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Revisionismo histórico

por em 31/07/2019 em Ciência, Notícias | Nenhum comentário

Revisionismo histórico

Por ocasião do Carnaval, publicamos um texto que tratou sobre aspectos normalmente desconhecidos da História e, de leve, alguns comentários sobre revisionismo. Agora, decidi aprofundar a discussão sobre esse tema.

Para dar largada a este debate, precisamos compreender o que é a História e o que faz um profissional desta disciplina.

História, falando de forma geral, é uma ciência social que tem como objeto o estudo dos acontecimentos do passado. Dessa forma, o Historiador trabalha em busca de explicações baseadas em evidências (guardem esta expressão), com método científico e analítico, de modo a solucionar, interpretar ou clarear um evento histórico do passado. Por exemplo: como se deu a Revolução Americana de 1776? Ou quais as razões para o desaparecimento do Império Romano? Ou, ainda, quais as origens do golpe militar no Brasil em 1964?

Diante de um problema histórico, o pesquisador faz o recorte de seu objeto, formula sua questão e sai em busca das evidências que possam dar suporte à sua tese – embora não seja raro encontrar comprovações contrárias à sua proposição. Para isso, ele estuda as fontes.

Fontes são os elementos materiais estudados pelo Historiador e que fornecem as tão desejadas evidências do fato histórico. Em regra, qualquer coisa é uma fonte: um pedaço de cerâmica, correspondências trocadas, fotografias, pinturas, filmes, canções, livros, roupas… e hoje, temos também como fontes bancos de dados eletrônicos, páginas na internet e até postagens em redes sociais.

Por vezes, uma interpretação corrente de um fato histórico passa a receber uma nova interpretação diante do surgimento de uma nova fonte ou evidência ou por uma nova reinterpretação das fontes que já foram estudadas. Por exemplo, a chamada Idade Média, durante muito tempo considerada a “Idade das Trevas”, por supostamente ter sido um período de baixa produção cultural. As correntes mais recentes rejeitam essa ideia, pois nesse período começaram a ser gestados movimentos e criações que culminaram no período Renascentista. Houve alteração dos fatos históricos? Claro que não! Houve a ressignificação de fontes e evidências que levaram à revisão dos conceitos sobre aquele período de tempo.

Chegamos então a um aspecto: o termo “revisionismo histórico”, embora utilizado comumente, é inexato, pois a interpretação dos fatos está sujeita a revisões, como demonstramos. No entanto, toda revisão deve estar necessariamente amparada em estudos metódicos, amparadas em fontes históricas. Vamos lembrar novamente: História é ciência e possui método e um arcabouço teórico que deve orientar todo pesquisador.

O que é, então, o revisionismo que vemos em páginas na internet e correntes de Whatsapp?

Existem diversos movimentos no sentido de negar a interpretação consagrada de fatos históricos, quando não de negar a completa ocorrência desses fatos. Por exemplo, quando alguém afirma que o Holocausto judeu não aconteceu. Ou que a derrubada do Presidente João Goulart foi revolução e não golpe. Ou, para usar uma discussão recente, que o nazismo seria de esquerda.

Sem querer fazer uma defesa corporativa, é preciso apontar que, em regra, quem faz esse tipo de afirmação não é historiador ou pesquisador, mas alguém que até pode entender um pouco sobre o tema, mas não se debruça profissionalmente sobre o passado.

Precisamos atentar também que essas teses revisionistas não são trabalhos acadêmicos, mas artigos ou textos publicados em quaisquer outros meios. Há muitos anos, um autor revisionista buscava publicar seus textos em livros ou revistas. Infelizmente, com o advento da internet, ficou muito mais fácil para pessoas mal intencionadas publicarem e divulgarem esses textos com teor negacionista.

E aqui temos um aspecto importante, especialmente em tempos de ataque ao saber acadêmico: a produção historiográfica é, digamos, chancelada pela Academia. Isto é, quem descobre um novo fato ou apresenta uma nova interpretação – permitam-me meus 4 leitores ser chato e repetitivo, sempre com base em evidências – normalmente submete seus achados à chamada revisão pelos pares, isto é, apresenta seu trabalho em seminários, painéis, onde outros historiadores e cientistas debatem a validade da nova tese e a força das fontes e evidências.

Por último, quando nos deparamos com um texto revisionista, devemos sempre nos perguntar: baseado em que fontes ou evidências, o autor chegou àquelas conclusões? E a verdade é que esses textos nunca apresentam fontes válidas. Para validar seu ponto de vista, normalmente, é apresentada uma “prova” simples, que pode ser um texto ou um excerto, um trecho de livro, um fato, mas são sempre apresentadas evidências fracas, normalmente retiradas do contexto histórico e, principalmente, sem a confirmação por outras evidências.

Para ilustrar melhor, vamos pensar numa investigação policial. O que faz um detetive? Ele procura desvendar o fato a partir de pistas (no plural), provas que o ajudem a elucidar aquele crime. Assim, o depoimento de uma testemunha pode ser importante, mas é suficiente para desvendar a autoria do crime. Mas se juntarmos o depoimento, imagens de alguma câmera de segurança que comprovem que o suspeito estava no local no momento do crime, objetos da vítima que desapareceram do local e foram encontrados em poder de um suspeito… todo esse conjunto de indícios é o que pode vir a demonstra que alguém é culpado ou inocente de um ato criminoso.

Assim também é a História. Um livro da época pode ser um bom indício, mas é apenas um objeto isolado. Mas um livro da época, discursos de políticos que tenham vivido naquele mesmo tempo, relatos de jornais, análises sobre a arquitetura…. juntando tudo, teremos um conjunto de fatos que se articulam e levam à formulação de uma tese sobre o fato estudado.

Concluindo, sempre que nos depararmos com um texto revisionista (negacionista), precisamos ter alta dose de desconfiança e perguntar quem é o autor, quais as evidências que lastreiam sua ideia central e se aquele texto está publicado em algum meio acadêmico.

Como dica final, vale a pena escutar o episódio do Filosofia Pop nº 70 (clique aqui), com a podcaster e Historiadora Tupá Guerra, uma aula sobre revisionismo e que inspirou e deu muitos dos subsídios para este texto.

 

Crédito da Imagem de capa: https://www.wereblog.com/wp-content/uploads/2015/12/real-face-of-jesus.jpg

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