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O índice h: cientistas vigiando seus pares

por em 15/02/2016 em Ciência | 1 comentário

O índice h: cientistas vigiando seus pares

O que faz de uma pesquisa relevante? Como saber se algum pesquisador produz conhecimento novo e essencial para o desenvolvimento humano? Essas questões podem parecer triviais, afinal uma pesquisa feita hoje talvez só seja valorizada num futuro distante, como as descobertas matemáticas de Galois, ou mesmo as invenções de Leonardo da Vinci. Então, para quê tentar estimar a relevância de uma pesquisa científica?

O dilema de quem vive a frente do seu tempo. Fonte: KONICA MINOLTA DIGITAL CAMERA

O dilema de quem vive a frente do seu tempo, inventar um helicóptero e ninguém dar a mínima na sua época.
Fonte: KONICA MINOLTA DIGITAL CAMERA

A resposta para essa pergunta é muito mais de cunho econômico, mas não apenas por envolver dinheiro, mas por envolver gestão de recursos limitados, nesse caso, tempo, dinheiro e paciência.

Vivemos em um mundo de recursos limitados ao mesmo tempo que somos seres racionais e propomos a divisão de recursos de modos mais justos (é claro que o conceito de justo e injusto é uma construção social e, portanto, muda ao longo do tempo). Assim também acontece na ciência, como mencionei anteriormente, muitas pesquisas no Brasil e no mundo são financiadas por governos, ou seja, todos os dias uma parte do dinheiro pago em impostos pelos cidadãos é destinado para um ou mais indivíduos produzirem um artigo científico, patente ou arma de dominação mundial. Como todo imposto precisa de uma prestação de contas, faz-se necessário saber quem são aqueles mais capazes de usar o dinheiro público para a produção de conhecimento relevante.

Essa necessidade leva a própria ciência a desenvolver mecanismos para se autoavaliar, a chamada cienciometria. Para isso, usa-se como indicadores o número de trabalhos, o número de citações (ou seja, a quantidade de pessoas que mencionam determinado trabalho publicado), co-autorias (a capacidade de um pesquisador de colaborar com outros cientistas), número de patentes (uma mostra da produtividade científica que resulta em produto ou processo inovador) e, por fim, o número de citações de patente (uma patente cujas ideias serviram de base para outras).

A forma mais clássica (e por consequência a mais simples) de efetuar essa medição é pelo índice h, basicamente uma relação entre o número de citações com o número de publicações. É como o twitter, onde as pessoas mais famosas são normalmente aquelas cujos tweets recebem vários retweets. É claro que, como toda forma de parametrizar produções humanas, o índice h enfrenta uma série de críticas e vários pesquisadores buscam aprimorá-lo.

Foi exatamente isso que se propuseram a fazer um grupo de pesquisadores poloneses, eles desenvolveram uma equação para melhor avaliar a produtividade científica. Sua ideia é partir da avaliação da rede de citações dos trabalhos científicos, usando como arcabouço teórico as equações de taxa e em modelos chamados de agent-based, que permite avaliar a rede de citações e determinar quais são citações de outros pesquisadores e quais são auto-citações (tipo quando o sujeito curte o próprio comentário no Facebook).

O mais fascinante é que essa fórmula pode ser usada não apenas para artigos científicos em si como também para todo o tipo de rede social que haja menções de autores (Facebook e Twitter, por exemplo). Permitindo inclusive avaliar como uma dada pesquisa pode impactar não apenas o público especializado como também a população em geral, que paga os impostos que financiam a pesquisa.

Sabemos que avaliar a produtividade científica é sempre um dilema, mas diante da limitação de recursos para financiar, é um mal necessário. O que se deve evitar é se bitolar pelo índice e buscar desenvolver pesquisas apenas para engrandecê-lo, tipo o que os governos no Brasil (federação, estados e municípios) fazem com os indicadores de desenvolvimento da ONU, ou com o número de desempregados. Mas, é melhor parar de falar de política por aqui antes que os comentadores de portais de notícias apareçam.

 

Referências:

Exact formula now available for measuring scientific success

Barbara Żogała-Siudem, Grzegorz Siudem, Anna Cena, Marek Gagolewski. Agent-based model for the h-index – exact solution. The European Physical Journal B, 2016; 89 (1) DOI: 10.1140/epjb/e2015-60757-1

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