Pages Menu
TwitterRssFacebook
Categories Menu

O Fim da Ciência no Brasil: A minha história com o financiamento público de pesquisa

por em 15/08/2018 em Ciência, Notícias | Nenhum comentário

O Fim da Ciência no Brasil: A minha história com o financiamento público de pesquisa

Nas semanas recentes, o tema das dificuldades financeiras ganhou destaque tanto na imprensa quanto nas mídias sociais. Obviamente fico triste pelas dificuldades que a CAPES está passando, mas ao mesmo tempo fico feliz pelas diversas discussões que se alastraram em seguida à notícia. Como muitas pessoas que participaram de pesquisas no Brasil, tenho algumas histórias para contar que certamente incluem dificuldades, mas muitas histórias interessantes e animadoras. Muitas delas certamente desafiam o senso comum.

Comecei a estudar engenharia de controle e automação em 2004 em uma universidade pública. No primeiro ano, eu não fazia ideia que os meus professores eram pesquisadores ou algo próximo daquela ideia de cientista que eu tinha de ver notícias sobre a NASA ou filmes. Com o tempo, eu comecei a entender que existiam alguns laboratórios na universidade e que alguns alunos de graduação poderiam conseguir bolsas de iniciação científica e trabalhar em um dos laboratórios.

Na terceira fase. eu consegui bolsa para um projeto que, ao contrário da maioria dos projetos da universidade, era pago por uma empresa que era parceira do projeto. O objetivo do projeto não poderia ser mais interessante: desenvolver uma central de tempo real de tráfego – um sistema que ajusta os tempos dos semáforos em pequenos intervalos (por exemplo, 2 minutos) de acordo com as informações recebidas na mesma frequência de fluxo e congestionamento de cada via de maneira a otimizar o fluxo. Tão interessante que eu ainda trabalho na mesma área depois de 13 anos e não vou sair tão cedo.

Um esquemático do que é o sistema pode ser visto na Figura abaixo. Os carros são contados por sensores que ficam embaixo do pavimento. Essa informação, então, vai para a central de tráfego, que calcula qual deve ser o tempo semafórico de forma a otimizar o tráfego. Essa informação, então, é enviada aos semáforos, que “executam” o plano, isto é, deixam o tempo de verde e vermelho de cada via como planejado.

Esquemático de funcionamento de uma central de tráfego.

Para uma apresentação deste projeto, veja este TEDx do meu orientador sobre o assunto.

Ainda assim, continuar na vida acadêmica não era minha primeira opção. Eu queria ver mais a engenharia sendo aplicada e, de fato, a vida no laboratório às vezes é desanimadora. No entanto, no meu último semestre, meu orientador veio com a notícia: “Felipe, faça seu Projeto de Fim de Curso conosco. Vamos instalar esta central em Macaé-RJ”. Tive algumas dúvidas, admito. Na época, o mercado de trabalho estava aquecido e certamente a opção de me colocar no mercado de trabalho ao final da faculdade parecia a opção lógica. Felizmente, decidi embarcar no projeto.

Ali eu comecei a enxergar a conexão da pesquisa com a realidade. Comecei a observar como o pessoal ajustava semáforos na prática, quais eram os equipamentos e tudo mais. Quanto ao nosso projeto específico, eu entendi por que só existiam sistemas importados para o mesmo fim no Brasil. Para projetar o sistema de controle. definitivamente tinha que ter noção de Automação e Controle, que é minha área de formação. Até aí tudo bem, temos atualmente vários cursos de controle e automação ou áreas afins como robótica no Brasil e podemos achar pessoas especializadas. Depois se descobre que, para melhorar o sistema, tem que entender de dinâmica de tráfego nos seus detalhes. Depois tem que entender o básico de sistemas de informação e comunicação já que a central tem que comunicar com equipamentos em campo e armazenar grandes quantidades de informações. É um caminho sem fim, que requer que um grupo de pessoas tenha ao menos boa noção de todos os aspectos envolvidos acima, e, ainda assim, o grupo pode levar anos desenvolvendo o sistema.

Entendi por que estes sistemas são caros: não é fácil desenvolver. E, por ser caro, é muito difícil que prefeituras de um país em desenvolvimento, como o Brasil, consigam pagar. Com isso, empresas não são incentivadas a investir neste tipo de sistema. Quem pode quebrar esse ciclo? Uma das possibilidades são os órgãos de fomento a pesquisa como a CAPES.

Neste projeto em Macaé-RJ, a instalação foi financiada pelos recursos da própria cidade. Em parte, a empresa parceira também colaborou com o desenvolvimento anterior a esta instalação. No entanto, o desenvolvimento do sistema contou em grande parte com diversos editais públicos. Apesar das dificuldades, conseguimos desenvolver e implantar um sistema adaptado a realidade nacional: equipamentos baratos e comunicação entre central e equipamentos de campo menos intensa que as soluções importadas já que, na época, o custo da comunicação GPRS (celular 1G) era um entrave. Na época, outros sistemas usavam fibra óptica para comunicação, o que é caríssimo. Fui segundo autor do artigo que mais tenho orgulho de ter participado: Reportamos melhoras significativas no trânsito apesar das dificuldades e do baixo orçamento (meu orientador fez questão de colocar “cost-effective” no título). O motivo de eu mais me orgulhar deste projeto é que ele mostra que tem pesquisa de ponta no Brasil que foi colocada em prática, com ajuda da iniciativa privada – este sistema hoje é comercializado por esta empresa, mas a universidade detém propriedade e ganha com royalties. Quanto ao trânsito de Macaé-RJ, infelizmente o sistema não continua em operação por falta de recursos para manter o sistema, além de haver, como não poderia ser diferente, diferentes prioridades de novas gestões.

Após este projeto, eu e alguns amigos decidimos abrir uma empresa para desenvolver mais soluções na área de mobilidade urbana. Enfrentamos todas as dificuldades que micro e pequenas empresas sofrem no Brasil. No entanto, recebemos verba pública proveniente de programas públicos para inovação, que foi essencial para o início da empresa (mais que R$50mil sem a necessidade de devolver). A empresa durou alguns anos, em que oferecemos serviços relacionados ao projeto anterior, mas também tentamos alguns projetos interessantes. Por uma série de motivos – dificuldade de vender para prefeituras no Brasil, falta de experiência e não termos o produto certo na hora certa – vendemos alguma das soluções e fechamos.

Nestes anos todos, peguei gosto por pesquisa e desenvolvimento e decidi entrar no doutorado, que estou prestes a completar. A área foi similar a que eu sempre trabalhei: controle de rodovias. Basicamente, o que podemos fazer na operação de rodovias para melhorar o fluxo como um todo?  Certamente um tema de grande interesse público e de grande relevância a um país em que o número de rodovias em áreas metropolitanas tem crescido significativamente. Diferentemente dos projetos anteriores, a pesquisa aqui não tinha um sistema específico como alvo, mas certamente esta pesquisa trará frutos. Aliás, o objetivo fim da CAPES, cujo objetivo é “Aperfeiçoamento de Pessoal Nível Superior”, eu acredito ter sido alcançado. Faço hoje parte de um grupo – infelizmente ainda “seleto” – de pesquisadores brasileiros que podem participar de projetos relevantes na área de controle de tráfego. Lembrando que isto não se reduz a desenvolver sistemas específicos, mas podemos avaliar a eficácia de propostas, desenvolver normas (por exemplo, como estes sistemas podem se conversar?) e propor futuros projetos de pesquisa e desenvolvimento nesta área.

Dei aqui meu exemplo pessoal, mas eu sei que exemplos como esse não são raros. Certamente o sistema de financiamento de pesquisa no Brasil tem seus problemas e cabe discutir novos modelos e ideias. No entanto, eu estou certo que o pouco que é feito traz grandes frutos, portanto, é com grande pesar que vejo essas recentes notícias.

Referências

TEDx com Professor Werner Kraus Jr.