Neste ano, estamos tendo a oportunidade de sediar a COP30, um importante evento que definirá as diretrizes de nossa sustentabilidade como mundo, bem como os caminhos para preservar o que nos resta de florestas, climas e mares. Como já dá para perceber, a pressão é enorme sobre os brasileiros. E nossa resposta, apesar de tímida, tem sido a implantação da bioeconomia.

Aqui no Deviante, já tivemos a oportunidade de observar a necessidade de estarmos alinhados nessa temática, que servirá de base para diversas pautas futuras, envolvendo saúde, inclusão, economia, indústria e, para variar um pouco, alimentação. Podemos dizer que existem três grandes visões sobre a bioeconomia, e são com elas que teremos nosso futuro.

Nesse texto, iremos adentrar mais na discussão sobre bioeconomia que iniciamos no começo do ano. Afinal, é importante entendermos múltiplas bioeconomias? Como será que essas visões impactam as zonas florestais e habitáveis? É o que iremos ver agora!

Apesar de ser um tema em alta, a verdade é que a bioeconomia tem uma miríade de significados divergentes e complementares, oriundos de sua natureza transdisciplinar e multifacetada. Esse leque se abre dependendo dos atores a quem perguntamos sobre essa área e de seus estigmas e externalidades [1]. Para facilitar a nossa vida, os estudiosos mais modernos têm trabalhado a bioeconomia como se tivesse três significados diferentes, que são as “três visões da bioeconomia”.

A primeira visão é a bioecológica, que reúne grupos com interesse na sustentabilidade socioambiental dos empreendimentos. Essa visão tem sua origem na bioecologia, ramo de estudo das interações entre os seres vivos, seus relações e com o próprio ambiente. No nível social, seria o estudo das relações humanas com a natureza que o circunda.

O uso de valores e recursos ambientais como biomassa, recursos aquáticos, pagamento por serviços ambientais, créditos de carbono e outras atividades, todas voltadas à socioeconomia, é essenciais à produção de componentes e conservação dos estilos de vida.

No ramo alimentício, encontram-se aqui associações pesqueiras, agrícolas e agroextrativistas, grupos de aquicultores, o uso de biofertilizantes, políticas formuladas em crédito ambiental, sistemas integrados de lavoura-pecuária-floresta e unidades agroecológicas. São grupos bem significativos para entendermos novas formas de gerar alimentos e recursos energéticos de maneira sustentável.

 

Imagem um. Saber ancestral e cuidados com a floresta moldam a cultura e o estilo de saber-fazer bioeconômico das mulheres no Acre [2]. Extrativistas do caroço de murumuru retiram do produto os óleos essenciais à indústria cosmética, inclusive às marcas renomadas do mercado. Na figura, podemos observar quatro mulheres extrativistas despejando murumuru em um saco de juta numa floresta.

Também há outro segmento bem próximo a este: a visão de biorrecursos. Ela coloca ênfase na circularidade dos recursos, no retorno econômico oriundo de biorrecursos ao invés de componentes não biológicos. Ela transforma cada componente para que tenha novas utilizações ou cadeias de valores que não estavam sendo compreendidas anteriormente [1]. Os recursos biológicos geralmente vêm de fontes restaurativas, ou seja, que melhoram ou valorizam a cadeia ambiental e produtiva toda vez que o recurso é utilizado.

Aqui é importante o conceito de cascata de materiais, que garante que todos os biorrecursos sejam utilizados em sua totalidade, evitando desperdícios. Componentes hidrolisados, aditivos alimentícios, de higiene e de cosméticos, extração legal de madeira e biocombustíveis, microrganismos para bioprospecção, etc., são algumas das potencialidades que surgem dessa visão [3]. A substituição de cadeias poluidoras por restaurativas é o principal paradigma desse entendimento.

E também temos a visão biotecnológica, com forte ênfase na área comercial e recursos aplicados em pesquisa [1]. A inovação é o motor principal dessa visão, e ela é gerida por sistemas lineares, que começam em laboratórios de P&D, são desenvolvidos por plantas-piloto e, em seguida, postos em prática em grande escala, como em biorrefinarias. A prática biotecnológica ocorre por uso de técnicas como engenharia genética, isolamento de microrganismos ou enzimas, agroextração e biocomputação.

Temos aqui uma forte presença do segmento farmacêutico, bem como outras empresas que necessitam de inovação constante do setor biotecnológico industrial, como biocombustíveis e e-metanol, construção civil, aditivos alimentares e cosméticos [4]. Não existe nenhuma indústria que passará despercebida pelas inovações oriundas da biotecnologia nos próximos anos.

 

Imagem dois. Muitas apostas aparecem no cenário alimentício com a bioeconomia, como a fermentação de precisão, que utiliza microrganismos modificados para aumentar a eficiência na formação de componentes [5]. Na figura, podemos observar uma pessoa manipulando alimento fermentado ensacado.

Com as mudanças climáticas e outros eventos de insegurança alimentar, acabamos nos preocupando com a possibilidade de eventos de escassez. A visão de múltiplas bioeconomias nos ajuda a buscar diferentes formas de lidar com problemas complexos, criando um ecossistema de inovação que seja resiliente aos diferentes problemas futuros.

O ator que mais ganha com isso é a população. Um ecossistema econômico biodiverso é a base para ofertar serviços de maior qualidade aos populares. Com isso, ganha-se um alimento fortificado biotecnologicamente, que seja aproveitado completamente pela lógica de biorrecursos e que tenha sido produzido por grupos de interesse bioecológico.

Garante-se assim uma ciclagem de biomateriais para usos mais nobres, com alimentos mais ricos, cultural e nutricionalmente, e também o apoio para manutenção dos mais variados empregos, tanto na área produtiva quanto nos grupos produtivos. Não há um único agente alimentício que não é agraciado em uma sociedade biopolitizada.

Com essas três frentes, somos capazes de responder com mais força aos limites e as dificuldades de cada visão separada. Mais benefícios são colhidos e mais biomas são preservados. Estar atento às diferentes visões talvez se torne uma necessidade governamental em um futuro próximo.

Talvez isso comece com a COP30 deste ano…Só não vale fechar os olhos à questão ambiental, se não seremos a primeira geração bioalienada do planeta! E quem sabe a última…

 

Referências
[1]: MARCOVITCH, Jacques; VIL, Adalberto. Bioeconomia para quem?: bases para um desenvolvimento sustentável na Amazônia. São Paulo, 387 p. vol. 1. 2024.
[2]: MUNIZ, Tácita. Do murumuru ao mundo, mulheres do Acre moldam a bioeconomia com saber ancestral e cuidado com a floresta. Portal Agência de Notícias do Acre, 31 Ago. 2025. Disponível aqui.
[3]: DANTAS, Diogo Willavian Maciel et al. A Educação Ambiental e a utilização sustentável dos biorrecursos no Bioma Amazônico: uma perspectiva acadêmica. Caderno Pedagógico, v. 22, n. 4, p. e13979-e13979, 2025.
[4]: DUARTE, Victória Huch et al. Biocombustíveis: uma revisão sobre o panorama histórico, produção e aplicações do biodiesel. Meio Ambiente (Brasil), v. 4, n. 2, 2022.
[5]: INDÚSTRIA, Agência de Notícias. Leite de vaca, sem vaca: foodtechs usam fermentação para revolucionar a indústria alimentícia. Portal Agência de Notícias da Indústria, 07 jul. 2025. Disponível aqui.