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História e cultura alimentar: A problemática da ascensão do junk food no Brasil

por em 02/01/2020 em Ciência, Notícias | Nenhum comentário

História e cultura alimentar: A problemática da ascensão do junk food no Brasil

Quando se fala em junk food geralmente se refere a toda comida rica em calorias e de baixa qualidade em nutrientes, salpicados em sal, gordura ou açúcar. Em alguns círculos sociais pode ser entendida como “porcaria” ou até mesmo o “podrão” de algumas esquinas. A tendência da alimentação junk food é vista como um reflexo de fenômenos econômicos, sociais e geográficos únicos na história brasileira.  Diversas relações familiares, por muito tempo ditas traços da personalidade brasileira (sobretudo a refeição em família), estão sofrendo grandes alterações em virtude dos novos paradigmas contemporâneos. Pesquisas relacionam o convívio alimentar em família com o bem-estar nutricional, relacional e com a melhor qualidade de vida [1], contudo a falta de companhia na alimentação pode ser responsável por sentimentos de solidão e de isolamento. Sabe aquele comer rápido e muitas vezes desleixado que podemos sofrer em alguns dias? Pois justamente existem pessoas para quem este comportamento representa um sofrimento não somente psicológico como também pode representar malefícios fisiológicos e nutricionais. Hoje vamos entender como a indústria do junk food é capaz de mudar hábitos alimentares inteiros de diferentes pessoas e sociedades.

O junk food está relacionado com o começo de empresas (que ainda são muito conhecidas por suas marcas) e pelo hábito de alimentação fast food. Esta história teve início com a implantação de sistemas de entrega drive-thru nos Estados Unidos durante os anos 1950, com o advento de diversas marcas que prometiam uma alimentação rápida e “pronta em 15 segundos” [1]. O consumo de hambúrguer no Brasil se iniciou nessa mesma década com a rede Bob’s em Copacabana [8]. Este processo pode ser chamado de McDonaltização da alimentação, em que pelo ganho de tempo associado ao hábito, a pessoa direta ou indiretamente dá em troca não somente seu dinheiro, mas riscos maiores de desenvolver diabetes, hipertensão arterial, obesidade, depressão, anemia, infarto e o subsequente enfraquecimento do espaço familiar como unidade social (uma vez que menor tempo de alimentação traz menor tempo de interação na hora da refeição, o pesadelo de toda avó que já reclamou de TV ligada na hora do almoço).

Em reportagem do IG, um grupo de britânicos experimentaram comer somente fast food (vertente de alimento associado a alimentação junk food de rápida entrega) por 3 semanas. Segundo reportagem, os mesmos tiveram complicações como crise crônica no intestino, danos no fígado, desidratação, problema no estômago, apneia do sono, ansiedade e insônia, bem como correram riscos associados ao estado pré-diabético [2].

A transferência de pessoas da alimentação saudável no espaço caseiro para a alimentação rápida e “junk” (em tradução livre, lixo) pode ser associada a diversos fatores que se desdobraram dos anos 80 para cá. A elevação do nível de vida e da educação, a menor disponibilidade de tempo para cozinhar, a profissionalização das mulheres e o trabalho fora de casa (uma vez que eram arbitrariamente as encarregadas da alimentação da família), a generalização do uso de automóveis e novos meios de locomoção mais baratos e acesso facilitado ao ambiente de venda como espaço de lazer foram associados ao aumento do consumo desses alimentos em horário comercial. Porém, as estratégias utilizadas por empresas de junk food podem se diferenciar de local para local. Uma empresa de batata frita no Pará precisará de um modo diferente de chegar no cliente do que uma empresa de São Paulo, não é mesmo? No cenário brasileiro, a interiorização (tendência das empresas saírem das capitais para cidades médias) está acontecendo de formas diferenciadas, sempre buscando mercados novos para alimentar a ânsia de crescimento (valeu o trocadilho, não?). O mercado dos produtos “podrão” está relacionado com as novas necessidades econômicas e de emprego da população.

O movimento de expansão de redes rumo a cidades médias é acompanhado da estratégia me-too. Empresas novas ou não tão consolidadas no mercado começam negócios em cidades novas, logo seguida de outras empresas, uma vez que a viabilidade dos investimentos é segurada. Para o estudo de Rodrigo Menon [3], mesmo com o acirramento da competitividade neste segundo momento, o efeito líquido em lucratividade continua sendo positivo até a consolidação do mercado, quando o aumento de números de empresas deste tipo já afeta a decisão de entrada de novas redes. O mesmo autor nos diz que a estratégia de entrada em cidades pode não ser homogêneo, uma vez que existem empresas que possuem metodologias próprias de análise de viabilidade. De qualquer forma, as primeiras redes a explorar o mercado colherão por um tempo uma necessidade reprimida da população, e, claro, muito dinheiro. O problema da comilança de besteiras é associado a comunicação ruim da problemática da saúde coletiva.

A fome no mundo moderno não está mais tão ligada a ideia de falta de alimentos para grupos de baixa renda, mas da redução da qualidade alimentar do ponto de vista nutricional [8], a chamada fome oculta. Problemas de saúde como a já citada obesidade e a anemia estão mais relacionados a pessoas de estratos sociais mais baixos. Tirando os períodos em que a fome força o ser humano a comer gêneros alimentícios não tão… apetitosos, o ser humano mantém limites sobre o que é ou não comestível. O serviço de terceirização da responsabilidade para as empresas impõe limites éticos sobre considerações nutricionais e sanitárias, que muitas vezes não são respeitadas por falta de conhecimento das mesmas. O ato alimentar é ligado ao caráter ecológico, tecnológico, econômico, social, político e ideológico. Podemos dizer mesmo que algumas empresas estão de acordo com a responsabilidade que o simples ato de vender comida representa?

No mundo, o cenário se torna um pouco mais problemático quando a publicidade do alimento é voltada para o público infantil, geralmente o sujeito hipervulnerável [4]. Promessas de brinquedos, diversão e sabores inconfundíveis atraem mais crianças e jovens do que se supunha. Legislações específicas, como as do Brasil, Suécia, Dinamarca, Grécia e Irlanda, consideram algumas propagandas violadoras contra os pilares do princípio a dignidade infantil. Em 2014, cerca de 41 milhões de crianças menores de 5 anos estavam acima do peso. Segundo o autor, mecanismos de controle implícitos são encontrados dentro da propaganda de algumas redes famosas. A alimentação voltada para crianças e adolescentes é ligada a chances maiores de obesidade, que pode com facilidade permanecer na idade adulta e levar ao desenvolvimento de doenças crônicas não transmissíveis, como problemas osteoarticulares [9]. Estas doenças ultrapassam em mortalidade as doenças infecciosas. Existem prejuízos psicossociais provocados pelo estigma dessa doença, justamente na época de sua vida onde se está determinando a identidade e a aceitação com a sociedade! Logo, o statusque foi muito tempo associado a essa alimentação em propagandas voltadas aos jovens (abra a felicidade!) leva a longo prazo a perda de integridade psicológica e emocional, característico de quadros clínicos instáveis.

Para a reportagem da Gazeta do Povo de 2019, filhos únicos possuem maiores tendências de desenvolver obesidade do que irmãos. O risco é associado ao ajustamento financeiro da família. Quando os pais têm mais dinheiro, maiores são as chances de saírem de casa para comer. Ter mais de um filho implica em pensar em todos e nem sempre a decisão de sair para comer é uma possibilidade [5].

Diversos alimentos podem entrar com facilidade nesta categoria, mesmo que não nos demos conta à primeira vista. A inserção rápida de nutrientes no corpo como carboidratos, gordura, açúcar e sódio, bem como calorias, são algumas das características do junk food. Pastel com caldo de cana (presente em substituição ao almoço algumas vezes) representa com facilidade 446 kcal em um copo de 230 ml e pastel de queijo (em uma dieta de 2.000 kcal, essa guloseima é capaz de dar 22,3% da nossa necessidade diária, sem nenhum ganho bom em vitaminas, aminoácidos essenciais, ácidos graxos poli-insaturados…). Batata frita, em uma porção de 146 gramas, pode ser responsável por 38% de valores diários com base em uma dieta de 2.000 kcal [6]. Bombom, biscoito, hambúrguer, pedaço de pizza, salgado, salgadinho, docinho e cachorro-quente, tem modelado não somente nossa noção sobre nossos hábitos de consumo, mas também nossos corpos. Um lanche típico de uma franquia famosa (em que trabalha um certo palhaço) representa mais da metade de caloria e gorduras para uma dieta de 2.000 kcal.

Estratégias voltadas ao consumo moderado destes gêneros alimentícios estão sendo efetuadas em diversas vertentes, como o famoso guia alimentar da população brasileira [7], que possui como princípios básicos a comensalidade, a saudabilidade e a qualidade do ato de comer. Segundo o guia, alimentos minimamente processados (alimentos frescos submetidos a alterações mínimas, como salga de carne) e in natura (fresco, como vegetais e ovos) devem ser utilizados como base alimentícia em substituição ao ultra processado (aquele que passou por muitos processos industriais e é nutricionalmente desbalanceado). O guia serve de diretriz para adoção de políticas públicas no âmbito da saúde, ajudando os nutricionistas, fisiologistas e demais profissionais de saúde na manutenção da saúde de pessoas interessadas ou com algum estágio de desenvolvimento de doenças crônicas. Porém, a falsa noção do brasileiro de “tudo o que vem de dentro é ruim, e tudo o que vem de fora é bom” implica uma certa resistência aos artigos de refeição nacionais [8]. O Brasil apresenta necessidades de consumo parecidos com países desenvolvidos pela própria natureza. O consumo excessivo de carne é associado a tentativa do brasileiro de demonstrar felicidade com ascensão social (bem lembrou o churrasco, não é mesmo?).

O que não podemos perceber em um primeiro momento é que o junk food pode representar uma mudança com relação a cultura alimentar de uma população inteira, levando a normatização dos aspectos alimentícios daquela sociedade que pode não corresponder às expectativas de saúde. Porém, quando bem implementado na população, os novos empreendimentos agregam valores novos para as pessoas, gerando uma certa hibridização cultural que enriquece a vida de todos! Afinal, se todo mundo está indo comer em certo lugar, significa que existia uma vontade anterior, certo? Novos empreendimentos podem trazer valores tradicionais com estas novidades globais, agregando em experiências alimentícias nunca antes pensadas no mundo. Saber lidar com estas tendências futuras com responsabilidade, equilíbrio e certo ceticismo serão essenciais para manter a saúde no futuro. Diversas tendências novas como a lightização, veganismo e a cozinha gourmet, e as dietas como paleolítica e low carb representam estratégias contra essa indústria alimentar, porém seus efeitos na cultura e na sociedade ainda precisam de mais estudos, como a elitização e mudanças do espaço geográfico e econômico associados a gourmetização de alimentos (uma boa ideia a ser explorada em próximos textos, não?).

Este texto abordou de forma resumida a problemática junk no Brasil. Indústrias alimentícias e marcas gigantes implicam em mudanças nos padrões alimentares de forma que nem mesmo pensamos. A quem interessa a falta de discussão de temas como esse? Este texto serve de introdução ao assunto, mas não faltam ideias para continuar o assunto e outros temas relacionados. Se gostou do texto, não esqueça de comentar alguma experiência pessoal ou dados interessantes! Até a próxima.


Lênin Machado Lopes. Amante de cultura pop americana e japonesa, futuro cientista de alimentos que busca o equilíbrio na força entre a alimentação, a ciência dos alimentos e a saúde coletiva! Entusiasta científico, tenta manter a paixão pela parte boa do mundo sempre que possível.

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