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O País dos Cegos e outras histórias – Resenha

por em 26/08/2021 em Ciência, Entretenimento, Notícias | Nenhum comentário

O País dos Cegos e outras histórias – Resenha

Conhecido por seus romances de ficção científica, principalmente “A Máquina do Tempo” e “A Guerra dos Mundos”, H. G. Wells foi também um grande escritor de contos. Em “O País dos Cegos e outras histórias”, o escritor e tradutor Bráulio Tavares selecionou 18 pequenas histórias, que inclusive podem ter servido de inspiração para algumas mais conhecidas.

A Ilha do Epiórnis

Em “A Ilha do Epiórnis“, temos o relato de um pesquisador que após encontrar ovos intactos de uma espécie de ave extinta há 400 anos tem seu barco destruído em alto mar, indo parar numa pequena ilha. Nessa história temos o personagem contando como sobreviveu até que fosse resgatado quatro anos depois. No prefácio do livro, Bráulio Tavares escreve que esse conto pode ter sido uma influência para o livro “O Mundo Perdido” de Arthur Conan Doyle e, acréscimo meu, talvez também para o filme “Náufrago” (inclusive para o Wilsooon).

#ParaTodosVerem: imagem do personagem Wilson do filme “Náufrago” (Wilson é uma bola de vôlei branca com um rosto desenhado).

O País dos Cegos

No conto que dá nome ao livro “O País dos Cegos“, após uma expedição mal sucedida no Equador, o colombiano Nunez vai parar num pequeno vilarejo isolado do restante do mundo. Nesse vilarejo não existem pessoas que enxergam, sendo que isso ocorre há tantas gerações que, pelo o que dá a entender pela descrição dos personagens, os habitantes do local sequer têm globos oculares.

Nunez se vê então como única pessoa que enxerga em meio a muitas que não conhecem sequer as palavras relacionadas à visão. É muito interessante como, em poucas páginas, Wells consegue nos fazer entender a cultura desse povo que entende tudo que Nunez fala sobre o ato de enxergar, como histórias infantis. Não sei se Saramago conheceu esse conto antes de escrever seu “Ensaio sobre a Cegueira”, mas é certo que em ambas as histórias temos interpretações do famoso ditado “Em terra de cego quem tem um olho é rei”.

O Império das Formigas

Além do conto anterior vivido no Equador, temos também um que se passa em terras brasileiras. Em “O Império das Formigas“, a tripulação de uma embarcação é chamada para ajudar a população local contra uma invasão de formigas. De início, o capitão acredita estar sendo zombado pelos seus superiores em terra.

O que se passa na história pode ter sido uma inspiração para os diversos filmes com invasões de insetos e outros animais. Um dos filmes do gênero que se vendeu oficialmente como adaptação desse conto é o que leva seu nome, “O Império das Formigas”, de 1977, apesar de que, pelo trailer, não tem muito a ver com a história de Wells.

Filmer e O Ovo de Cristal

Vindo do autor que criou uma história com uma máquina possível de viajar no tempo, não podemos esperar menos do que contos que apresentem novas máquinas e tecnologias. E, assim como diversos outros autores, Wells escreveu um conto em que imaginou a criação de uma máquina capaz de voar com pessoas a bordo.

Cinco anos antes de Santos Dumont apresentar o 14-bis ao mundo, “Filmer” conta sobre o inventor de tal máquina. Já em “O Ovo de Cristal” temos um vislumbre do que poderia ser um tipo de sistema de vigilância com câmeras que possibilitam ver o local ao vivo… mas muitos anos antes desse tipo de coisa (ou até mesmo da TV) ter sido criada. Além disso tudo, apesar do ovo de cristal estar nas mãos de um vendedor de artigos diversos na Terra, o que ele consegue ver não é sequer do nosso planeta!

A marca do polegar

Além desses, há contos selecionados no livro em que Wells caminha entre outros gêneros literários além da ficção científica, como é o caso do “A marca do polegar“, em que há uma explosão num edifício vizinho a uma escola e o professor de química auxilia a investigação.

O título do conto já entrega a resolução: o professor descobre o culpado devido à impressão digital deixada no frasco de um dos reagentes utilizados para fabricar a bomba.

Pode parecer uma história bem comum hoje em dia, porém esse conto foi publicado em 1894, época em que o uso da identificação de criminosos por meio da impressão digital não era usual.

Uma curiosidade é que o primeiro uso desse tipo de identificação para desvendar um crime foi em 1892, na Argentina, mas somente em 1903 Conan Doyle usa a identificação da impressão digital como o método para Sherlock Holmes desvendar um crime… mesmo ano, aliás, em que a técnica se tornou comum na identificação de criminosos nas polícias mais famosas da Europa e dos EUA.

#ParaTodosVerem: uma digital sendo coletada.

A história do falecido Sr. Elvesham

Dentre os 18 contos, meu favorito foi “A história do falecido Sr. Elvesham” que é a reprodução da carta de um tal Edward George Eden. O sr. Elvesham era um riquíssimo “estudioso da mente humana” que, já ao final da vida, sem ter uma família, procura uma pessoa para a qual possa doar toda sua fortuna, desde que a pessoa passe a usar seu nome.

Escolhido por Elvesham, Eden suspeita de algum tipo de golpe, mas passa a se encontrar com Elvesham para discutir como as coisas serão feitas. A partir daqui não vou contar mais, pois é uma história de apenas 20 páginas muito interessante para ser estragada para quem quiser ler, mas já digo que o final é interpretativo e daqueles que te deixam em dúvida do que aconteceu de verdade.

E outras histórias

Além desses que citei, há mais 11 contos no livro que indicam que Wells conseguiu o que ele queria ao escrever essas pequenas histórias, como pode ser observado ao ler o prefácio escrito pelo próprio autor na reedição de seus contos em 1890 e reproduzido no prefácio d”O País dos Cegos e outras histórias” por Bráulio Tavares:

A minha ideia da arte do conto é que seja a arte de produzir algo que brilhe e que emocione; pode ser algo horrível ou patético ou engraçado ou belo ou profundamente revelador, mas tem apenas um traço essencial, de que possa ser lido em voz alta num espaço de tempo entre quinze e cinquenta minutos. (…) Não importa se seu tema é humano ou não humano, não importa se deixa o leitor mergulhado em pensamentos profundos ou apenas contente e superficialmente satisfeito. Algumas coisas se prestam melhor no formato do conto do que outras, e o usam com mais frequência; mas um dos prazeres da arte de escrever contos é tentar o impossível.

 

Referências:

History of fingerprints

História da identificação e seus personagens

First Murder Solved by a Fingerprint

 

Capa: adaptação da capa do livro publicado pela Companhia das Letras no selo Alfaguara.

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