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O Brasil dos dinossauros – parte 1

por em 31/01/2020 em Notícias | Nenhum comentário

O Brasil dos dinossauros – parte 1

A Paleontologia não se resume a dinossauros, muito pelo contrário! Eles são apenas a ponta do iceberg da riquíssima e complexa jornada da vida no planeta Terra. Por outro lado, graças ao apelo popular que os dinossauros têm, vira e mexe a Paleontologia ocupa as páginas de destaque dos noticiários por conta de novas descobertas, e por aí vai. Mas daí surge um fato inusitado…porque, se eu te perguntasse 2 ou 3 nomes de dinossauros, com raríssimas exceções, sua lista seria recheada com espécies hollywoodianas como Tyrannosaurus ou Brachiosaurus, o que com certeza deixaria os nossos compatriotas Vespersaurus e o Uberabatitan meio que enciumados. Afinal de contas, há dezenas de espécies de dinossauros no Brasil, mas que costumam passar despercebidas pelas pessoas.

Para inaugurar a coluna de Paleontologia e Evolução do Portal, vamos falar sobre a nossa fauna de dinossauros, começando com espécies que foram – e que não param de ser – descobertas no interior do Rio Grande do Sul e sua relevância para o entendimento da origem e evolução dos dinossauros. Afinal de contas, os dinossauros mais antigos de todo o mundo são brasileiros!

Para ser justo, é preciso pontuar que o Brasil divide com a Argentina o posto de área ancestral dos dinossauros. Atualmente, ambos os países possuem 7 espécies destes primeiros dinossauros cada. Mas de onde estes fósseis vêm? A resposta é bastante específica e encontrada apenas em rochas das formações Santa Maria, que afloram na região central do Rio Grande do Sul, e Ischigualasto, no noroeste da Argentina.

Essas regiões correspondem ao que foi a porção sul do Pangeia, o último supercontinente a se formar na Terra. Dois artigos publicados nos últimos anos demonstraram, a partir de datações radiométrica, que os sedimentos destas unidades geológicas seriam relativamente cronocorrelatos. Com pouco mais do que 230 milhões de anos, este período marca o início do Triássico Superior, em um estágio chamado de Carniano. Entretanto, a ideia de que ambas as unidades retratam um mesmo período geológico é bem mais antiga e sustentada pela semelhança de seus conteúdos fossilíferos. Em outras palavras, isto significa que as duas regiões eram habitadas por faunas muito parecidas, remetendo a uma mesma época – para saber mais a respeito deste tipo de correlação entre unidades geológicas, faunas associadas e idade, pesquise sobre bioestratigrafia.

E que animais eram esses, se não dinossauros? A resposta é bastante interessante e ela abre uma janela para explicar, inclusive, modelos ecológicos sobre o surgimento dos dinossauros. Por conta de sua imponência e dominância dos ecossistemas terrestres por mais de 130 milhões de anos (do início do Jurássico, há 200 milhões de anos, até a extinção das linhagens não-avianas no Cretáceo, há 66 milhões de anos), poderia se pensar que os dinossauros surgiram desta mesma forma, como componentes faunísticos dominantes de seus nichos. Entretanto outros grupos de tetrápodes fósseis eram muito comuns na época, tanto em termos de números de espécies como de maiores populações, diferentemente dos dinossauros, que eram bastante raros no momento de seu surgimento. Para se ter uma ideia, já foi demonstrado que os fósseis de dinossauros mais antigos representam, na verdade, cerca de 10% dos fósseis encontrados nessas rochas. Estes outros animais mais comuns e que possuem este grande valor para se correlacionar as faunas das formações Santa Maria e Ischigualasto são os rincosauros e os terápsidos, herbívoros em sua maioria, além “rauissúquios” e outros grandes predadores da linhagem que dá origem aos crocodilos atuais, chamados de pseudossúquios.

Reconstrução faunística demonstrando os animais típicos do período em que urgem os dinossauros. Da esquerda para a direita temos o aetossauro Aetosauroides sp.; o rincossauro Hyperodapedon
mariensis; o dinossauro sauropodomorfo Saturnalia tupiniquim; o cinodonte Prozoostrodon brasiliensis (em primeiro plano); e o dinossauro herrerassaurídeo Staurikosaurus pricei. Retirado de Langer et al. 2010.

Já a fauna destes primeiros dinossauros presentes na Formação Santa Maria era dominada por um grupo chamado de sauropodomorfos, que nada mais são as formas mais antigas da linhagem que posteriormente levam ao surgimento dos grandes dinossauros de pescoço comprido, os saurópodes. As espécies brasileiras deste grupo são o Saturnalia, Pampadromaeus, Buriolestes e Bagualosaurus. Estes três últimos descobertos nos últimos 10 anos! E um dado muito interessante obtido através da descrição do Saturnalia e do Buriolestes é que estes primeiros sauropodomorfos eram faunívoros e hábeis para caçar (faunívoro é o que se alimenta de todo o tipo de animal, desde insetos a vertebrados), e que portanto a aquisição da dieta herbívora, característica dos saurópodes, é posterior ao surgimento destes dinossauros. Sauropodomorfos também são os mais comuns na Formação Ischigualasto, com as espécies Eoraptor, Panphagia e Chromogisaurus.

Os dinossauros carnívoros deste período eram principalmente representados pelos herrerasaurídeos, um grupo de predadores de médio a grande porte, e que possivelmente representam uma linhagem antiga de terópodes (aquele grupo que inclui predadores como o Tyrannosaurus e as aves), mas essa hipótese ainda não é consensual. As espécies brasileiras deste grupo são o Staurikosaurus, que é o primeiro dinossauro descoberto no Brasil, e o Gnathovorax, apresentado no final do ano passado, e que é o fóssil mais completo de uma espécie de herrerasaurídeo já descoberta. Além destes, a presença de outros predadores, tais como os terópodes propriamente ditos, é sugerida pela presença do Nhandumirim. Entretanto, como se trata de um fóssil bastante incompleto, essa hipótese ainda precisa ser mais bem discutida.  Herrerasaurídeos também estão presentes na Argentina, com as espécies Herrerasaurus e Sanjuansaurus, enquanto Eodromaeus é possivelmente o representante dos terópodes no país. Além destes, há também na Argentina o Pisanosaurus, que é o dinossauro ornitísquio mais antigo do mundo.

Após o Carniano, há um estágio mais novo chamado de Noriano, ainda dentro do Triássico Superior. Nessa época, os dinossauros já eram bem maiores e poderiam ser encontrados em quase toda a Terra, diferente de quando eles surgiram restritos a onde hoje é o sul do Brasil e o noroeste da Argentina. Também no interior do Rio Grande do Sul há a chamada Formação Caturrita, datada em aproximadamente 226 milhões de anos. E atualmente há 3 espécies de dinossauros descobertas nessas rochas: o Guaibasaurus, que é possivelmente um terópode, e os sauropodomorfos Unaysaurus e Macrocollum. Estes dois sauropodomorfos já são muito maiores e mais parecidos com os saurópodes do que seus primos do Carniano, além de serem herbívoros. Além disso, o Macrocollum foi descoberto a partir de 3 indivíduos bastante completos e encontrados juntos! Um dos fósseis de dinossauros mais impressionantes do Brasil!

Os três esqueletos do Macrocollum, e a localidade onde foram encontrados no interior do Rio Grande do Sul. Retirado de Müller et al. 2018.

 

A pesquisa paleontológica sobre a origem dos dinossauros realizada no Brasil tem rendido muitas descobertas importantes, mas elas não param por aí. Além destas 7 espécies, há também espécies de grupos muito próximos e importantes para entender a evolução dos dinossauros como o Ixalerpeton e o Sacisaurus, também do Triássico Superior do Rio Grande do Sul, sem contar outras dezenas de espécies que surgiram no posteriormente, e são igualmente fascinantes. E falaremos delas logo mais!

 

Referências

-Langer, M. C., Ezcurra, M. D., Bittencourt, J. S., & Novas, F. E. 2010. The origin and early evolution of dinosaurs. Biological Reviews, 85(1), 55-110.

-Marsola, JCA e Langer, MC. 2019. Dinosaur Origins. In: Reference Module in Earth Systems and Environmental Sciences. Elsevier.

-Marsola, J. C., Ferreira, G. S., Langer, M. C., Button, D. J., & Butler, R. J. 2019. Increases in sampling support the southern Gondwanan hypothesis for the origin of dinosaurs. Palaeontology, 62(3), 473-482.

-Müller, R. T., Langer, M. C., & Dias-da-Silva, S. (2018). An exceptionally preserved association of complete dinosaur skeletons reveals the oldest long-necked sauropodomorphs. Biology letters, 14(11), 20180633.

Imagem da “capa”


Júlio Marsola: Paleontólogo, Licenciado em Ciências Biológicas, Mestre e Doutor em Biologia Comparada pela USP de Ribeirão Preto, SP, onde pesquisa sobre a origem dos dinossauros e outros temas. Pai da Lis, curte um bom e velho Rock’n Roll, além de passar um tempo com aquarismo e sofrendo com o Santos na TV.

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