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Maçãs – história, álcool e propaganda

por em 22/07/2022 em Ciência, Notícias | Nenhum comentário

Maçãs – história, álcool e propaganda

A maçã é bastante popular no mundo todo, e está presente em várias passagens da história da humanidade.

Pesquisas recentes vêm desvendando uma nova narrativa para a história de uma das frutas mais icônicas.

Pense numa fruta. Se não foi maçã, foi banana, né?

As maçãs selvagens, que, como de costume, são bem diferentes das versões cultivadas hoje, foram originalmente espalhadas pela megafauna ancestral, e mais tarde pelo comércio ao longo da rota da seda, permitindo o desenvolvimento das variedades que conhecemos hoje.

maçaselvagem

Um exemplo de macieira selvagem

A rota da seda, uma série de rotas interligadas entre o leste asiático e a Europa, conectava Chang’an (atual Xi’an, na República Popular da China) até Antioquia, na Ásia Menor. Sua influência expandiu-se até a Coreia e o Japão. Ela formava a maior rede comercial do Mundo Antigo.

Representações de frutas grandes e vermelhas na arte Clássica mostram que maçãs domesticadas já estavam presentes no sul da Europa há séculos, e sementes antigas de sítios arqueológicos evidenciam que maçãs selvagens já eram coletadas através da Europa e oeste asiático por mais de 10 mil anos.

pintura classica

A obra “Maddona e criança com pêra”, de Albrecht Durer em 1526, na verdade representa uma maçã. A descoberta foi feita pela arqueobotânica Dalla Ragione, que observou a característica do topo da fruta, classificando como uma maçã, parecida com a variedade “ox apple”

Embora já estivesse claro que as pessoas cuidavam de macieiras selvagens por milênios, o processo de domesticação, ou mudanças evolutivas sob o cultivo humano, ainda não está claro.

Diversos estudos genéticos recentes demonstraram que a maçã moderna é um híbrido de pelo menos quatro populações de maçãs, e a hipótese é que as rotas de comércio da rota da seda foram responsáveis por juntar essas variedades num mesmo local, causando sua hibridização — um organismo híbrido é como se fosse duas ou mais espécies em um só.

Restos arqueológicos de maçãs, especialmente sementes, coletados através da Eurasia, sustentam a ideia de que árvores frutíferas e de castanhas eram itens comumente transportados ao longo dessas rotas de comércio.
Grande parte do material genético das maçãs modernas tem origem no centro das antigas rotas, nas montanhas Tien Shan no Cazaquistão. Esse processo de hibridização permitiu que se chegasse aos frutos grandes e vermelhos mais valorizados hoje.

As macieiras selvagens dão frutos com vasta variação de cor, entre verde, amarelo, marrom e vermelho. Também variam bastante em sabor, podendo ser até bastante adstringente.

Mesmo nas variedades comerciais de hoje, o tamanho e cor nem sempre indicam qualidade ou sabor. Até em uma mesma macieira, frutos sem cor podem ser bem doces. A preferência pela coloração e tamanho acaba sendo mesmo uma demanda comercial por ter maior valor de mercado. É basicamente estética.

Entender como e quando as macieiras evoluíram para produzir frutos maiores é uma questão importante para pesquisas, pois essas árvores não parecem ter seguido os mesmos caminhos da domesticação que outros cultivos melhor compreendidos, como cereais e legumes. Muitas forças selvagens e antropológicas aplicam pressão seletiva nos cultivos, e nunca é fácil reconstruir quais pressões causaram quais mudanças evolutivas.

Frutos doces e suculentos atraem animais que os comem e espalham suas sementes. Frutos maiores podem evoluir especificamente para atrair animais maiores, que tem alguma vantagem na sua dispersão. Cavalos também eram comuns ao longo da rota da seda, incluindo nas montanhas de Tien Shan, onde as maçãs devem ter passado por processos de domesticação.

Embora muitos estudos se foquem nesse período em que humanos começaram a cultivar a planta, alguns sugerem que processos selvagens anteriores foram importantes para que a maçã se tornasse interessante para o cultivo.

Muitas plantas frutíferas da família da maçã (Rosaceae) dão frutinhas pequenas, como as cerejas, framboesas e rosas. Esses frutos pequenos são facilmente engolidos por pássaros, que então dispersam suas sementes.
Porém, algumas árvores nessa família, como as maçãs, pêras, e pêssegos, evoluíram ainda milhões de anos antes da domesticação para dar frutos grandes demais para serem comidos por pássaros.

As evidências sugerem que essa tenha sido uma adaptação para atrair animais maiores para espalhar suas sementes. Nessa época, antes do fim da última era glacial, haviam muito mais grandes mamíferos na eurásia, como cavalos e alces selvagens, entre outros. Desde então, com a extinção dessa megafauna (que parece ter sido causada por nós, ahem…) as populações de maçãs selvagens parecem não ter se espalhado muito, o que sugere que elas dependiam mesmo desses animais.

Essas populações selvagens (de macieiras) permaneceram isoladas até que humanos começaram a transportá-las através da eurásia pelas rotas de comércio. Era um alimento doce (açúcar não era fácil de se encontrar na época), suculento, relativamente grande, e bastante resistente, podendo ser transportado por dias sem apodrecer ou perder suas características.

Quando humanos colocaram variedades diferentes em contato, polinizadores fizeram seu trabalho e deram origem a híbridos com frutos ainda maiores, um resultado comum de hibridização.

Os humanos notaram essas árvores com frutos maiores e fixaram essa característica na população, através da seleção artificial, plantando mudas das árvores preferidas.

O fato de macieiras serem híbridos, e não uma planta propriamente domesticada, faz com que não seja possível prever totalmente o tipo de fruto que teremos ao plantar uma semente. Pode ser que uma árvore nascida de uma semente dê frutos muito diferentes que os da maçã que a originou. Por isso o cultivo é feito sempre a partir de mudas.

As macieiras têm um genoma grande, e num mesmo organismo possuem diversas variações de cada gene. Por exemplo, nós temos algumas variações de tipo sanguíneo, A, B, O. Essas são variações de um gene. Mas para cada gene, uma macieira pode ter dúzias de variações. E, por conta da reprodução sexuada, uma semente pode combinar essas dúzias de variações das plantas progenitoras, e por isso pode gerar uma planta e frutos bem diferentes deles.

A vasta maioria das variedades são cultivadas ao redor do mundo em climas temperados (algumas precisam de centenas de horas de temperatura abaixo de zero por ano para uma boa produção). Aqui no Brasil, a cidade de São Joaquim (SC) é conhecida como a capital da maçã, e também uma das cidades mais frias do país, e onde temos a maior produção da fruta. Várias cooperativas recebem caixas de maçãs dos pomares e fazem a catalogação e separação por variedade, qualidade, cor, tamanho, etc. — processo atualmente bastante automatizado — para dar o destino e valor final a cada maçã. As menos “atraentes” ficam para a indústria de sucos, doces, etc.; enquanto as mais graúdas e vermelhas vão para as prateleiras de mercados.

cidra

Algumas garrafas de cidra de maçã

Na Europa e Estados Unidos, para onde as maçãs foram levadas e cultivadas desde 1600,  por muitos anos os pomares de maçãs focavam em cultivar uma variedade ligeiramente ácida, e menos doce, que era ideal para fazer cidra. A cidra é uma bebida fermentada a partir do suco da maçã, e era extremamente popular, e ainda é em alguns locais.

Na Inglaterra e norte dos EUA, era muito difícil cultivar uvas para produzir vinho, então a cidra era a “salvação”. Nesses tempos coloniais, as pessoas bebiam mais cidra do que água. Até crianças bebiam (o nível de álcool da cidra é menor do que o da cerveja), e adultos comumente bebiam uma caneca em cada refeição.

Além disso, a cidra podia ser ‘concentrada’, congelando-a, o que fazia com que a camada mais alcóolica se separasse, e então, raspando essa camada, isso era juntado numa bebida forte chamada de Applejack. Com concentração suficiente de álcool, se tornava também uma espécie de antisséptico e anestésico, caso precisasse se entorpecer antes de um procedimento médico, por exemplo. Se a cidra ‘estragasse’ e virasse vinagre, podia então ser usada para preservar alimentos. Assim os EUA chegaram a ter pomares de mais de 14.000 variedades diferentes de maçãs.

Uma das mais populares era a variedade Red Delicious, ainda bastante comercializada hoje. Porém, se você comer uma hoje, pode achar que não faz jus ao seu nome. Pelos relatos, quando foi batizada, essa variedade era realmente deliciosa. Mas com o passar do tempo, durante os processos de clonagem, as pessoas costumavam escolher os galhos com as maçãs mais vermelhas para tirar a muda, o que acabou selecionando maçãs bonitas, mas menos saborosas.

maça e saude

Maçã faz bem para a saúde?

Uma maçã por dia mantém o médico afastado?

O famoso ditado “One apple a day keeps the doctor away” (não tão popular em português, mas ainda assim, a ideia de que uma maçã por dia faz bem para a saúde é bastante comum) não passa de uma jogada de marketing. Mas por uma boa causa, para salvar as macieiras.

Com a proibição, lei que proibia o consumo de álcool nos EUA, os pomares de maçã se tornaram alvo. Por conta da cidra, as maçãs eram muito associadas ao álcool. Então a indústria contratou uma empresa de propaganda e criou esse slogan incrível, sem nenhum embasamento científico, para incentivar as pessoas a comerem e valorizarem as maçãs in natura, e assim salvar sua produção.

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