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Colagens na música parte 2 – O velho e o novo

por em 20/12/2021 em Ciência, Notícias | Nenhum comentário

Colagens na música parte 2 – O velho e o novo

No primeiro texto sobre colagens na música, usei o exemplo da dupla Daft Punk para mostrar como é importante fazer arte com autenticidade, sem medo de inovação, podendo incorporar elementos novos, muitas vezes tecnológicos, nas criações artísticas de cada um.

Ainda falando de inovação, trago nessa parte 2 o que chamo de jogo entre o velho e o novo nas artes. Começo a refletir com duas falas de dois pensadores. Primeiro, o Marcel Duchamp, que afirma que na arte estabelece-se “um jogo entre todos os homens de todas as épocas”, e depois o Dominique Gonzalez-Foerster, que vai afirmar que o artista “organiza sua própria história em resposta a história que acaba de ver”.

Se inspirar nos artistas que vieram antes e, dessa forma, respeitá-los e contruir sua história como artista em resposta ao que se acaba de ver é também uma forma de “repensar as artes”, como diz o crítico de arte francês Nicolas Bourriaud.

Ariana Grande, com a canção 7 rings, presente no ábum Thank U, next, de 2019, se inspirou na canção My favorite things, de Julie Andrews, composta por Richard Rodgers e Oscar Hammerstein II. É um clássico do filme A noviça rebelde (The sound of music) de 1965. O mashup, composição criada a partir da mistura de duas ou mais canções pré-existentes, normalmente pela transposição do vocal de uma canção em cima do instrumental de outra, é visto na canção 7 rings, já que Ariana usa a mesma melodia, mas coloca outra letra, e repete apenas a última frase “My favorite things”. Aqui, ela conta uma história sobre amizade. Depois do fim do noivado e morte do ex-namorado, ela decidiu fazer uma homenagem às suas amigas, contando de quando saiu para comprar sete aneis para sete amigas.

Apesar da diferença de idade (Ariana é de 1993 e Julie é de 1935; no momento presente respectivamente vinte e oito e oitenta e seis anos de idade), e de nacionalidade (Ariana é americana e Julie é britânica), algumas semelhanças entre as duas cantoras são notáveis, como por exemplo as premiações acumuladas de cada uma. Ariana teve doze indicações ao Grammy, das quais levou dois. Já Andrews, mais experiente, acumula mais prêmios: cinco Globos de ouro, três Grammys, dois Emmys e um Oscar de melhor atriz. Eu diria que uma diva reconhece a outra.

Interessante notar que a canção 7 rings, apesar de ter de certa forma “copiado” a melodia da canção My favorite things, não foi considerada em nenhum momento como plágio da mesma. Em primeiro lugar, porque a canção de Julie Andrews, de 1965, é um clássico, e em segundo, porque ao criar um mashup, com outra letra e outro sentido, Ariana propôs uma recriação e não uma cópia. Ironicamente, Ariana foi acusada de plágio por essa canção, mas por outro artista: o rapper DOT, que compôs You need it, I got it, canção que tem melodia e letra muito semelhantes à segunda parte da canção de Ariana, uma parte com pegada de rap, mais agitada.

O que é cópia e o que é inspiração no mundo das artes? Talvez possamos pensar no conceito de recriação, de repensar, ressignificar e reescrever as artes, na reciclagem de sons, como colagem, e não cópia pura e simplesmente.

Ainda nessa reciclagem de sons, temos também um exemplo de mashup brasileiro, lançado em 30/04/2021. Anitta, com o seu hit Girl from Rio, se inspirou em Girl from Ipanema (Garota de Ipanema), de 1962. É a mesma melodia, porém outra letra. Realmente, o artista tem que “encontrar um modo de inserção nos inúmeros fluxos de produção”, é o que Bourriaud diria.

E é isso que Anitta faz aqui, ao contar a história do verdadeiro Rio, o Rio de hoje em dia, com suas favelas, pobreza e violência, em contraste com o Rio da década de 60, glamourizado e romantizado.

O artista percebe o mundo e o traduz. Assim, questionar a perspectiva como modelo significa, antes, questionar o próprio modo de perceber e representar o mundo. É o que coloca Iwasso, designer gráfico paulista.

Ao representar o mundo, nesse jogo de passado e presente, os artistas da pós produção produzem percursos originais entre os signos, ou seja, são semionautas. Ser um semionauta: esse é o conceito apresentado por Bourriaud.

Uma grande diva semionauta, podemos chamá-la assim, foi a Aretha Franklin, que aos setenta e dois anos, lançou seu último álbum, Aretha Franklin sings the Great Diva Classics (2014), fazendo uma homenagem às grandes divas da música pop (também soul e R&B) americana, muitas das quais bem mais novas, inclusive, que a própria Aretha. No pot-pourri Rolling in the deep/Ain’t no mountain, canção dentro desse álbum, Aretha de certa forma reconhece o potencial artístico de uma outra diva, a britânica de trinta e três anos, Adele. Ela encontra um modo de executar duas músicas em uma única faixa, tocadas uma após a outra, recriando assim uma nova forma de apresentar as canções.

O disco Aretha Franklin sings the Great Diva Classics está cheio de medleys, ou pot-pourris (são sinônimos, um termo em inglês e outro em francês). Termo cunhado pela primeira vez em 1711 por Christophe Ballard, um editor de música francês, pot-pourri designa que duas seções de música individuais foram justapostas, sem a necessidade de haver uma conexão trabalhada entre elas ou repetição de temas.

Sabe-se que “a inter-relação entre colagem, tecnologia e cultura de massa, implica na primeira, por um lado, o fantasma da obsolescência e, por outro, o risco de tudo, no fim, equivaler enquanto produto de consumo”, colocação de Iwasso. Aretha passou longe do fantasma da obsolescência, já que soube se recriar. Infelizmente, ela faleceu em 2018, com setenta e seis anos, quantro anos após o lançamento do seu último álbum.

“Aprender a usar as formas é saber tomar posse delas e habitá-las”, seja com o uso de sintetizadores e elementos tecnológicos, seja com a inserção de relatos pessoais em canções, ou ainda com o uso das técnicas de mashup e pot-pourri. Na contemporaneidade, a arte “não é mais um ponto final, é um momento na cadeia infinita das contribuições”. Bourriaud propõe essa cadeia infinita, em que um artista reconhece o outro, uma época reconhece a outra, e perdem-se os “limites” para a criatividade nas produções artísticas.

Referências:

BOURRIAUD, Nicolas. Introdução. In: BOURRIAUD, Nicolas. Pós-produção: como a arte reprograma o mundo contemporâneo. Tradução de Denise Bottmann. São Paulo: Martins Fontes, 2009.

IWASSO, Vitor Rezkallah. Copy/paste: algumas considerações sobre a colagem na produção artística contemporânea. ARS, São Paulo, ano 7, n. 15, p. 37-53, 2010.

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