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Cultura e história alimentar: Um do que seu prato esqueceu de contar…

por em 03/12/2019 em Ciência, Notícias | Nenhum comentário

Cultura e história alimentar: Um do que seu prato esqueceu de contar…

Já pensou como seria se cada prato ou refeição pudesse contar a história de como ele surgiu ou de como ele foi transformado ao longo do tempo? Bem, com certeza seria uma discussão de família um pouco mais frutífera em algumas ocasiões, como o famoso almoço de domingo ou a ceia de Natal. Mas de fato a comida como um todo tem tanta história para nos contar quanto podemos achar à primeira vista. O lanchinho de meio dia depois de uma corrida pela cidade diz mais sobre os comportamentos urbanos modernos do que muitas análises econômicas. A sua tia que cozinha no fogão a lenha no interior tem mais história para contar do que o ambiente calmo da fazenda pode fazer parecer. Quando começaram a relacionar história, cultura e alimentação, muitas pessoas podem ter pensado que seria um tema que ficaria apenas de curiosidade para a posterioridade, uma espécie de museu sobre como nossos antepassados se relacionavam com o ambiente e oferta de alimentos, porém os estudos antropológicos mais modernos relacionando estes temas indicam um universo mítico e cheio de simbolismos que foi pouco explorado ao longo do desenvolvimento das ciências.

Muitos autores modernos preferem trabalhar a alimentação em categorias para melhores estudos. Angelina Nascimento diz que as refeições podem ter aspectos simbólicos, políticos, artísticos, sexuais e sociológicos que variam de intensidade dependendo de quem está preparando e da relação entre as pessoas envolvidas na comilança [2]. É muito difícil comparar uma comida de mãe ou um restaurante com amigos com aquele seu miojo comido às pressas depois do trabalho, não é? Mas isso explica bastante sobre o porquê a mesma refeição pode gerar efeitos psicológicos bem diferentes dependendo de pessoa pra pessoa. Basta entendermos que a refeição é o fixador psicológico do plano emocional. Toda emoção que se deseja ser exteriorizada, como o amor dos pais, a paixão de namorados, a vivência aprazível de amigos em um bar, pode e irá ser manifestada na forma de comida. Existe maneira melhor de se demonstrar que gosta de uma pessoa do que lhe dar não somente nutrientes, mas sentimentos sintetizados em uma lasanha rica, uma caixa de bombons em forma de coração ou torresmo e cerveja de quiosque?

Já autores não tão novos assim, como o famosíssimo Cláude Lévi-Strauss, demonstram outra importância do estudo da alimentação no meio cultural. Para ele, a cultura (o ato de manifestar sua existência perante o meio) só pode ser concretizada à medida que o homem utiliza de recursos naturais para manifestar tudo o que pode fazer. O homem, apesar de ser um produto de seu meio, é afetado por ele de diferentes formas. Esta relação entre o homem e o meio onde vive é a base para a construção de suas vivências e de sua imposição perante o mundo natural [1]. Logo, o ato de se alimentar carrega consigo significados que muitas vezes não passam por nossa cabeça. Já imaginou a trabalheira com que humanos selecionaram os melhores grãos, transferiram DNA com base em estudos genotípicos, exportaram sementes, plantaram em diferentes sistemas de cultivo, colheram com equipamentos adaptados, venderam, transportaram para a indústria, passaram por processos unitários dos mais engenhosamente estudados, embalaram para em seguida chegar ao mercado e a sua mesa? Não, não foi um processo em paralelo a história da humanidade. A história dos alimentos é em verdade a história da humanidade!

Um pouco dessa história

Acredita-se que os primeiros seres humanos eram onívoros oportunistas, se alimentando primariamente de vegetais e frutos silvestres, castanhas, pescados e gramíneas (sabe, não era tão fácil assim conseguir carne todos os dias…). Porém com a descoberta do fogo e de suas possibilidades, instrumentos cada vez mais complexos puderam ser manipulados, gerando uma onda de objetos de conservação, processamento e de caça. O ciclo do fogo foi importante para a consolidação de terras agrícolas, em que a presença de grãos praticamente o ano inteiro levou a uma onda de sedentarismo por toda sociedade nômade que tinha experimentado esta nova forma de viver. Cidades construídas posteriormente a 6000 a.c estão repletas de indícios que remetem a cerveja e seus grãos como moeda de troca para serviços. Registros arqueológicos salientam a presença de resquícios de cerveja em vasos presentes nas tumbas dos faraós, enfatizando a presença da bebida como dinheiro tão importante quanto nossas moedas de hoje [4].

O tour cervejeiro da Cervejaria Bohemia em Petrópolis (RJ) enfatiza a importância da cerveja em especial para a consolidação das primeiras sociedades (sumérios e babilônios). Existem passagens da produção no código de Hamurabi (1770 a.c) que consta a pena de morte ao cervejeiro que fraudava seu produto [4].

Com o aparecimento das primeiras sociedades (tá bom, nem tão parecidas com as nossas…), e de novas relações com a alimentação surge também a ritualização, a utilização de alimentos com fins religiosos e simbólicos. Como Tom Standage escreve em seu livro “História do mundo em 6 copos”, bebidas como a cerveja e o vinho possuíam em comum era a necessidade de transformar o ser humano em seu estado mais mundano para o espiritualizado, buscando a comunhão com a divindade que se queria entrar em contato [6]. A utilização de opiáceos como o tabaco também possui a mesma raiz, se vista pelo lado indígena de povos ameríndios. Para a cultura ocidental, não é tão difícil encontrar passagens relacionando milagres a gêneros alimentícios, como pães, vinhos, peixes… O pão ázimo é um dos vários símbolos do Pessach para o povo judeu, em que a celebração relembra a saída da terra do Egito em ocasião do êxodo (3.300 a.c) [5]. Mesmo para a religiosidade desenvolvida na Grécia em sua era de ouro, a alimentação refletia muito o contato com a religiosidade imanente, como o vinho em festas de homenagem ao deus Dionísio, religiosidade que representa o caótico, a alegria e as festas mais… Dionisíacas por assim dizer.

Para o período medieval conhecido como a Alta Idade Média, diversas novas ferramentas de produtividade agrícolas, como o sistema trienal de rotação de culturas e a adoção de novas técnicas como o arado, levaram a um aumento repentino na quantidade e qualidade de alimentos, melhorando a qualidade de vida o suficiente para novos empreendimentos humanos, do qual somos gratos até hoje, pois foram os movimentos fundadores da nossa sociedade moderna, como bem salientou Angelina [2]. Reconhecer o efeito renovador de sistemas de plantio e de melhoria da qualidade de vida através da alimentação passa por esferas que muitas vezes não pensamos em uma análise menos crítica, mas o que temos em nossa mesa representa processos históricos que ainda estão em plena vivacidade e discussão nos dias de hoje. Não são somente as ideias que são a prova de balas, pelo visto. A cultura não se manifesta em sua totalidade quando não pensamos no elemento gastronômico que é único de cada povo, de cada pessoa.

Estabelecimentos gastronômicos na contemporaneidade aparecem não somente como opção de boa alimentação, mas como espaços de integração social e de comunhão entre os iguais. Na foto, reportagem da Veja SP sobre as 6 churrascarias consideradas as melhores da cidade de São Paulo em 2018 [7].

Já que começamos a falar em modernidade, não podemos deixar passar neste texto de revisão as tendências que se desenvolveram dos anos 50 para cá, alinhadas a utilização de maquinarias mais diferenciadas e hábitos de vida considerados urbanos. Diversas tendências modernas estão sendo responsáveis por alterar paradigmas pessoais e remodelando cidades inteiras de certa forma. Algumas destas tendências não saem da boca do povo (com o perdão do trocadilho), como a industrialização alimentícia, lightização, fast food, slow food… Reflexos na saúde de modo geral são associados com a péssima qualidade alimentar de algumas pessoas [3]. Todos estes aspectos são novos em nossa vida. Novas formas de cultura gastro-anômica (relação entre alimentação e bem-estar corporal) estão sendo desenvolvidas de forma muitas vezes irresponsáveis, devemos buscar novos conhecimentos acerca da alimentação e a ênfase psicológica que o mesmo pode dar na pessoa.

Este texto foi só um pequeno resumo sobre como nossa vida também pode ser entendida como nossos processos alimentares. Afinal, não somos aquilo que comemos? Pretendo dar prosseguimento a textos cada vez mais aprofundados no tema, buscando sempre oferecer o melhor do que existe na linha de pesquisa, abordando os aspectos das refeições e o poder de transformação das tendências na nossa vida. Juntos vamos aprender as ferramentas necessárias para ouvir a rica história que cada prato pode nos contar sobre nós mesmos! Quer comentar algo para discutirmos melhor alguma refeição, hábito ou curiosidade? Deixe seu comentário que irei estar compilando as ideias para próximos tópicos de discussão!

 

Referências:

[1] LÉVI-STRAUSS, C. O cru e o cozido. Mitológicas 1. São Paulo, CosacNaify, 2004. 442 páginas;

[2] NASCIMENTO, A. B. Comida: prazeres, gozos e transgressões [online]. 2nd. ed. rev. and enl. Salvador: EDUFBA, 2007. 290 p. ISBN 978-85-232-0435-8. Available from SciELO Books

[3] SANTOS, LAS. O corpo, o comer e a comida: um estudo sobre as práticas corporais e alimentares no mundo contemporâneo [online]. Salvador: EDUFBA, 2008. 330 p. ISBN 978-85-232-0503-4.

[4] SILVA, Hiury Araújo; LEITE, Maria Alvim; PAULA, Arlete Rodrigues Vieira de. Cerveja e Sociedade: Beer and societyRevista de Comportamento, Cultura e Sociedade, São Paulo, v. 4, n. 2, p.85-91, mar. 2016. Centro Universitário Senac. Acesso em: 26 nov. 2019;

[5] SILVEIRA, Priscilla Rúdis Mota da. A manifestação da festa de Pessach em seu espaço e tempo de tradição, identidade e simbolismoEspaço e Cultura, Rio de Janeiro, v. 1, n. 21, p.68-77, jan. 2007. UERJ – Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Acesso em: 26 nov. 2019.

[6] TOM STANDAGE, 2010. História do mundo em 6 copos. Editora Zahar;

[7] VEJA-SP, 2018. Seis churrascarias que estão entre as melhores da cidade. Acesso em: 26 nov. 2019.


Lênin Machado. Amante de cultura pop americana e japonesa, futuro cientista de alimentos que busca o equilíbrio na força entre a alimentação, a ciência e a tecnologia de alimentos e o desenvolvimento sustentável! Entusiasta científico, tenta manter a paixão pela parte boa do mundo sempre que possível.

 

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