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Para novos problemas, a velha inteligência

por em 03/06/2020 em Ciência, Notícias | Nenhum comentário

Para novos problemas, a velha inteligência

Aproveito o gancho deixado pelo último e muito aguardado Scicast sobre astronomia, Scicast #374, em que foi citado o concurso “Exploring Hell”, para, com esse convidativo nome, explorando o inferno, falar sobre o concurso da NASA que se refere ao mais quente planeta do nosso sistema, Vênus.

Antes de entrar no assunto de fato, gostaria de tocar em uma discussão que acho sempre pertinente sobre a necessidade de investir em pesquisa e exploração espacial. Muita gente acha desnecessário e que deveríamos investir somente no nosso próprio planeta. Realmente, a raça humana precisa acordar e cuidar melhor do planeta Terra, isso é um fato! Mas como entendemos essa importância? Como sabemos, por exemplo, diferenciar o efeito estufa natural, que faz Vênus ser mais quente que Mercúrio e faz da Terra um lugar ameno e ideal para nós, do impacto que nós mesmos geramos com nossa poluição? Como poderíamos hoje, entender como as estrelas nascem e morrem, e dessa forma sabermos que daqui a 5 bilhões de anos nosso Sol irá engolir a terra e, se esta sobreviver, não terá mais luz e calor? Por fim, como podemos enxergar o quão pequenos somos?  Não foi graças a uma foto da terra vista das proximidades de saturno que Carl Sagan escreveu “O pálido ponto azul”, uma das mais completas reflexões sobre nossa existência e a necessidade que temos de cuidar da nossa casa?

O universo não é “lá fora”, nós somos parte do cosmos. Estamos inseridos nele e conhece-lo é conhecer nossa história, origem, futuro e nós mesmos. Além de ser uma das ferramentas mais importantes que temos para tal é a inteligência artificial.

Se tudo der certo e o coronavírus deixar, a NASA pretende enviar mais uma missão para Vênus, mas essa missão tem algumas particularidades bem interessantes. Após o aprendizado das missões anteriores, que não aguentaram a atmosfera de Vênus durante mais do que alguns minutos, a agência americana resolveu voltar um pouco na tecnologia e utilizar o mínimo de eletrônica possível, criando seu novo conceito, o AREE – automaton rover for extreme environments, algo como “rover autômato para ambientes extremos”. Isso mesmo, autômato, lembra de “A invenção de Hugo Cabret”?

O objetivo dessa vez é que o rover fique pelo menos 6 meses explorando o planeta, e o concurso “Exploring hell” pede que os participantes criem um sensor mecânico para identificar inclinações, pedras e buracos no terreno. Mas, acredite, o complicado terreno de Vênus é o menor dos problemas. A pressão no planeta é 92 vezes maior que na Terra e a temperatura em torno de 450ºC.

Solo de Vênus

Solo de Vênus

Depois de anos de evolução tecnológica, tantas descobertas do Curiosity em Marte, das belas imagens da Cassini em Saturno e das incríveis aterrissagens do Falcon 9, entre outras conquistas espaciais, parece que Vênus obriga a robótica a visitar suas origens. O veículo conceito AREE será movido a energia do vento, capturada por uma hélice e armazenada por uma mola. Rústico, não?

AREE

Conceito do AREE

A agência cita os trabalhos do artista cinético holandês Theo Jansen como inspiração. Para quem não conhece, são espécie de mecanismos que utilizam a força do vento e a cinética reproduzindo movimentos que lembram criaturas caminhando.

Será que algo tão antiquado tem a ver com inteligência artificial? Veja a definição dada pelo redator deviante Pedro Henrique no artigo A inteligência artificial no limiar da consciência:

“IA nada mais é que o estudo de agentes inteligentes que recebem percepções do ambiente e executam ações.”

Veja se essa definição não nos diz que um dispositivo que recebe informações e reage de alguma forma é uma forma de inteligência artificial? Claro, aprofundando o assunto, estaremos falando de machine learning, discutindo sobre como a IA está e estará afetando nossa sociedade. Existe muito conteúdo sobre o tema no Portal Deviante, entre podcasts e excelentes textos, como a série do Rodolpho Freire.

O interessante é observar como a robótica avançou tanto no decorrer dos anos, mas nessa situação especifica será necessário reinventar, aprimorar, criar um dispositivo mecânico inteligente e capaz de resolver seus próprios problemas.

A própria palavra “robô”, teve sua origem ao descrever um autômato humanoide na peça “Robôs Universais de Rossum” de Karel Capek. Na história houve diversos exemplos de autômatos ou tentativas de robôs que ficaram famosas, as criações de Leonardo Da Vinci, o “Leão Autômato” e o “Cavaleiro Mecânico”, algumas máquinas não tão inteligentes como “O Turco” que prometia jogar xadrez, mas na verdade escondia uma pessoa que realmente fazia as jogadas.

Um dos dispositivos mecânicos mais antigos encontrados é o mecanismo de Antikythera, utilizado para prever posições astronômicas.

 

 

O mecanismo datado de 80 A.C. mostra como a humanidade cria mecanismos autômatos desde muito tempo, e é com esse pensamento que estamos explorando nossos vizinhos planetários.

Entretanto, a NASA precisará ir aos primórdios da inteligência artificial para conseguir explorar Vênus. O processamento de dados será feito por um computador mecânico, algo que hoje parece até estranho, mas qualquer um que estudar a história da computação vai encontrar o bom e velho ábaco.

No decorrer da história, até o fim do século XIX, tivemos bons exemplos de processamento de dados de maneira mecânica, como a pascalina e teares controlados por cartões perfurados, até as máquinas analíticas de Charles Babbage. Neste ponto já existe a participação forte das mulheres na programação, a Condessa de Lovelace foi a matemática que trabalhou junto com Babbage, e é considerada a primeira programadora de computadores. Essas máquinas funcionavam basicamente com engrenagens, alavancas e muita matemática.

Do século XX até os dias de hoje, entramos nos computadores eletro-mecânicos que se desenvolveram até as maravilhas digitais que temos hoje. Mas essa história do processamento nos conta um pouco da evolução da inteligência artificial. O matemático Alan Turing escreveu em 1950 o artigo “Computing machinery and intelligence”, no qual ele questiona sobre a capacidade das máquinas de “pensar” e naquela época já falou de “Learning Machine”.

Eu incluo minha conclusão, a partir do ponto de vista de que o ato de pensar nada mais é que o cérebro processando estímulos e reagindo, ao aumentarmos a escala e trabalharmos com estímulos mecânicos e máquinas capazes de reagir: não seria esta uma forma de inteligência artificial? Sendo assim, o autômato AREE será lançado ao hostil ambiente venusiano e é muito bom que sua mecânica seja inteligente o suficiente para assegurar sua sobrevivência.

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