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Resenha – A Água e a Águia

por em 21/01/2020 em Entretenimento, Notícias | Nenhum comentário

Resenha – A Água e a Águia

Essa resenha é uma parceria do Portal Deviante com a Cia. das Letras, que disponibiliza livros do seu catálogo para os nossos redatores escreverem as resenhas. Livro de hoje: “A Água e a Águia”, publicado pelo selo Companhia das Letrinhas, escrito pelo premiado escritor moçambicano Mia Couto e ilustrado pela também premiada ilustradora canadense, radicada em Portugal, Danuta Wojciechowska.

As águias viviam em comunhão com as águas do rio que corria no fundo do vale e molhava as margens do mundo. Mas um dia, “a chuva esqueceu-se de acontecer”:

Cresceu e multiplicou-se a sede, adoeceram as árvores e os bichos. As águias começaram a morrer e os corpos, já sem vida, tombavam dos céus, as penas arrancadas e varridas pelo vento. Dava pena ver tanta pena. Por todo o lado, as plumas eram folhas secas, desenhando um inesperado outono no ressequido chão.

 

Ao enfrentarem a crise hídrica as águias descobrem que a água surge quando se retira a letra i de seus próprios nomes. O que acontece quando todos os is de todas as águias já tiverem sido retirados? É possível tirar a letra i de qualquer palavra? Qual é a importância do i para a fluidez de um rio?

Ao perceberem que a solução era temporária, as águias precisam descobrir o segredo da letra i, até então negligenciada como se fosse nada além de “um pau espetado no abecedário” ou “um dançarino com chapéu alto”.

Em tom poético e repleto de aliterações, esta fábula reflete sobre a função das palavras e letras, seus formatos, suas sonoridades. Além de identificar os entes nomeados, as letras são concretas, fazendo parte das construções e dos corpos desses entes, dando-lhes forma e significado. Uma simples letra pode esconder símbolos e significados profundos que lhe conferem o poder da existência daquilo que recebe o nome com o uso de tais letras. Mia Couto nos revela imagens e sensações contidas na letra i que passam desapercebidas no nosso dia-a-dia letrado, cheio de informações. Num mundo em que as palavras parecem ter significados por si só, Mia Couto nos lembra a importância que cada letra tem para formação dessas palavras, que perderiam sua concretude e significado se não fossem as letras para compô-las.

O texto é acompanhado pelas ilustrações em aquarela de Danuta Wojciechowska. A temática visual de todo o livro se baseia na muito bem explorada composição entre azul e tons alaranjados, que serve tanto para nos passar as sensações das dualidades úmido vs. seco e fresco vs. quente, quanto para enriquecer em detalhes as ilustrações das personagens e das paisagens.

Ilustração de Danuta Wojciechowska, explorando a composição entre azul e tons alaranjados, que acompanha a narrativa da fábula.

 

Além de oferecer uma fábula rica e uma narrativa cativante, o livro ainda pode ser utilizado por crianças em fase de alfabetização, sendo particularmente proveitoso no aprendizado das chamadas “sílabas complexas” (que incluem o gua, gue, gui, guo), além de trazer à tona toda a discussão sobre a importância das letras na formação das palavras.

Apesar da classificação “literatura infantil e infantojuvenil”, o livro é indicado para todas as idades, inclusive jovens e adultos com interesse em narrativas sensíveis com reflexões simbólicas e profundas. Afinal, um bom livro infantil é aquele que agrada não só as crianças, mas também os mediadores adultos.

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