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A ciência moderna é capaz de interpretar o mundo atual?

por em 13/09/2018 em Ciência, Notícias | Nenhum comentário

A ciência moderna é capaz de interpretar o mundo atual?

Indagar se a ciência moderna é capaz de interpretar o mundo atual é uma questão polêmica e complicada. Jogar uma luz sobre ela e analisá-la através do ponto de vista de Bruno Latour pode ser, e será, uma tarefa árdua de desconstrução da concepção de ciência que possuímos.

Para o autor, fenômenos naturais que têm efeitos sobre a sociedade, e reviravoltas políticas que têm reverberação na natureza, direta ou indiretamente, são chamados de híbridos, pois podem ser meio naturais e meio sociais. Isso a ciência moderna não é capaz de conceber, de explicar, então tenta purificar o fenômeno, tornando-o puramente social ou natural. Latour nos da um exemplo, o caso do buraco na camada de ozônio, metade do fenômeno se esvai quando a purificação acontece, afinal, com a ciência moderna é impossível estudar algo através de dois polos científicos diferentes.

Exemplo do buraco na camada de ozônio: esse fenômeno é estudado por diversas áreas da ciência, a química estuda as reações que levaram a isso; a biologia procura em que isso afeta a natureza e seus processos; a sociologia tenta entender como o fenômeno pode afetar a convivência em sociedade, ou até em como o ser humano ainda não se atentou para as consequências que isso traz ao mundo; já a política estuda a posição de líderes quanto a isso e os interesses existentes.

E é aí que está a questão, estudar um fenômeno em rede, através de áreas diferentes, que não se interligam e não conversam entre si em nenhum momento, limita as possiblidades de produção e interpretação, afinal, se o mundo é em rede, fragmentar o conhecimento e mantê-lo fragmentado é um enorme dificultador, quando não impossibilita totalmente uma real compreensão.

Ingold nos traz esclarecimento da maneira de interpretar o mundo em rede, através de uma ótima analogia:

“Qualquer coisa pode pertencer à rede, se for uma formiga ou uma não-formiga. É precisamente neste ponto que eu discordo dos meus colegas. Eles parecem pensar que existe alguma coisa especial em ser uma formiga – um tipo de formicidade essencial – que os isola de outras criaturas, em um mundo separado de formigueza como distintos do mundo material da natureza no qual a existência de todas as outras criaturas está confinada. Eles alegam que as relações sociais não são naturais, mas sim, formigais. Mas, o mundo que eu habito consiste de ambas formigantes e não-formigantes, inclusive coisas como agulhas de pinheiros, pulgões e larvas. Eu insisto que essas coisas não são apenas objetos passivos. Eu estou enrolada em um emaranhado de relações com elas tanto quanto estou com as minhas parceiras formigas. Elas também são parte de uma rede.” (Ingold, 2011: 02)

Essa interpretação que Latour nos pede, compreender que tudo pode ser, e é, um fator, um ator, e, devido a isso, interfere e é afetado diretamente pelo fenômeno, seja ele qual for.

Isso não quer dizer que devemos desconsiderar todo o conhecimento científico produzido até hoje. Não devemos. O conhecimento produzido até aqui é extremamente importante, além de real e palpável. Inúmeros avanços foram alcançados graças a ciência moderna.

Mas então, o que deve ser feito?

Para Latour, a solução é construir um estudo que procura abordar toda a rede que o fenômeno toca, até o momento em que ela se tornar fraca e de difícil acesso.

Voltando ao exemplo, o biólogo, ao estudar os efeitos do buraco da camada de ozônio sobre a natureza, deveria também se atentar a população ao redor desse determinado local, e como a alteração na natureza afeta a vida da população, desde a sua alimentação, até sua economia e bem-estar.

Separar determinado animal em um laboratório, afim de estudar as consequências isoladas, contribui para a compreensão do animal em si, talvez até parte do fenômeno, mas não traz uma noção em rede, não mostra os reais efeitos, pois o fenômeno não afeta somente aquele animal, afeta tudo que está interligado a ele. Os atores dessa rede podem ser outros animais, talvez sejam humanos, pedras, galhos, tudo está interagindo, portanto, tudo deve ser estudado, ao menos tudo que esteja se relacionando fortemente com o fenômeno.

Portanto, a ciência moderna não deve ser abolida, deve ser utilizada de maneira mais eficaz, através da interdisciplinaridade e interação entra as áreas, afim de conseguir estudar os híbridos.

Para pesquisar um híbrido com sucesso, abordando grande parte da rede que o cerca, é necessária a criação de uma nova maneira de fazer ciência, uma nova maneira de produzir conhecimento.

Apesar de trabalhoso e complicado é extremamente necessário, a ciência moderna, como se encontra hoje, não é mais capaz de interpretar todos os fenômenos. Se não pudermos compreender que qualquer coisa existente pode ser um ator e influenciar a rede, não conseguiremos avançar e estagnaremos, a ciência precisa dessa integração e diversidade para poder continuar a entender o mundo.

 

Bibliografia

INGOLD, T. Quando a FORMIGA conhece a ARANHA: Teoria Social para artrópodes in: Being Alive: essays on Movement, Knowledge and Description. London: Routledge, pgs 89-94, 2011.


Gui Assisé Cientista Social, pseudo-cinéfilo, otaku, amante de ficção científica, acima de tudo, curioso.