Finalmente chegamos ao final de 2023, esse ano que foi, de sua forma, uma volta à normalidade. As luzes de Natal já estão acesas, os pensamentos do que se passou estão presentes, as músicas e sinos natalinos já estão tocando, a necessidade de férias já bate na porta e junto com ela a vontade de renovação. Enquanto isso, eu aqui escrevo essas palavras tentando refletir um pouco do que foi em 2023.

No texto de hoje reflito um pouco sobre a volta à normalidade em um mundo pós-pandêmico, dando um pouco de perspectiva histórica sobre a COVID-19, o chamado timeskip pandêmico, passando pelo filme Som do Metal e sobre tudo que foi em 2023.

O timeskip pandêmico 

(imagem 1 desenho de uma mulher com máscara na mão e vestido ao vento, com vírus da COVID-19 indo embora, fonte link)

O ano de 2023 marcou, aqui no Brasil, o final da pandemia de COVID-19, mesmo que essa doença ainda esteja à espreita (por favor, se vacine) e além disso uma volta à “normalidade” política. Talvez essa não seja tão normal quanto esperávamos, mas, ao comparar com os últimos anos, é um avanço, talvez não na velocidade necessária.

Pensar no que foi a pandemia nos dá uma noção de tempo distorcida. Nem parece que já faz mais ou menos 4 anos que foi decretado lockdown em terras brasileiras, e lembrar de todo o caos que esse país virou a partir disso. 

Em pesquisa recente, Nina Rouhani descobriu que a COVID-19 afetou significativamente a nossa capacidade de recordar eventos com precisão, principalmente eventos que aconteceram durante esse período. Por exemplo, em que ano todo mundo ficou viciado na série coreana Round 6 ou em que ano especificamente você se reunia virtualmente com seus amigos para jogar Among Us? Saudades dessa época inclusive.

De acordo com a pesquisa de Rouhani (link)

A percepção do tempo é um fenômeno psicológico, ou seja, fatores externos podem modificar a forma como vivenciamos. Com a pandemia sendo uma fonte de depressão e ansiedade generalizadas, bem como de demandas físicas e mentais estressantes, a distância entre as memórias foi diminuída, como se comprimisse um furtivo. Depois, havia a monotonia, onde a falta de mudança de contexto confundia tudo em uma bola comprimida de mesmice.

Esses estudos corroboram com a pesquisa brasileira publicada em 2022 por André Mascioli Cravo e colaboradores (link). A pandemia trouxe diversas modificações em nosso cotidiano, fazendo com que no início do isolamento social o tempo fosse ampliado. Porém, com o decorrer das semanas essa sensação diminuiu.

De acordo com Cravo et al., durante a pandemia

A consciência do tempo foi fortemente associada a fatores psicológicos como solidão, estresse e emoções positivas, mas não à produção de tempo (…) nossas descobertas mostram como as emoções são um aspecto crucial de como o tempo é sentido.

A experiência temporal está associada a diversos fatores, sejam psicológicos (tédio, ansiedade, impulsividade) ou sociais (renda, cor, localidade onde mora). Por exemplo, enquanto os primeiros dias de isolamento social, para alguns, foram marcados por tédio, rever seriados velhos e home office, para outros foi uma sensação constante de medo ao sair de casa, porém uma necessidade, pois só assim poderiam sustentar a si e aqueles que deles dependem.

Existem registros que corroboram que essa sensação distorcida de tempo veio pra ficar, porém isso só vai ser respondido com total certeza com o tempo, pois para estudar o tempo precisa de tempo.

O nome do fenômeno “The Pandemic Skip” ou Salto Pandêmico veio do site The Cut e serve para definir a estranha sensação na qual nossos corpos estão dessincronizados com a nossa mente.

Foram mais ou menos 3 anos entre incertezas e medos de uma nova doença que parou o mundo. Já pensou que nesse período tiveram adolescentes que fizeram grande parte do ensino médio pouco pisando na sala de aula, ou que pessoas que estavam ali por 26/27 anos chegaram aos 30, ou que passamos longe de nossos netos, sobrinhos ou afilhados que começaram a pandemia como crianças e hoje estão na pré-adolescência. 

(imagem 2 desenho do vírus do COVID-19 com post it de fique em casa e outras referências a pandemia, fonte link)

Uma constante sensação de que perdemos algo, um piscar de olhos e o tempo passou e está passando, enquanto isso as crianças ao nosso redor estão cada vez maiores e a gente esquece, quando perguntado, exatamente que idade nós temos.  

Som do Metal e pandemia

Durante a pandemia nos refugiamos nas produções cinematográficas, seja como forma de fugir da realidade ou até mesmo de buscar explicações científicas ou filosóficas para o que estávamos vivendo. 

Seja por exemplo o Gambito da Rainha, minissérie que bombou em 2020 aumentando a compra de xadrez, a série Ted Lasso (2020/2023), que mesmo abordando temas de saúde mental procura uma forma mais leve de lidar com eles, mostrando um mundo ideal onde homens buscam terapia para enfrentar seus problemas. The Office voltou a bombar, sendo uma comédia conforto sobre o ambiente de trabalho. 

(imagem 3 série the office com os personagens Michael e Dwight ao telefone)

O filme Contágio (2011) ganha destaque por mostrar uma visão científica acessível sobre o momento atual. Filmes de terror que têm como subtexto o medo da pandemia, Nomadland (2020) ganha o Oscar mostrando uma visão introspectiva do capitalismo tardio, até mesmo Senhor dos Anéis voltou a ser visto durante a pandemia, e em seu subtexto mostrar como pessoas simples podem fazer toda a diferença em momentos sombrios, um dia falo sobre essa trilogia. 

Entre os subtextos de filmes que abordam o momento atual, o que pretendo aprofundar aqui é o Som do Metal (2020, disponível no Prime Vídeo), pequenos spoilers à frente, mas que não vão influenciar todos os sentimentos que esse filme traz.

Som do Metal (título original Sound of Metal) foi um filme lançado em 2020, dirigido por Darius Marder, que concorreu ao Oscar daquele ano em indicações como roteiro, melhor filme e melhor ator.

O longa conta a história de um baterista que aos poucos vai perdendo a sua audição. O decorrer da história mostra a sua negação perante a nova situação. Esse filme é pra mim a melhor representação da pandemia de COVID-19.

O início da pandemia foi marcado para algumas pessoas por uma negação. A frase “o lockdown é só por no máximo 15 dias” foi algo bastante ouvido e falado, mesmo que os especialistas de saúde pública nunca tenham afirmado algo nesse sentido. Porém esses 15 dias foram algo palpável, no sentido de “ficar duas semanas em casa e logo volto para a rotina normal”.

Já sabemos que as coisas não foram assim, o tempo passou com incertezas, irresponsabilidade e problemas estruturais, que antes eram ignorados e nesse período vieram a tona. Como assim as pessoas não têm moradia para se isolar da COVID-19? Como assim as pessoas não têm acesso a água para higienização das mãos? Como assim a saúde pública é algo coletivo? Como assim a vacinação sempre foi tão eficiente no Brasil? Como assim o nosso país, onde nada presta, tem o SUS sendo modelo mundial? Como assim temos alguém na presidência do Br abertamente irresponsável/ negacionista? 

(imagem 4 monumento em homenagem aos mortos da pandemia no Br, cruzes pregadas na praia com balões vermelhos, fonte link)

Essas foram apenas algumas das questões que se arrastaram durante todo esse tempo, e que de certa forma tiveram papel crucial nas eleições em 2022, papel esse que não foi tão positivo quanto poderia ser, pois apesar de Bolsonaro não ter conseguido se reeleger, muitos dos responsáveis pelo caos da pandemia conseguiram.

Voltando para o filme Som do Metal, Rubem Stone (interpretado por Riz Ahmed) o baterista que acompanhamos durante o longa, ao notar os sinais que sua audição vem desaparecendo, passa por um momento de negação, sua profissão depende totalmente disso. Rubem ainda tenta continuar tocando mesmo não ouvindo, porém, por estar constantemente em contato com sons bastante altos, é recomendado que pare.

Sabendo que sua audição está completamente perdida, a única alternativa que encontra é buscar por uma cirurgia de recuperação da audição, operação essa que o conselheiro surdo lhe recomenda não fazer. A negação do personagem persiste até o ponto em que ele consegue o dinheiro necessário para a realização.

Voltando para a pandemia, com o passar dos dias ficou impossível prever o tempo que seria necessário para a população mundial se manter em isolamento social, mesmo com a chegada da vacina, isto só escancarou ainda mais as desigualdades e problemas estruturais que o mundo enfrenta. 

Enquanto países desenvolvidos iam para a terceira dose, alguns países não conseguiram acesso à vacina para a população prioritária.  O início da vacinação também revelou de forma mais acentuada o negacionismo que as terras brasileiras enfrentam ainda atualmente, tal fato fez com que mesmo tendo toda a estrutura de um sistema nacional de vacinação, não tenhamos conseguido, por falta de interesse político, alcançar todo o público necessário.

Voltando para o Som do Metal, Rubem consegue fazer a cirurgia que, com ajuda de um aparelho, faz com que a sua audição volte, não 100%, mas apenas uma quantidade que o garante ouvir em uma baixa qualidade os sons externos do mundo. Não sei se você já pensou nisso, mas o nosso mundo é barulhento. 

(imagem 5 cena final do filme Som do Metal (2020) com o personagem aceitando a sua surdez, fonte link)

Ao perceber isso o nosso personagem opta por desligar o aparelho. O seu mundo individual cruzou uma linha na qual talvez não importa o quanto tente ele não vai conseguir voltar, Rubem finalmente consegue o silêncio.

Voltando para a pandemia, durante todo esse período ultrapassamos uma linha que talvez não tenha mais volta. A COVID-19 colocou uma lupa nos problemas estruturais e, não importa a normalidade que o mundo supostamente está agora, talvez ele nunca tenha sido normal e o aceitável não deveria ser tão aceitável assim. Isso tudo sobre a sombra de um já iminente colapso climático.

Mesmo com tudo que aconteceu a nível global, o mundo não está preparado para enfrentar uma nova pandemia. A discussão sobre uma saúde global enfraqueceu e o negacionismo continua vivo. Esse debate vai além, envolve regulamentação das redes sociais, planos estruturais para uma saúde pública bem estabelecida, punição dos responsáveis pelas gestões desastrosas na pandemia sem anistia para os negacionistas, dentre várias outras coisas.

Todos esses problemas que vão ter que ser enfrentados para que o mundo sobreviva da melhor forma possível a um iminente colapso climático devem ser feitos a nível coletivo, e não individual. 

Por isso existe uma certa impotência no que está a nossa frente, eu sei que eu, você e todos a nossa volta querem salvar o mundo, mas estamos nos corres do dia a dia e às vezes lidando com questões internas e no final do ano tudo isso fica potencializado. Existe até um termo chamado Dezembrite (ou síndrome de final de ano) usado para se referir a toda a angústia que marca algumas pessoas nesse período. 

Textos de finais do ano eu tento terminar de uma forma mais otimista então vamos aqui comigo.

 

Uma estranheza com o mundo

Quando após a pandemia o mundo “voltou ao normal” esteve presente comigo um sentimento estranho, algo estava faltando. É sempre bom lembrar que no Brasil a pandemia foi marcada por uma negligência que fez com que muitas das mortes ocorridas poderiam ter sido evitadas. Existe um luto coletivo que até então vem sendo negligenciado.

Talvez esse sentimento seja o que mais resume o meu 2023, uma estranheza. Mesmo que no panorama político, pelo menos por enquanto, as coisas estejam voltando aos eixos, existe um risco de essa estabilidade ser bem frágil. 

Em 2023 o mundo continua em guerra, há genocídio em massa de pessoas, os efeitos do aquecimento global estão mais presentes no dia a dia, políticos extremistas voltam a posições de poder, seja Milei na Argentina ou a possível eleição de Trump nas eleições de 2024 nos EUA. Aqui no Brasil um golpe de Estado foi posto em ação e mais do que nunca as instituições democráticas mostram a sua importância perante os responsáveis por esses ataques.  

Em 2023 a Inteligência Artificial (IA) avançou de modo que a sociedade não consegue acompanhar, impossível a uma primeira olhada distinguir real ou não, para tudo hoje em dia as IA conseguem colocar som e imagem, isso sem nenhum tipo de regulamentação. Ficou escancarado que o estilo de vida dos milionários é um problema a nível global. O negacionismo em diversas áreas continua presente, às vezes promovido por “influencers” que vem ganhando bastante dinheiro com isso.

(imagem 6 greve dos atores em hollywood com o símbolo do sindicato nas ruas, fonte link)

Em 2023 as jornadas de trabalho continuam exaustivas, trabalhadores se organizam em greves para conseguir seus direitos, inclusive em uma luta difícil contra a IA. Problemas de saúde mental e burnout continuaram a fazer parte do nosso dia a dia, sem que exista uma resposta por meio de política pública para isso. Não é normal vivermos em um mundo onde de um lado pessoas estão frustradas por não conseguir emprego ou se estabelecer em um e do outro há pessoas exaustas de tanto trabalhar.   

Em meio a tudo isso e toda impotência que ser só um indivíduo nesse mundão me causa, decidi como individualmente vou ajudar a enfrentar os problemas que o mundo virá a ter. Antes que pense em coisas como reciclagem e evitar o desperdício de água, já lhe adianto que não é nada disso, spoiler – a melhor forma que a gente tem de ajudar o mundo é estando vivo e na medida do possível saudável.

(imagem 7 filme Marte Um (2022) criança na bicicleta em frente uma ladeira)

Apesar de um clima de “normalidade”, os próximos anos para o planeta não serão fáceis. Por isso, ao contrário de tudo, eu quero me manter vivo até onde posso, pois o mundo precisa de pessoas boas. Não tô falando que sou um super herói, mas que acredito na ciência, tento me manter são em meio à loucura que vem sendo esses tempos e isso é de extrema importância para o futuro.

Talvez esteja muito otimista, mas acho que é algo diferente, parto de saber que estamos em um ponto que não tem mais volta, seja do aquecimento global, das novas tecnologias, das ameaças à democracia e possíveis novas pandemias, mesmo com isso entendo que só estar vivo já ajuda.

O tempo nos limita física e mentalmente, durante a pandemia, como já falado no texto, esse mesmo tempo ficou confuso. Parece que perdemos algo e essa sensação de perda vai para a nossa volta. Por isso estar vivo é importante, pois muitos vão vir depois de nós e a gente deixa um pouquinho de nós para os próximos. 

Ufa! Beba água, defenda o SUS, vacine-se, se possível faça terapia e é mais ou menos isso que tenho pra falar em 2023, vamos ver no que vai dar 2024.     

 

REFERÊNCIAS:

Imagem de capa filme “Som do Metal” (2020)

O timeskip pandêmico 

Artigo da Nina Rouhani sobre a percepção de tempo na pandemia (link); artigo Br sobre tempo e pandemia, CRACO et. al. (link); artigo do site The Cut sobre The Pandemic Skip (link)

Som do Metal e pandemia.

Filme Sound of Metal (2020) dirigido por Darius Marder, disponível no Prime Video. trailer no link