Na sétima geração de consoles, enquanto Sony e Microsoft entravam com seus consoles (PS3 e Xbox 360 respectivamente) que apostavam na alta definição de imagem, a Nintendo seguiu por outro caminho. Chegando com um hardware menos robusto, se comparado com os concorrentes, o Wii apostava em tornar os jogos mais acessíveis e interativos para todos os públicos. O grande diferencial do console era o controle sensível a movimentos, conhecido como Wii Remote. Com ele, os jogadores podiam simular ações do mundo real, como balançar uma raquete, arremessar uma bola ou apontar para a tela. Essa abordagem revolucionou a forma de jogar e atraiu não apenas jogadores tradicionais, mas também pessoas que nunca haviam se interessado por videogames, incluindo famílias inteiras e públicos mais idosos.

O console fez um tremendo sucesso, vendendo cerca de 101,63 milhões de unidades pelo mundo. Porém, diferenteente do que muitos acham, o Wii não contou apenas com jogos simples que focavam mais nos controles de movimento do que na qualidade em si (apesar de muitos terem sido lançados assim), o console recebeu diversos jogos que brilharam devido à sua criatividade, e Deadly Creatures certamente foi um deles.  Ele se destacou por colocar o jogador no controle de duas criaturas pouco convencionais: um escorpião e uma tarântula, explorando o mundo a partir de uma perspectiva totalmente incomum. Se você tem aracnofobia, CUIDADO, pois iremos aprender mais sobre aracnídeos enquanto jogamos Deadly Creatures.

A história do jogo se passa no Deserto de Sonora, onde pequenos animais lutam constantemente pela sobrevivência. O jogador alterna entre os dois protagonistas, cada um com habilidades únicas: o escorpião utiliza seu ferrão para ataques rápidos e venenosos, enquanto a tarântula aposta em agilidade e ataques mais estratégicos. Essa dualidade traz variedade à jogabilidade, incentivando o uso de diferentes táticas ao longo da aventura.

Além da luta constante contra outros insetos e predadores, o jogo também apresenta uma narrativa paralela envolvendo humanos. Essa trama humana se entrelaça com os eventos do mundo das criaturas, adicionando um toque cinematográfico à experiência.

Um dos pontos mais interessantes de Deadly Creatures é a forma como o ambiente é retratado. Elementos simples para humanos, como uma lata jogada no chão ou raízes de plantas, tornam-se cenários gigantescos e perigosos quando vistos do ponto de vista desses pequenos invertebrados. Isso cria uma atmosfera imersiva e, muitas vezes, tensa, já que qualquer descuido pode significar a morte. E antes de conhecer mais sobre nossos protagonistas, vamos ao ambiente em que eles vivem, pois isso facilitará o entendimento das espécies encontradas.

Palco de toda ação do jogo, o Deserto de Sonora é um dos desertos mais incríveis da América do Norte, estendendo-se pelo sudoeste dos Estados Unidos e pelo noroeste do México. Abrangendo partes de estados como Arizona e Califórnia, além da região de Sonora no México, esse deserto se destaca não apenas por sua vastidão, mas também por sua surpreendente biodiversidade. Diferentemente da imagem comum de desertos completamente áridos e sem vida, o Deserto de Sonora possui uma grande variedade de plantas e animais adaptados às condições extremas.

Um dos símbolos mais conhecidos da região é o cacto saguaro, que pode atingir mais de 12 metros de altura e viver por mais de um século. A fauna é rica e diversificada. Animais como o coiote, a cascavel e diversas espécies de escorpiões e aranhas habitam a região. Muitos desses animais são noturnos, evitando o calor intenso do dia, que pode ultrapassar facilmente os 45 °C durante o verão.

Imagem 01: O Deserto de Sonora abrange uma parte dos Estados Unidos e do México. Na imagem vemos toda a extensão do Deserto de Sonora.

No jogo, não é dito qual é a espécie da tarântula e do escorpião que controlamos, apenas que uma é fêmea e o outro macho, porém, sabendo o habitat em que a aventura se passa, podemos supor quais são. Primeiramente, quando falamos em aranhas, a principal candidata é a Tarântula Loira do Deserto.

No Deserto de Sonora, temos diversas espécies de aranhas, porém apenas uma tarântula (que no Brasil normalmente chamamos de caranguejeira). A Tarântula Loira do Deserto (Aphonopelma chalcodes) é uma aranha grande e peluda que vive em regiões desérticas do sudoeste dos Estados Unidos e do México (área do Deserto de Sonora). Ela passa a maior parte do tempo em tocas no solo, geralmente revestidas com seda, onde espera suas presas se aproximarem, diferente do jogo, em que a tarântula depende de movimentos rápidos para surpreender seus inimigos e atacá-los diretamente. Ainda assim, tanto na vida real como no jogo, colocam em ação a habilidade de usar veneno e força para subjugar suas vítimas.

Imagem 02: À esquerda a tarântula no jogo e à direita a tarântula na vida real. A imagem mostra a grande semelhança entre a aranha do jogo e a da vida real.

Outro paralelo com o jogo é a alimentação dessa aranha. A Tarântula Loira do Deserto se alimenta principalmente de insetos, mas também pode capturar pequenos animais, como lagartos e até mesmo outras aranhas (esses dois últimos, inimigos recorrentes na jogatina). Ao mesmo tempo, ela faz parte da cadeia alimentar, sendo predada por aves, mamíferos e répteis, inclusive uma cascavel é a grande inimiga da nossa protagonista de Deadly Creatures. Claro, uma tarântula dificilmente derrotaria uma cascavel, porém se consideramos as aranhas do gênero Latrodectus (as famosas viúvas-negras), a coisa muda de figura. Aranhas desse gênero usam suas fortes teias e suas peçonhas para capturar e paralisar esses répteis.

Imagem 03: Viúvas-negras são predadoras extremamente eficientes e caçadoras estratégicas, capazes de capturar presas muito maiores que ela. Na imagem vemos uma cobra presa na teia de uma aranha.

Indo para nosso segundo protagonista, no jogo o escorpião é apresentado como um predador agressivo e sempre pronto para atacar com seu ferrão. No mundo real, eles também utilizam o ferrão como principal arma de defesa e caça, inoculando veneno para imobilizar suas presas. No entanto, diferentemente da ação constante vista no jogo, escorpiões reais tendem a ser mais cautelosos, atacando apenas quando se sentem ameaçados ou quando estão caçando para se alimentar.

Quanto à sua espécie, temos duas no Deserto de Sonora, o Escorpião-Peludo-do-Deserto (Hadrurus arizonensis) e o Escorpião-da-Casca-do-Arizona (Centruroides sculpturatus), esse último é considerado o escorpião mais venenoso da América do Norte, porém é bem pequeno (uns 7 cm de comprimento), por isso podemos supor que o escorpião que vimos no jogo seja o Escorpião-Peludo-do-Deserto, já que ele é a maior espécie de escorpião da América do Norte, podendo atingir até 17 ou 18 centímetros de comprimento (o que combina com o tamanho do escorpião do jogo).

Imagem 04: No jogo, as pinças do escorpião são bem maiores para transmitir mais “força”. A imagem mostra o escorpião no jogo e sua contraparte da vida real.

O Hadrurus arizonensis é um predador noturno. Durante o dia, ele se abriga em tocas profundas que podem ultrapassar dois metros, protegendo-se do calor extremo do deserto. À noite, sai para caçar insetos, aranhas e até pequenos vertebrados, utilizando suas pinças (bem úteis também no jogo) para capturar a presa e o ferrão para imobilizá-la com veneno. Apesar da aparência intimidadora, seu veneno é considerado relativamente fraco para humanos, sendo comparável ao de uma picada de abelha na maioria dos casos, embora ainda possa causar dor e desconforto.

Imagem 05: Devido a substâncias fluorescentes, como a beta-carbolina e compostos no seu exoesqueleto, escorpiões brilham na luz UV. A imagem mostra um escorpião brilhando na luz negra.

E se em Deadly Creatures uma cascavel é a antagonista da tarântula, o escorpião também tem um rival, o Monstro de Gila. Cientificamente conhecido como Heloderma suspectum, é famoso por sua aparência robusta e coloração marcante. Com padrões em tons de preto e laranja ou rosa, ele se destaca não apenas pela aparência, mas também por ser um dos poucos lagartos venenosos do mundo.

Diferentemente de serpentes, o Monstro-de-Gila não injeta veneno por presas ocas; em vez disso, ele morde e mantém a mordida, permitindo que o veneno escorra para a ferida. Alimentam-se de uma variedade de presas pequenas, incluindo ovos, roedores e outros animais que se cruzam no deserto, além de serem predadores de escorpiões.

Esse réptil também tem valor medicinal. Substâncias presentes em seu veneno inspiraram o desenvolvimento de medicamentos para o tratamento de doenças como o diabetes tipo 2, demonstrando como espécies aparentemente perigosas podem trazer benefícios à ciência.

Imagem 06: O veneno do monstro-de-gila inspirou a criação de uma classe revolucionária de medicamentos para diabetes e emagrecimento, que abriu as portas para o desenvolvimento do Ozempic. Na imagem vemos um grande lagarto em cima de uma rocha.

Por fim, podemos perceber que o jogo exagera bastante os combates, colocando esses animais em confrontos frequentes e prolongados. Na vida real, tanto escorpiões quanto tarântulas evitam confrontos diretos sempre que possível, já que ferimentos podem ser fatais. A luta, portanto, é mais uma última alternativa do que uma constante.

Assim, Deadly Creatures pode ser visto como uma interpretação dramatizada da vida desses pequenos predadores. Ele transforma comportamentos reais, como caça, defesa e adaptação ao ambiente, em mecânicas de ação, oferecendo uma experiência envolvente, mas que ainda mantém uma base inspirada no fascinante mundo natural.

E chegamos ao fim, espero que tenham gostado. Deixe aí nos comentários se você já conhecia o jogo ou se já jogou e o que achou dele. Infelizmente, jogos criativos como Deadly Creatures estão cada vez mais escassos nessa indústria de entretenimento.

Gif 01: Às vezes parece que estamos jogando um God of War, com direto até Quick Time Events. No gif vemos o escorpião aplicando golpes em um inseto.

 

Fontes: Wikipédia, Deadly Creatures Wiki, Info Escola, Desert Museum, AZ Animals e Animal Diversity Web