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Fogovivo de Game of Thrones e armas de guerra reais

por em 03/06/2022 em Ciência, Entretenimento, Notícias | Nenhum comentário

Fogovivo de Game of Thrones e armas de guerra reais

Que o autor das Crônicas de Gelo e Fogo, George R. R. Martin, se inspirou em diversos acontecimentos reais para escrever suas histórias não é novidade para ninguém. Se você já pesquisou algo sobre isso talvez já tenha inclusive esbarrado no tema do texto de hoje: o fogovivo.

Alerta de spoiler: no decorrer do texto há menções de certos acontecimentos importantes do livro A Fúria dos Reis e do episódio “Blackwater” (S02E09) da série Game of Thrones.

Fogovivo escorreu lentamente para a boca do frasco quando Tyrion o inclinou para espiar lá dentro. Sabia que a cor devia ser um verde lodoso, mas a luz fraca impossibilitava-lhe confirmar.

– É espesso – ele observou.

– É por causa do frio, senhor – foi a resposta de Hallyne, um homem pálido, com mãos moles e úmidas, e maneiras obsequiosas. Estava vestido com uma toga listrada de preto e escarlate, ornamentada com zibelina, mas a pele já estava um tanto remendada e roída pelas traças. – À medida que for aquecendo, a substância fluirá com mais facilidade, como o azeite para as lâmpadas.

(…)

– A água não o apaga, segundo me disseram.

– Assim é. Uma vez que se incendeie, a substância arderá violentamente até se extinguir. E vai, ainda, se infiltrar em roupa, madeira, couro, até mesmo aço, para que também se incendeiem. (…) À medida que envelhece, a substância fica ainda mais instável, digamos. Qualquer chama pode incendiá-la. Qualquer faísca. Calor em excesso, e os frascos se incendeiam espontaneamente. Não é sensato deixá-los ao sol, mesmo que por um curto período. Uma vez que o fogo se inicie no seu interior, o calor faz com que a substância se expanda violentamente, e em instantes os frascos voam em cacos. Se outros frascos estiverem armazenados nas vizinhanças, também explodirão…

A Fúria dos Reis – George R. R. Martin

 

Há quem diga que a inspiração para o fogovivo tenha sido o chamado “fogo grego” usado pelo Império Bizantino por volta do ano 670 da era comum. O próprio fogo grego é envolvido em diversos mistérios, uma vez que, mesmo naquela época, a composição e o método de fabricação da arma eram um segredo. Por isso os poucos registros escritos sobre tal arma apresentam muitas divergências.

O único ponto em que os historiadores concordam é que o criador, ou ao menos a pessoa que trouxe a arma para o Império Bizantino, tenha sido o alquimista Kallinikos, um refugiado sírio segundo alguns registros, mas por vezes chamado de grego. Por isso a arma era conhecida como fogo grego (apesar dos gregos não a usarem a, como imaginariamos pelo nome). Ainda, os registros mostram que as pessoas da época chamavam a a arma de fogo líquido ou fogo marinho.

Ilustração do uso do fogo grego/líquido em frotas inimigas, retirada do manuscrito Madrid Skylitzes, produzido em meados do século XII. [Domínio público, via Wikimedia Commons]

 

Essa arma é de grande importância histórica, uma vez que após o uso do fogo líquido, os registros indicam que o rumo de uma guerra que manteve a cidade de Constantinopla sitiada por dois anos mudou completamente… assim como na Batalha da Água Negra.

 

Fogo líquido

Mas qual seria a composição do fogo líquido? Apesar das divergências, as fontes escritas acabam se complementando em dar detalhes sobre a arma. Estudiosos sobre o tema parecem concordar que o fogo líquido era uma mistura que incluía:

  • óleo bruto (petróleo): agia como um combustível que flutua na água e queima, mesmo nessa condição
  • resina de pinheiro: agia como agente espessante
  • enxofre: adicionado à mistura devido a sua habilidade de entrar em ignição mesmo em água

Ainda, há alguns pesquisadores que incluem cal viva, uma vez que pega fogo em água, e nitrato de potássio, que é também componente da pólvora (acredita-se que inventada somente séculos depois, na China). O nitrato de potássio é encontrado facilmente na natureza, o que facilitaria seu uso na antiguidade (e em Westeros!) e há registros que a queima do fogo líquido liberava um barulho como um trovão, além de fumaça, características da pólvora, indicando que esse composto fosse usado mesmo.

Talvez você esteja se perguntando por que o nitrato de potássio é usado nesse tipo de arma explosiva, então primeiramente vamos entender um pouco sobre a teoria do fogo.

 

Teoria do fogo

De forma simplificada, o fogo é o resultado de uma reação química (de combustão) que libera luz e calor. Para que haja uma combustão são necessários três elementos (que constituem o triângulo do fogo):

  • combustível: elemento que entra em combustão fornecendo “alimento” para a queima
  • comburente: elemento que se associa com os vapores inflamáveis do combustível, dando vida às chamas e possibilitando a expansão do fogo
  • calor: elemento que inicia o fogo dando a energia para que as chamas comecem e se propaguem

Atualmente o triângulo foi atualizado para o tetraedro do fogo, acrescentando a própria reação em cadeia, uma vez que o calor gerado pela combustão do combustível provoca o desprendimento de mais vapor inflamável, que irá alimentar mais a queima, desenvolvendo uma reação em cadeia.

(a) Triângulo do fogo; (b) Tetraedro do fogo.

 

E o nitrato de potássio entra na mistura dessas armas como um oxidante devido a este sal possuir três átomos de oxigênio que podem ser doados facilmente.

Oxigênio é um comburente que está presente no ar atmosférico, mas se pensarmos na massa do combustível, a reação de combustão iria ocorrer na superfície, o que não é suficiente para uma explosão satisfatória. A presença de um oxidante na mistura dá acesso ao oxigênio por toda a extensão do combustível, fazendo com que seja possível que todo o volume entre em combustão de uma só vez quando aquecido, e não somente sua superfície. Dessa forma, a reação em cadeia ocorre por todo o combustível, ocasionando a expansão de todo o material em chamas, o que observamos como uma explosão.

Além disso, a queima de líquidos inflamáveis, como o petróleo presente na composição do fogo líquido, também explode quando entra em contato com água. Isso ocorre devido às temperaturas muito altas (muito acima da temperatura de ebulição da água) que tais líquidos em combustão apresentam, o que faz com que a água entre em ebulição quase que imediatamente. Essa transformação da água líquida em vapor faz com que haja uma expansão, fazendo o fogo explodir e, nesse caso, jogando óleo escaldante em todas as direções.

 

Napalm

Uma arma mais recente que envolve esse mesmo tipo de combustível é o napalm, que foi muito utilizado das mais terríveis formas em guerras, desde a Segunda Guerra Mundial.

O napalm é um explosivo em forma de gel, sendo basicamente um combustível misturado com um agente espessante, resultando em um material grudento e que queima lentamente. Dependendo da formulação, a temperatura do napalm em combustão pode chegar a 1200°C e pode queimar até mesmo submerso na água.

Foto do dia 8 de julho de 1972 em região do Vietnã bombardeada por Napalm. A imagem mostra a fuga de soldados e crianças, sendo que uma das meninas está nua após retirar a roupa atingida pelo Napalm. Porém isso não foi suficiente para evitar queimaduras de alto grau por todo seu corpo.

 

O nome dessa arma vem da mistura feita com ácido NAftênico e ácido PALMítico, que foram os dois primeiros compostos combinados para formar o explosivo. Esses compostos são provenientes, respectivamente, do petróleo e do óleo de coco, ou seja, são materiais que poderiam ser acessíveis até mesmo aos piromantes de Westeros.

Porém, esse primeiro tipo de napalm queimava por cerca de apenas 30 segundos, sendo que na década de 1960, a indústria química Dow “melhorou” o napalm, modificando sua composição: poliestireno, que age como um retardante de chama, sendo utilizado como agente espessante, e benzeno, solvente que queima mais lentamente que a gasolina, por exemplo, usado como combustível. Essa nova mistura aumentou o tempo de queima do atualizado Napalm B, fazendo com que a arma cause ainda mais danos.

Para entender melhor o motivo desse tipo de composição, vamos lembrar que anteriormente, quando estávamos entendendo a teoria do fogo, vimos que o comburente precisa se associar com os vapores inflamáveis do combustível para que as chamas comecem e o fogo seja propagado. Dessa forma é necessário que o combustível esteja na forma gasosa para que a combustão ocorra.

Grande parte dos derivados de petróleo são combustíveis porque têm alta volatilidade (ou seja, há liberação de seus vapores inflamáveis) mesmo em temperatura ambiente. E isso explica o uso do espessante na composição do fogo líquido e do Napalm, pois se o combustível está em forma de gel, os vapores não estão tão prontamente disponíveis para a combustão, fazendo com que a arma incendiária seja mais estável.

 

Sistema de lançamento

Dessa forma, a composição de tais armas visam queimas e explosões intensas, mas de forma que elas se mantenham estáveis e fáceis de manipular… Afinal, não é muito viável ter uma arma com altas chances de explodir antes que seja lançada no seu inimigo; um detalhe que não ocorria com o fogovivo, não é mesmo?

Parece provável que o George R. R. Martin tenha aumentado a dificuldade dos piromantes na manipulação do fogovivo para que aumentasse a tensão em sabermos que Porto Real vive sobre uma verdadeira bomba, mas a verdade é que tanto o napalm quanto o que é indicado nos registros do fogo líquido nos mostra que esse tipo de explosivo tem uma ignição dificultada. Logo, somente uma flecha incendiária não faria com que a vitória da Batalha da Água Negra acontecesse, caso uma das armas de guerra reais tivessem sido utilizadas.

No caso do uso do fogo líquido, foi criado um equipamento chamado siphon que aquecia e pressurizava o combustível antes deste ser soprado de tubos diretamente nos navios inimigos. Os conteúdos eram pressurizados usando um fole e calor que também ajudava a resina a se dissolver no petróleo. Assim que a mistura estivesse pressurizada, uma válvula era aberta e a pressão forçava o combustível para fora do tubo, que tinha uma pequena chama na ponta, provocando a ignição do combustível que passasse por ali.

Uso de um siphon, neste caso instalado no alto de uma torre. Imagem retirada do manuscrito Codex Vaticanus Graecus de 1605. [Domínio público, via Wikimedia Commons]

 

Se você está imaginando um tipo de lança-chamas é bem por aí mesmo! E, considerando que tudo isso era montado direto nos navios de guerra, fica bem claro que o composto em si precisaria ser bastante estável para que não ocorressem acidentes, como a ignição antes do lançamento do explosivo nos inimigos.

 

Fogovivo

A partir disso tudo podemos inferir que a composição do fogovivo seja semelhante à do fogo líquido, porém talvez os compostos presentes em Westeros apresentem propriedades físico-químicas diferentes daqueles do nosso mundo, provocando essa maior instabilidade. Ou isso tem a ver com a magia que os piromantes alegam estar envolvida na produção da arma… talvez eles tenham facilitado a ignição por meio da magia, mas isso fez com que o fogovivo ficasse instável…

Outro ponto que pode ter a ver com magia é a cor do fogovivo: não somente seu fogo é verde, como o próprio líquido. Se considerarmos algo do tipo em que os piromantes conseguiriam sem magia, poderiam ser acrescentados certos compostos na arma que tornaria até mesmo o fogo verde, talvez apenas pelo show… mas a cor do fogovivo já é tema para outro texto!

 

Referências:

THOMPSON, R. C. Fire, Ice and Physics: The Science of Game of Thrones. The MIT Press. 2019.

MAYOR, A. Greek Fire, Poison Arrows and Scorpions Bombs: Biological and Chemical Warfare in the Ancient World. Overlook-DuckWorth. 2009.

Wildfire – Game of Thrones Wiki

Wildfire – A Wiki of Ice and Fire

Wild Fire or Greek Fire? Game of Thrones and medieval sieges

The Real History of Game of Thrones: Wildfire

O tetraedro do fogo

A teoria do fogo

Manual de combate à incêndio

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