A “Fórmula Ubisoft” de fazer seus jogos, hoje, é bem conhecida e até mesmo copiada por outras empresas. Um mundo aberto para ser explorado, bases para serem liberadas que aumentam o mapa, muitos colecionáveis, um número excessivo de missões secundárias (muitas vezes repetitivas e chatas), recompensas… Enfim, muito conteúdo e pouca “sustância”. Pode-se dizer que o embrião dessa fórmula, começou com Far Cry 2 e se solidificou com Far Cry 3, mas já em Far Cry 4 de 2014 ela mostrava sinais de cansaço.
Porém, tivemos um respiro em 2016 com o lançamento de Far Cry Primal, que apesar de seguir a mesma fórmula, inovou pela temática e algumas mecânicas de gameplay, deixando as armas de fogo de lado e se passando na Pré-História. Mas será que a Ubisoft soube calcar bem sua história na realidade ou eles não tinham pretensão alguma de passar uma verossimilhança? Então, pelo bem da tribo, afie sua lança e vamos caçar mamutes e nos defender de feras, enquanto aprendemos mais sobre a humanidade durante a Pré-História.
O jogo se passa por volta de 10.000 a.C., em uma região fictícia chamada Oros, inspirada na Europa Central pré-histórica. Assumimos o papel de Takkar, um caçador da tribo Wenja, que precisa sobreviver em um ambiente hostil após ser separado de seu grupo. A trama gira em torno da reconstrução da tribo, da luta contra grupos rivais e da busca por domínio territorial em um mundo onde a sobrevivência depende de força, estratégia e adaptação à natureza. Essa narrativa ganha muito mais força por se passar no Mesolítico. Vamos entender, então, que período foi esse, como ele impactou na história humana e como seus elementos característicos são representados no jogo.
O Mesolítico é um período da Pré-História que marca a transição entre o Paleolítico e o Neolítico, situando-se aproximadamente entre 10.000 e 8.000 a.C. Ele surge em um momento de profundas mudanças ambientais e sociais, especialmente após o fim da última Era Glacial, quando o clima se tornou mais quente e estável. E aqui já podemos destacar o ambiente e o contexto climático do período.
O fim da última Era Glacial (sabe-se que houve pelo menos 5 no planeta Terra) provocou grandes mudanças ambientais: o recuo das geleiras, o aumento das florestas e a diversificação da fauna. O jogo traduz esse contexto através de um mundo aberto repleto de florestas densas, rios, cavernas e planícies, habitado por grandes predadores e megafauna.
Temos a presença de grandes animais como mamutes, tigres-dente-de-sabre e ursos, embora nem todos coexistissem exatamente no mesmo espaço e tempo — uma liberdade tomada pelo jogo em prol da diversão. Esses animais representam desafios à sobrevivência do jogador, seja pela necessidade de caça ou de se defender de ataques. Para isso, no jogo, temos uma vasta gama de ferramentas/armas que podemos utilizar.

Imagem 01: A temperatura da Terra durante a ultima era Glacial (cerca de 20.000 a 26.000 anos atrás). Na imagem vemos um mapa do planeta Terra mostrando as baixas temperaturas que ocorram durante a ultima era Glacial.
Lanças, arcos, facas de sílex, machados e armadilhas são bem fundamentados historicamente. Achados arqueológicos comprovam que essas tecnologias foram fundamentais para a caça, a defesa e o processamento de alimentos. Outro ponto ainda é a evolução tecnológica de tais ferramentas. Por meio da coleta de recursos, podemos melhorar nossas armas, aumentando o dano por elas gerado, mostrando como o aperfeiçoamento das ferramentas aumenta as chances de sobrevivência, um reflexo direto da realidade pré-histórica, em que inovação significava vantagem adaptativa.
O uso do fogo é outro ponto central. Historicamente, o domínio do fogo foi um marco decisivo na evolução humana, permitindo cozinhar alimentos, afastar predadores, aquecer-se e fortalecer laços sociais. Apesar de começar a ser usado há mais de 1 milhão de anos, foi durante o Mesolítico e Neolítico que aprendemos a habilidade de criar o fogo, e não apenas usá-lo. No jogo, o fogo tem funções semelhantes, além de servir como arma e elemento simbólico de poder e controle.
Voltando um pouco, a relação com os animais não é só representada através da caça, mas também como uma mecânica crucial pela domesticação de feras que ajudam no combate e exploração. O jogador pode “domesticar” vários bichos no jogo, desde pequenos canídeos até mamutes, passando por felinos e ursos. Claro que aqui há uma exagerada, mostrando a domesticação de animais selvagens como tigres-dentes-de-sabre e mamutes. Não que no passado alguém não tenha tentado, mas dificilmente tal indivíduo sobreviveu para contar a história.

Gif 01: No jogo, a diversidade de animais para domesticação é bem grande. O gif mostra o protagonista afagando uma grande felino, parecido com um leão branco.
A domesticação de animais foi um processo gradual de autodomesticação e seleção artificial, em que os indivíduos mais mansos e adaptáveis aos humanos se aproximavam das comunidades, e as gerações seguintes eram selecionadas por características desejáveis, como visto nos lobos que se tornaram cães ou nos herbívoros que deram origem a ovelhas e cabras. Inclusive foram os cães os primeiros animais a serem domesticados, ainda no final do Paleolítico.

Imagem 02: Inicialmente, os cães foram selecionados para realizar tarefas específicas para os humanos, porém esse propósito foi se perdendo aos poucos. A imagem mostra uma comparação entre dois tipos de cães, um de séculos atrás e outro atual, com uma piada dizendo que os cães do passado eram mais fortes e resistentes.
Quanto à organização social, o jogo apresenta três principais tribos, as quais representam diferentes estágios da organização humana ao longo da história.
Os Wenja representam caçadores-coletores, que dependem da cooperação do grupo, da partilha de recursos e da transmissão oral de conhecimento. Esse tipo de organização foi predominante durante a maior parte da história humana (inclusive no período Mesolítico), com forte senso comunitário e divisão de tarefas por idade, habilidade e, possivelmente, gênero.

Imagem 03: Da esquerda para a direta, os Wenja, os Udam e os Izila. Na imagem vemos indivíduos representando as três tribos encontradas no jogo
O próximo passo evolutivo dado pela humanidade também foi representado no jogo, apesar de estar deslocado do período histórico real, o Neolítico no caso. Os Izila simbolizam sociedades mais avançadas tecnologicamente, com estruturas fixas, rituais religiosos elaborados e domínio sistemático do fogo, o que pode ser relacionado às primeiras comunidades sedentárias e ao início da agricultura.
Por último temos os Udam, retratados como violentos e fisicamente mais robustos, fazendo um paralelo com a visão popular (e hoje considerada simplificada) dos neandertais. Embora a ciência moderna reconheça que os neandertais possuíam cultura, linguagem e tecnologia sofisticadas, o jogo utiliza esse estereótipo para representar grupos humanos em estágios evolutivos distintos.
Sua presença no jogo é mais uma liberdade artística, pois não existiram neandertais durante o Mesolítico. Eles viveram predominantemente durante o período do Paleolítico Médio e Superior (aproximadamente 400.000 a cerca de 40.000 anos atrás) e desapareceram muito antes do início do Mesolítico. Ainda assim, estudos de DNA mostram que houve cruzamentos entre neandertais e humanos modernos, o que podemos ver em populações fora da África, que possuem cerca de 1% a 2% de DNA neandertal. Isso mostra que os neandertais não “desapareceram” de forma súbita, mas foram gradualmente substituídos e parcialmente incorporados às populações de Homo sapiens.

Imagem 04: O filme Guerra do Fogo, de 1982, traz uma boa especulação de como seria a relação dos neandertais e homo sapiens. A imagem mostra o cartaz do filme com os quatro personagens principais no centro logo acima do titulo
Cada uma das três tribos possui um dialeto próprio. Os idiomas são fictícios, porém foram desenvolvidos com base em reconstruções linguísticas reais do proto-indo-europeu (língua ancestral comum das línguas europeias atuais). Isso reforça a importância da linguagem oral na transmissão de conhecimento, mitos e tradições, elemento central das sociedades pré-históricas e presente no jogo. Além disso, o jogo retrata práticas espirituais, xamânicas e rituais, que encontram paralelo em evidências arqueológicas como pinturas rupestres, sepultamentos simbólicos e objetos cerimoniais, sugerindo que a espiritualidade sempre fez parte da experiência humana.
Terminando, podemos dizer que, mesmo com licenças artísticas e exageros, Far Cry Primal funciona como uma porta de entrada lúdica para refletir sobre a Pré-História, ajudando a compreender como os primeiros seres humanos viveram, se organizaram e transformaram o mundo ao seu redor.
E chegamos ao fim, espero que tenham gostado. Deixem aí nos comentários o que acharam do texto e sua opinião sobre a franquia Far Cry. Já está desgastada? Sim ou Não? Até a próxima.
Fontes: Wikipédia, Mundo Educação, Brasil Escola, Petz e Veja

