobre a tentativa de Lysenko de fazer melhoramento em plantas para fins agronômicos sem levar em consideração as Leis de Mendel e a teoria evolutiva darwinista como um cautionary tale em relação aos perigos potenciais que a aplicação cega de alguma ideologia travestida de “ciência” pode causar à sociedade.

Na época, os experimentos de Lysenko não vinham a público via periódicos científicos tradicionais e confiáveis, como é de praxe ser feito para se comunicar os resultados de algum experimento e submetê-lo ao escrutínio público. Eles eram divulgados pelas páginas do jornal oficial do regime soviético, não sendo passíveis de análise crítica e contra-argumentação. Assim, este post será justamente sobre isso: uma análise reflexiva sobre o momento atual das publicações científicas, sobre como estas informações chegam ao público e sobre a disputa entre acesso pago vs. acesso aberto.

Minhas considerações serão bastante pessoais, aquelas de uma pessoa que está dentro do esquema, de alguém que vê como as coisas acontecem. Ou seja, tentarei analisar a realidade cotidiana, deixando as utopias de lado. Claro que eu sei que isso não é totalmente possível, por isso, algumas colocações podem ser um pouco polêmicas. Portanto, aguardo uma boa discussão nos comentários (com educação e polidez, ok? Não responderei comentários sem argumentação lógica nem xingamentos gratuitos).

Para começar, concordo plenamente que é absurdo um pesquisador entregar os dados de uma pesquisa científica para uma editora que passa a ser a “dona” destes dados para qualquer uso que bem entender. Não tenho dúvida que isso é algo totalmente insano sob qualquer aspecto. Ainda mais em uma época em que os custos com armazenagem, processamento, correspondência, são cada vez menores, devido à digitalização massiva que vem ocorrendo. Com relação a isso, leiam aqui a tradução que fiz de uma postagem fantástica de um blog sobre ecologia, na qual os autores fazem o que eu chamaria de “reportagem investigativa” a respeito deste business que é a publicação científica atual e a conclusão é uma só: são as maiores margens líquidas de lucro em qualquer negócio.

Todavia, muito do que se diz sobre os artigos de acesso aberto (Open Access) é ingênuo, para dizer o mínimo. Em primeiro lugar, é uma grande falácia dizer que o acesso pago dos artigos em periódicos científicos impede o público de saber o que está acontecendo no mundo científico. A imensa maioria das pessoas está tomando Activia com Johnny Walker para publicações científicas. Chutaria que em torno de 5-10% (com muito boa vontade!) da população mundial tem interesse em ler alguma grande descoberta publicada na Science, Nature, Cell ou PNAS. E isso que estas revistas são populares, aquelas que entram no radar dos jornalistas daqueles veículos de imprensa que ainda mantém algumas seções de ciência nos seus cadernos ou revistas (e não raro ainda escrevem bobagem!).

Agora, imaginem quem é o público interessado em ler algum artigo publicado na Plant Ecology, Ecology Letters ou Evolution, só para citar algumas? Todas estas são publicações mainstream, respeitadas, com fator de impacto alto, mas totalmente específicas, com escopo de público restrito. Ou seja, pensando em um modelo de negócio de cauda longa, são publicações de nicho, com um potencial de pessoas interessadas bem limitados. Por que haveriam de ser Open Access? Para o grande público, estas revistas não fazem a menor diferença.

Para colocar um pouco mais de lenha na minha argumentação sobre a falácia do “tem de ser livre para permitir a divulgação da ciência”, vejam o exemplo da base Scielo. Esta base é um agregador de periódicos, a maioria brasileiros, muitos em Português, a qual é livre para qualquer pessoa acessar de sua casa, pelo celular, pelo tablet, pelo computador, podendo-se baixar, imprimir, distribuir, etc. No entanto, quem lê e se interessa pela ciência sendo divulgada ali? Eu tenho bastante propriedade e experiência para dizer que uma boa porcentagem dos alunos universitários sequer sabem direito que a base existe e para que serve. E muitos dos que sabem, ignoram solenemente.

Um fato sobre o Open Access que pouca gente divulga é que uma grande parcela destes periódicos é predatória, publicando qualquer coisa e cobrando taxas na casa do milhar de dólar. Todos os dias eu recebo dois ou três e-mails dizendo que meu trabalho é muito bom e que eu deveria considerar o periódico XYZ para submeter os próximos trabalhos. Como eu sou um ninguém cientificamente falando, assinalo todos como Spam, mas parece que estas editoras são como a Hidra de Lerna: corta-se uma cabeça, duas mais nascem no lugar. O que um pesquisador conceituado sem tempo de conferir journal por journal faz quando recebe um convite desses para publicação? Ou repassa para seu bolsista fazer a triagem (para quem tem estes privilégios), ou simplesmente ignora qualquer coisa que não sejam as editoras tradicionais.

Multiplicação de periódicos open access predatórios (fonte)

Por este raciocínio, é fácil chegar a um dos motivos porquê a publicação científica de grandes editoras continua tendo uma fila imensa de gente querendo publicar: credibilidade. E isso se retroalimenta: quanto mais gente querendo publicar, maior a taxa de rejeição, redundando em uma maior qualidade dos artigos, que aumenta o fator de impacto das revistas, que por sua vez aumenta a taxa de submissão e assim por diante. É uma roda que se auto-sustenta por que acadêmicos vivem de prestígio. Não é o dinheiro no bolso que move um pesquisador, já que no serviço público brasileiro, por exemplo, os salários são tabelados (e sim, a forma mais viável de ser cientista profissional no Brasil é sendo professor federal). Você não ganha bônus por produtividade, ao menos não automaticamente e no curto prazo. A única coisa que muda é o tamanho do seu ego, que por sua vez se alimenta do Fator de Impacto dos artigos onde se publicam os trabalhos.

Outra coisa a ser dita é o preço que os Open Access cobram, mesmo aqueles sabidamente de boa qualidade e não predatórios, como PLoS One ou os periódicos da Biomed Central. A taxa de publicação nestas revistam está na faixa dos 1500-3000 dólares o artigo aceito. Em uma época de corte de verbas maciço nas universidades públicas e com um dólar flutuando em torno de 3:1, alguém em sã consciência acha que há algum incentivo para que se publiquem os artigos em Open Access? Mal existe dinheiro para pagar uma bolsa para os alunos ou comprar insumos para o laboratório. Aqui no interior onde trabalho, longe de qualquer grande centro, as coisas estão muito piores. Eu tenho tentado fazer minhas pesquisas baseado em ideias boas e baratas. Experimentos mais sofisticados ou se faz em parceria ou se aborta a intenção, porque simplesmente não existe dinheiro para isso. E de onde eu tiro as ideias inovadoras? De revisões bibliográficas, cujas fontes são outros artigos, de bases de dados públicas ou não. Estas fontes são, na sua grande maioria, revistas prestigiadas e pagas, que eu só consigo acessar através do meu log in institucional. E os resultados destas ideias inovadoras vão acabar sendo publicados naqueles periódicos de boa qualidade e que não cobram taxas de publicação dos autores.

Não é um caso de falta de, digamos, amor pela ciência ou falta de preocupação sobre quem vai ler o meu artigo. É simplesmente um caso de pragmatismo: temos que trabalhar com o que nos é oferecido. Igualmente, lamento que a CAPES tenha que gastar uma fortuna toda vez que eu baixo um artigo estando logado na plataforma institucional. Mas, eu tenho que publicar, para ganhar prestígio, para poder concorrer a um edital e aí sim ter dinheiro para poder pagar um Open Access. Existe uma sequência lógica a ser seguida para sobreviver e prosperar no meio acadêmico. O idealismo do conhecimento livre é bacana, compartilho da causa, mas a realidade custa caro e existe um passo a passo até você conseguir firmar seu nome e se tornar relevante para uma agência de fomento.

Além do mais, quase não existe dinheiro que não seja público (isto é, bancado por impostos e/ou emissão de dívida) na pesquisa brasileira. Quando eu peço dinheiro a uma agência de fomento para realizar um projeto e discrimino no meu orçamento que uma parte do montante vai ser usada para pagar as taxas de uma publicação em Open Access, estou igualmente gastando dinheiro público para fazer isso (porque CNPq, CAPES e FAPESP, só para ficar nas mais conhecidas, são bancadas via impostos). E mesmo que eu diga para o meu filho de três anos: “Sem festa de aniversário este ano, vou precisar gastar milhares de reais para publicar um artigo em um periódico pago, mas que será lido por todos, porque a ciência precisa ser livre”, ainda assim, o dinheiro é público, porque sou professor federal cujo salário é bancado via impostos. Ou seja, a fonte é a mesma, só muda a rubrica. E pela regra da teoria econômica que diz que seres humanos respondem a incentivos, os pesquisadores colocam na balança tudo isso e preferem não pagar diretamente, já que na equação custo/benefício, a vantagem está em colocar seu artigo no periódico com maior visibilidade possível com o menor custo possível. E aí se explica o volume absurdo de gente querendo entrar na Nature ou na Science (este que vos escreve inclusive. Consegui a proeza de ter um artigo rejeitado pela Nature em questão de horas).

E aqui vai uma pequena crítica, necessária, aos defensores viscerais do Open Access, mas que ainda são bolsistas: ter uma bolsa é uma bolha. Antes de virem com as tochas para cima de mim (too soon?), encarem o que vou dizer mais como uma reflexão do que como uma crítica destrutiva. Já fui bolsista durante muitos anos na pós-graduação e posso dizer com segurança: é totalmente diferente você estar do outro lado, com a pele em jogo, todo o dia tendo que administrar desde impressoras que não funcionam até a falta de estrutura para pesquisa, tendo que adaptar os projetos para lidar com a falta crônica de financiamento. Enquanto bolsista, é fácil ser defensor de bandeiras progressistas e dizer que só publica em periódicos Open Access. Alguém está pagando esta conta, e aposto que não é o bolsista. Espero que antes de se ofenderem com minha crítica, pensem profundamente sobre o que eu disse. E deixo o espaço totalmente aberto para uma réplica se estiver equivocado na minha impressão.

Em conclusão, na minha opinião, o que mais ajuda a divulgar ciência para o grande público não é colocar todos os artigos em Open Acces, mas exatamente o que o Deviante (valeu por começar isso aqui, Silmar!) e tantas outras iniciativas, como o Nerdologia, o Canal do Pirula, o Carlos Orsi, o Fronteiras da Ciência, o Carlos Cardoso, o Dragões de Garagem, o Naruhodo, etc. estão fazendo: usar as ferramentas digitais atuais, gratuitas e populares, para divulgar os resultados dos artigos em uma linguagem acessível e divertida. Isso sim deveria ser mais incentivado. Quantos Neil DeGrasse Tyson existem por aí e não são incentivados a usarem estas habilidades para divulgarem ciência?

Para finalizar (de verdade!), só gostaria de deixar (mais) uma pequena crítica ao pessoal pelas Internets afora que resolvem debater nosso apagão científico atual (e não penso em ninguém específico, estou falando como um todo): sempre que se quiser falar sobre temas bastante acadêmicos, sobre o dia-a-dia da pesquisa no Brasil etc., tentem conseguir alguém que seja pelo menos professor universitário e não só estudantes de pós-graduação. Como eu disse, nada contra os bolsistas, o fato é que acreditem, o choque de realidade é muito grande quando se está do outro lado do balcão.

E juro que não estou dizendo isso com a intenção de ser eu o convidado. Pois como eu disse antes, eu sou um grande ninguém ainda academicamente. Já participei de dois Scicasts e me dou por satisfeito. Meu objetivo era gravar pelo menos um, já estou com o dobro. Posso dizer que zerei uma parte da vida (porque ainda quero muito participar do Radiofobia)! A tentativa a que me refiro é que tentem chamar alguém de uma universidade relevante, como USP, Unicamp, UFRJ, UFRGS, etc. Nestes lugares se está fazendo a boa ciência brasileira, mesmo contra tudo e contra todos. Este povo guerreiro merece ser ouvido.