O gênero stealth (furtividade) nos videogames se caracteriza por priorizar a discrição, o planejamento e a inteligência em vez do confronto direto. Em jogos desse gênero, o objetivo do jogador normalmente é evitar ser detectado pelos inimigos, utilizando sombras, cobertura, distrações e rotas alternativas para completar missões. Muitos devem conhecer Metal Gear e Tom Clancy’s Splinter Cell, os grandes bastiões desse gênero, mas esse estilo de jogo não sobrevive apenas de grandes nomes, pequenos jogos com propostas interessantes também agregam ao gênero.

E que ideia melhor do que ambientar um jogo de espionagem durante a conturbada Segunda Guerra Mundial e ainda usar como inspiração uma espiã que realmente existiu? Essa foi a ideia da Replay Studios quando lançou Velvet Assassin em 2009. Infelizmente a execução não deu muito certo e o jogo saiu com vários problemas. Mas veremos que mesmo em um jogo não tão bom (ou só ruim mesmo), podemos aprender muita coisa. Então permaneça nas sombras e vamos enfrentar o exército nazista enquanto conhecemos mais sobre a mulher que inspirou o desenvolvimento de Velvet Assassin.

Ambientado durante a Segunda Guerra Mundial, o jogo coloca o jogador no papel de Violette Summer, uma agente secreta britânica inspirada na verdadeira espiã Violette Szabo. A história é contada por meio de lembranças da protagonista enquanto ela está hospitalizada em estado crítico. Cada missão representa uma memória de operações realizadas atrás das linhas inimigas, envolvendo sabotagem, resgates, coleta de informações e eliminações de alvos estratégicos. O ambiente, a iluminação e o posicionamento são elementos fundamentais para completar as missões. Quanto ao visual, o jogo adota uma atmosfera sombria e cinematográfica, utilizando contrastes de luz e sombra para reforçar o clima de suspense.

Imagem 01: Violette Summer usa diversos disfarces durante o jogo. A imagem mostra três versões diferentes da personagem, uma mulher branca com cabelos curtos e negros

Embora não seja uma adaptação fiel, Velvet Assassin estabelece uma forte ligação com a história de Violette Szabo. A protagonista, Violette Summer, foi criada como uma personagem fictícia inspirada na agente britânica, compartilhando diversos elementos de sua trajetória, como o trabalho em missões secretas na França ocupada durante a guerra. Vamos então conhecer a incrível história dessa grande espiã.

Violette Szabo (1921–1945) foi uma agente da Special Operations Executive (SOE), organização criada pelo governo britânico durante a Segunda Guerra Mundial para conduzir missões de espionagem, sabotagem e apoio aos movimentos de resistência em territórios ocupados pela Alemanha Nazista.

Nascida em Paris, filha de mãe francesa e pai britânico, Violette cresceu entre a França e a Inglaterra, tornando-se fluente em francês e inglês. Após o início da guerra, casou-se com Étienne Szabo, um oficial da Legião Estrangeira Francesa. Pouco tempo depois, ele morreu em combate no norte da África, deixando Violette viúva e com uma filha pequena.

Imagem 02: A jovem Violette Szabo com 23 anos. Na imagem vemos o rosto de uma mulher jovem, branca e com cabelos curtos e negros

Movida pelo desejo de contribuir para a derrota do regime nazista, Violette ingressou na SOE e recebeu treinamento intensivo em comunicações, paraquedismo, armas e técnicas de sobrevivência. Em 1944, foi enviada à França ocupada para colaborar com a Resistência Francesa, transmitindo informações e organizando ações contra as forças alemãs.

Violette foi designada para sua primeira missão como mensageira de Phillipe Liewer, chefe do circuito SALESMAN (rede clandestina de espionagem e sabotagem) na Normandia. Mesmo a missão sendo considerada extremamente perigosa, ela não se abalou. Recebeu o poema “The Life That I Have” (em tradução livre: A Vida Que Eu Tenho) como código secreto e seguiu sozinha, sob identidade falsa, para Rouen, com a tarefa de investigar a captura recente de Claude Malraux (importante agente secreto da Resistência Francesa) e de um operador de rádio da SOE.

Imagem 03: A SOE não foi a única organização militar que alistou mulheres para o combate. Na foto vemos as Bruxas da Noite, um regimento de elite composto inteiramente por mulheres na URSS. A imagem mostra catorze mulheres juntas e vestidas com uniformes militares

Durante sua segunda missão, logo após o desembarque na Normandia, Violette foi capturada pelas tropas alemãs após oferecer resistência armada para permitir que um companheiro tentasse escapar. Mesmo submetida a interrogatórios e maus-tratos, recusou-se a revelar informações sobre sua missão ou seus colegas.

Posteriormente, ela foi deportada para o campo de concentração de Ravensbrück, onde foi executada em janeiro de 1945, poucos meses antes do fim da guerra.

No jogo, assim como Violette Szabo, Violette Summer atua como integrante da SOE, infiltrando-se em território inimigo para realizar operações de sabotagem, espionagem e apoio à resistência. A atmosfera do jogo procura transmitir os perigos enfrentados por esses agentes, destacando a necessidade de discrição, inteligência e coragem em um ambiente dominado pelas forças nazistas.

Apesar das inspirações históricas, Velvet Assassin toma diversas liberdades criativas. A narrativa, os personagens, as missões e muitos dos acontecimentos foram desenvolvidos para criar uma experiência de ação e furtividade, e não para reproduzir com precisão a biografia de Violette Szabo. Enquanto a agente real participou de apenas duas missões na França antes de ser capturada, a protagonista do jogo vive uma série de operações fictícias que ampliam o aspecto dramático e estratégico da espionagem.

Imagem 04: Às vezes temos apenas uma faca para enfrentar os inimigos no jogo. Na imagem vemos uma mulher que se aproxima sorrateiramente por trás de um soldado e porta uma faca

Ainda assim, a essência da homenagem permanece evidente. O nome da protagonista, sua função como agente secreta, o contexto histórico e até mesmo a narrativa envolvendo um leito de hospital fazem referência ao legado de Violette Szabo e ao sacrifício de tantos homens e mulheres que atuaram em missões clandestinas durante a guerra.

Por sua extraordinária coragem, Violette Szabo recebeu postumamente a George Cross, a mais alta condecoração britânica por heroísmo fora do campo de batalha. Na França, também foi homenageada com a Croix de Guerre e outras distinções por sua contribuição à libertação do país.

Imagem 05: A filha de Violette Szabo, Tania, recebe a Cruz George póstuma de sua mãe. A imagem mostra uma garota pequena recebendo uma medalha de um homem, oficial do exército

Já o jogo, embora tenha recebido elogios por sua ambientação e pela proposta diferenciada, também foi criticado por alguns problemas técnicos, inteligência artificial limitada e mecânicas que poderiam ser mais refinadas. De qualquer forma, fica a recomendação de pelo menos conhecer o jogo, servindo para calibrar seu gosto, já que nos jogos (assim como na vida), se você não conhecer e soubre o que é ruim, não vai dar valor ao que é bom. Terminando, deixo o poema que Violette Szabo carregava na sua primeira missão e que, ironicamente, conversa com a vida que ela teve:

A vida que tenho
É tudo o que tenho
E a vida que tenho
É sua.

O amor que tenho
Da vida que tenho
É seu, seu e seu.

Um sono terei
Um descanso terei
Mas a morte será apenas uma pausa.

Pois a paz dos meus anos
Na longa relva verde
Será sua, sua e sua.

Fontes: Wikipédia, Rolling Stone, Reddit, Violette Szabo GC Museum, Liberation Route Europe e IWM