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Glândulas de Bartholin e o preço da dignidade na indústria pornográfica

por em 21/12/2020 em Ciência, Notícias | Nenhum comentário

Glândulas de Bartholin e o preço da dignidade na indústria pornográfica

Sexo vende. E como vende. Vende muito. Muito mesmo. Nunca vou esquecer-me de quando escutei essa frase em algum episódio de “Todo Mundo Odeia o Chris”, provavelmente naquele episódio com a revista PlayBoy. A IstoÉ Dinheiro publicou um artigo em 2013 em que consta que a indústria de filmes pornográficos lucra cerca de 10 bilhões de dólares por ano. Em tempos de pandemia e distanciamento social, com certeza a solidão noturna de muitos, somada a um alcance praticamente ilimitado da Internet, deve ter aumentado muito a receita desses grandes conglomerados. Mais interessante que isso, só a indústria de games que movimenta mais de 100 bilhões de dólares (tirem suas próprias conclusões dessa diferença de receita).

O PornHub faz levantamentos anuais de dados de acesso ao seu site, afinal eles são donos. Em 2019, por exemplo, temos alguns dados bem interessantes: só o PornHub teve mais de 42 bilhões de visitas, com cerca de fucking 6597 PETABYTES de dados transferidos. Eu não consigo nem imaginar um exemplo de quanto dado é isso, só sei que precisaremos de um HD maior. O termo mais pesquisado no Brasil é “lesbian”, e o navegador mais utilizado para assistir o site é o Google Chrome, o terror das memórias RAM. Em breve escreverei outro texto abordando só esse tipo de dado. Somos apaixonados por assuntos relacionados à sexualidade humana, gostamos de falar de sexo, histórias relacionadas a sexo, até a maior parte dos nossos xingamentos são relacionados a sexo. Até você, leitor, deve ter sido pego pela presença de “pornográfica” no título. Tudo bem, inclusive a inspiração desse texto foi um chamariz no qual eu mesmo caí. O SciCast publicou recentemente dois episódios sobre pornografia (SciCast #387 – Pornografia e Scicast #399 – Pornografia 2) nos quais são discutidos diversos aspectos relacionados ao tema. Mas o insight desse artigo veio de dois documentários existentes em certa plataforma de streaming de cor vermelha, o “Hot Girls Wanted” e o “After Porn Ends”.

No documentário “After Porn Ends” é abordada a vida atual de pornstars da década de 70 e 80, quando houve a explosão de consumo da indústria. Apesar de ser interessante acompanhar a vida de tiozões que outrora eram verdadeiras máquinas libidinosas, é pobre quanto à crítica que supostamente traria e às reflexões realmente profundas das marcas deixadas nos trabalhadores. Pesquisando sobre o assunto descobri que agora há uma trilogia que acompanha a história de vida de outros emancipados, espero que sejam mais incisivos no ponto que se propõem a abordar.

Mas o que eu realmente quero abordar nesse texto é o “Hot Girls Wanted”. Nesse documentário é abordada a vida de garotas adolescentes que vão para Miami trabalhar como atrizes amadoras. Descobrimos que a “vida útil” de uma atriz pornô dura mais ou menos uns três meses, que é mais que o suficiente pra que a garota passe pelas mais diversas atrocidades em nome do prazer alheio. Por algum motivo, há uma crescente busca por filmes com “abuso facial” e alguns tipos de emulações de estupro, logo, as garotas recebem um adicional por fazer tais cenas. Enfim, não vou detalhar muito, mas assistam o documentário que é bem interessante. O ponto do documentário que eu quero abordar aqui ocorre no meio da película, quando uma garota precisa se submeter a uma cirurgia por estar com um problema bem específico, onde eu posso enfim parar de encarnar um cinéfilo blasé que toma vinho ao som de jazz e entrar na área mais bonita do mundo: na área da saúde.

A garota é acometida por uma condição denominada Cistos nas Glândulas de Bartholin. As glândulas de Bartholin ou glândulas vestibulares maiores são duas glândulas do tamanho de ervilhas (entre 0,5 e 1 cm) que se localizam levemente ao lado direito e esquerdo da entrada da vagina e são responsáveis por produzir a lubrificação da parede vaginal para preparação do ato sexual. Seu nome se deve a anatomista dinamarquês Caspar Bartholin, que descreveu a estrutura pela primeira vez no séc. XVII em seu livro “De ovariis mulierum et generationis historia epistola anatomica” (“Os ovários da história das mulheres e gerações de letras anatômicas”, em tradução livre, péssimo nome). A secreção produzida por essa glândula se une a outras secreções vaginais para facilitar o contato sexual, porém em 2002 alguns especialistas levantaram a hipótese de que, por conta da sua localização anatômica, estando muito mais presente na vulva do que necessariamente dentro da vagina, essa secreção esteja relacionada com a suavização do contato nessa área tão sensível. Pensando comigo mesmo, pensaria que provavelmente essa secreção é um mecanismo evolutivo para o estímulo e proteção do clitóris, conhecido por ser uma região exclusivamente de estimulação sexual feminina, mas me faltam evidências. Responde aí Laura Miller. Como ponto de curiosidade, a estrutura homóloga masculina dessa região são as glândulas bulbouretrais, que produzem também uma substância que compõe o sêmen. Zlatko Pastor e Roman Chmel em 2017 fizeram um estudo em que analisaram a composição bioquímica dos fluidos vaginais e relataram que as mulheres produzem cerca de 6 gramas por dia desse fluido, além de uma alta concentração de potássio (pra quê bananas para câimbra!?) e baixas concentrações de sódio (essa é pros cardíacos) em relação as concentrações encontradas em plasma sanguíneo e um pH suavemente ácido de 4,7 (algo como tomar uma cerveja).

Como ótimas glândulas secretoras que são, elas possuem ductos que direcionam os fluidos produzidos para a zona alvo e são exatamente nesses ductos que podem aparecer problemas. Alterações inflamatórias locais ou obstrução do ducto podem levar a formação de cistos, que é normalmente quando essas glândulas são notadas apesar de sua função primordial ser de suma importância. Cistos ou abscessos nessa região correspondem a 2% de todas as visitas ginecológicas por ano e abscessos são três vezes mais comuns do que cistos. As obstruções do ducto que não possuem relação com alguma inflamação normalmente têm como origem lacerações obstétricas (passagem da criança durante o parto), realização de episiotomia (um corte cirúrgico realizado para facilitar a saída do bebê durante o parto que, se feita de forma forçada ou desinformada à mãe, atualmente é considerada crime de violência obstétrica), danos secundários a traumatismos no períneo (aquela região entre o ânus e a entrada da vagina) e traumatismos diretamente impostos na região da vulva. O diagnóstico é totalmente clínico e o tratamento varia conforme o tamanho do cisto. Em caso de cistos menores que 3 cm recomenda-se um tratamento conservador, com banhos de assento com água morna e manter a região limpa até que o cisto desapareça de forma espontânea em alguns dias. Para cistos maiores que 3 cm ou em mulheres com idade acima de 40 anos, exige-se que entre com estratégias mais invasivas, como intervenção cirúrgica, excisão (retirada) da glândula ou drenagem.

Aqui entramos no ponto em questão. No documentário, a garota diz que seu médico disse que ela teve esses cistos por excesso de relações sexuais. EXCESSO DE RELAÇÕES. Um estudo feito pela psiquiatra Carmita Abdo, em 2016, traz a informação de que a média brasileira de relações sexuais por semana é de 2,9 relações. Pensando na nossa realidade e deixando de lado questões idiossincráticas como fatores genéticos, o que seria “transar demais?” Qual tipo de limite biológico o corpo feminino possui para que, a partir de determinado ponto, o ato sexual passe a ser um prejuízo? Como visto, provavelmente a gênese desse quadro na garota reside em lesões na vulva e danos secundários na região do períneo. Logo, podemos refletir que na verdade a questão, que além de ter muitas relações, talvez ela tenha a ver com extrema violência. Quanto vale o dano causado em seu próprio corpo pelo dinheiro que é possível obter com o prazer alheio? A indústria não parece estar muito preocupada com isso, afinal, o que importa no frigir dos ovos é que tenham sempre garotas novas, com seus corpos utópicos e suas vulvas intactas e lisas como um pêssego e, quando deixam de ser assim, são substituídas como uma capinha de celular comprada na 25 de Março no frenesi das compras de Natal. A dignidade de uma atriz participante dessa máquina incólume é a mesma de um saco de gelo no meio do deserto. E como reflexão final, temos que lembrar que o sistema de saúde americano não é público, logo, muito provavelmente a garota teve que desembolsar alguma quantia para realizar a cirurgia, tão somente para retornar ao seu trabalho degradante. No final, o valor arrecadado em suas curtas carreiras meteóricas não vale o estigma a que serão submetidas pelo resto de suas vidas. No limite entre a pornografia e o erotismo, a indústria pornográfica faz escambo entre prazer e saúde.

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