Quando estreou no mundo dos videogames em Donkey Kong de 1981, Mario era um carpinteiro, mas assim que ganhou um título próprio em 1983 com Mario Bros. (o Super Mario Bros. que conhecemos só viria em 1985) ele virou um encanador. Desde então, o encanador bigodudo já teve mais de 20 profissões, ou pelo menos se arriscou informalmente nelas (a Nintendo nunca divulgou nenhum certificado de possíveis cursos que ele tenha feito), e foi quando a Nintendo viu a oportunidade de criar um Tetris que pudesse chamar de seu que Mario se arriscou em mais uma profissão, médico. Então siga à risca a recomendação do seu médico, tome suas vitaminas e faça exercícios, pois iremos encarar vírus em Dr. Mario.

Após o sucesso estrondoso de Tetris no Game Boy e no NES, o presidente da Nintendo na época, Hiroshi Yamauchi, pediu à sua equipe que criasse um jogo de encaixar blocos que fizesse tanto sucesso quanto Tetris. A resposta foi Dr. Mario. Lançado em 1990 também para NES e Game Boy, o jogo coloca o jogador no papel do Dr. Mario que precisa eliminar vírus utilizando cápsulas coloridas.

A mecânica do jogo é simples, mas bastante desafiadora. O jogador controla cápsulas compostas por duas partes de cores diferentes, que caem do topo da tela. O objetivo é alinhar quatro ou mais peças da mesma cor (incluindo vírus e partes das cápsulas) na horizontal ou na vertical. Quando essa combinação é formada, as peças e vírus desaparecem, aproximando o jogador da eliminação de todos os vírus presentes na fase (vírus que representam sintomas como febre, frio e corpo “ruim”). À medida que o jogo avança, a quantidade de vírus aumenta e a velocidade de queda das cápsulas se torna maior, exigindo raciocínio rápido, planejamento e boa coordenação.

Imagem 01: Os três principais vírus do jogo com as respectivas cápsulas pelas quais são eliminados. Na imagem vemos três monstrinhos em cima de três cápsulas

Provavelmente a Nintendo tenha escolhido o formato de cápsulas porque ele é facilmente reconhecível e permite combinar duas cores em uma única peça, tornando a mecânica do jogo semelhante à de Tetris, mas ainda com uma identidade própria. Assim, as cápsulas são, ao mesmo tempo, um elemento visual ligado ao tema médico e a principal peça do quebra-cabeça.

Claro que as cápsulas que o Dr. Mario lança não representam medicamentos específicos da vida real. Elas são cápsulas fictícias criadas para o universo do jogo e representam uma forma lúdica e simplificada do combate a infecções. Mas como vírus são combatidos? Essas cápsulas poderiam ser outra coisa? O que o jogo pode nos ensinar sobre isso? Veremos então.

Primeiro: O que são vírus? Os vírus são agentes infecciosos microscópicos, muito menores que as bactérias, capazes de infectar todos os tipos de seres vivos, incluindo animais, plantas, fungos e até mesmo bactérias. Diferentemente das células, os vírus não possuem estrutura celular nem metabolismo próprio. Por esse motivo, eles não conseguem crescer, produzir energia ou se reproduzir sozinhos. Para se multiplicarem, precisam invadir uma célula viva e utilizar a maquinaria dessa célula para produzir novas partículas virais.

Imagem 02: As diferentes formas dos vírus na vida real. A imagem mostra dez formas de vírus

Quando um vírus entra no organismo, ele procura células específicas para infectar. Após invadir a célula, seu material genético assume o controle das funções celulares, levando à produção de novos vírus. Essas novas partículas são liberadas e podem infectar outras células, dando continuidade à infecção. Os vírus são combatidos principalmente pelo sistema imunológico do organismo que utiliza diferentes mecanismos para controlar e eliminar uma infecção viral.

Os principais são: Barreiras naturais como a pele, as mucosas e secreções; resposta imunológica inata, quando um vírus invade o organismo, células de defesa detectam sua presença e liberam substâncias que ajudam a impedir a multiplicação viral e alertam outras células sobre a infecção; resposta imunológica adaptativa, produzindo linfócitos que reconhecem e destroem as células infectadas pelo vírus e memória imunológica, já após a infecção, parte dessas células de defesa permanece no organismo. Assim, se o mesmo vírus voltar a infectar a pessoa, a resposta será muito mais rápida e eficiente. E nesse último ponto as vacinas são essenciais, pois elas são uma das formas mais eficazes de combater vírus. As vacinas apresentam ao sistema imunológico uma versão inofensiva do vírus (ou partes dele), permitindo que o organismo desenvolva anticorpos e células de memória sem causar a doença. Quando a pessoa entra em contato com o vírus verdadeiro, o sistema imunológico já está preparado para responder rapidamente. Então VACINE-SE.

Imagem 03: Leucócitos podem se “especializar” dependendo do vírus que atacar nosso corpo. Na imagem vemos a representação de como um leucócito pode criar outro tipo de célula defensiva

E quanto a medicamentos? Antibióticos não funcionam contra vírus, pois foram desenvolvidos para combater bactérias. Em alguns casos, existem medicamentos antivirais, que não “matam” diretamente o vírus, mas dificultam sua multiplicação. Exemplos são antivirais para influenza, HIV, hepatites virais e herpes. As cápsulas de Dr. Mario seriam apenas uma alegoria então? Nem tanto… As capsulas poderiam ser vitaminas.

Interpretar as cápsulas como vitaminas ou suplementos faz certo sentido do ponto de vista biológico (e em lançamentos subsequentes a própria Nintendo trata as capsulas como vitaminas). Na vida real, vitaminas não matam vírus diretamente, mas ajudam a manter o funcionamento adequado do sistema imunológico. Assim, em uma leitura educativa, as cápsulas poderiam simbolizar um organismo fortalecido que consegue eliminar os vírus.

Imagem 04: Dada a quantidade de formas e cores que encontramos nos medicamentos, os desenvolvedores foram bem perspicazes em usar capsulas de duas cores. A imagem mostra uma grande quantidade de medicamentos de diversos formatos e tamanhos

Claro que no jogo é tudo mais simples, basta alinhar quatro peças da mesma cor para que os vírus desapareçam instantaneamente. Na realidade, a resposta do organismo é muito mais complexa e pode levar dias para controlar uma infecção. Em alguns casos, médicos também podem indicar os já citados antivirais que ajudam a reduzir a multiplicação do vírus, mas não atuam da forma simples e imediata como mostrado no jogo.

Gif 01: O processo de eliminação dos vírus no jogo. O gif mostra uma tela do jogo onde uma cápsula cai e elimina um vírus

Curiosamente, em 2013 a Nintendo promoveu uma campanha especial dedicada ao irmão mais novo de Mario para celebrar os 30 anos da primeira aparição do personagem, Luigi. O Ano do Luigi, como ficou conhecida a campanha, promoveu diversos jogos onde Luigi era protagonista, e entre eles tivemos Dr. Luigi. para Wii U. O jogo em si era basicamente um Dr. Mario. com Luigi ao invés de Mario e alguns modos de jogo a mais, porém o que nos chama a atenção é o subtítulo da versão japonesa, Bacteria Eradication (Erradicação de Bactérias, em tradução literal).

Imagem 05: Dr. Luigi. foi lançado apenas via download digital no Wii U. Na imagem vemos uma tela do jogo citado com Luigi vestido de médico e as cápsulas caindo para eliminar os vírus

E apesar de o título deixar claro que Luigi enfrenta vírus no jogo, por esse subtítulo podemos ver que bactérias poderiam ser as inimigas do personagem. E aí sim, faria muito mais sentido o uso de medicamentos para combatê-las.  Já que quando uma infecção é causada por bactérias, e o nosso organismo precisa de ajuda, o médico pode prescrever antibióticos. Esses medicamentos atuam destruindo as bactérias (rompendo sua capa externa, impedindo a criação de peças vitais que a bactéria precisa para viver ou alterando o material interno do microrganismo para paralisar sua reprodução). Mas vale lembrar, eles só devem ser utilizados quando indicados por um profissional de saúde, pois o uso inadequado pode favorecer o surgimento de bactérias resistentes aos medicamentos. Fica o aviso: CUIDADO com a automedicação.

Dr. Mario acabou virando uma série de sucesso e recebeu uma versão para quase todas as plataformas lançadas pela Nintendo.  O jogo consegue utilizar fantasia e diversão para representar um tema relacionado à saúde. Mesmo sem retratar o funcionamento biológico de maneira fiel, ele desperta a curiosidade sobre vírus, vitaminas e o papel do sistema imunológico, mostrando como um conceito científico pode ser transformado em uma experiência lúdica e educativa.

Gif 02: Exercícios fortalecem nosso sistema imunológico e Dr. Mario dá o exemplo caindo na porrada em Super Smash Brawl. No gif vemos o Dr. Mario lutando no jogo citado

E chegamos ao fim, espero que tenham gostado. Deixe aí nos comentários qual a sua versão preferida de Dr. Mario. e se queria um novo lançamento da franquia. Claro, também fico no aguardo de críticas e sugestões. Até a próxima.

Fontes: Wikipédia, Kotaku, Reddit, Brasil Escola e Rede D’Or