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Crítica | Doutor Estranho

por em 03/11/2016 em Entretenimento | Nenhum comentário

Crítica | Doutor Estranho

E o dia chegou. Todo mundo acreditava que a Marvel e a Disney não conseguiriam, mas Doutor Estranho estreia hoje nos cinemas com a mais dura das tarefas: estabelecer a existência do sobrenatural em um universo cinematográfico que até então desmistificou diversos conceitos místicos dos quadrinhos, transformando tudo em ciência.

Mas a película estrelada pelo Mestre das Artes Místicas cumpre o que promete? É o que veremos a seguir.

P.S.: leia sem medo, desta vez temos zero spoilers.

Uma Realidade à Parte

Criado por Stan Lee e o mago Steve Ditko (também co-criador do Homem-Aranha), o doutor Stephen Strange estreou em julho de 1963 nas páginas da edição #110 da revista Strange Tales. De lá para cá o personagem passou de uma mera curiosidade mística dentro de um panteão de heróis superhumanos para o Mago Supremo, o efetivo guardião de toda a realidade e última linha de defesa da Terra, quando tudo o mais falha.

Originalmente Lee e Ditko pensaram em um tom muito mais soturno para o personagem, tanto que sua aparência inicial refletia esse intento: Strange foi modelado tendo como base o ator Vincent Price, um dos mais aclamados do gênero terror de todos os tempos (vejam Diário de um Louco) e que hoje só é lamentavelmente lembrado pelo monólogo em Thriller, do Michael Jackson (a inconfundível gargalhada inclusa).

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A Marvel tinha a intenção há muito tempo de introduzir o Doutor Estranho em seu Universo Cinematográfico, mas era preciso reconhecer uma coisa: Kevin Fiege, John Favreau e Jeph Loeb o conceberam de modo a explicar mesmo as situações mais inconcebíveis como ciência. Os argardianos deixaram de ser deuses (quem leu a trilogia Terra/Universo/Paraíso X sabe que eles nunca foram, mas divago) e se tornaram uma outra raça com uma longevidade muito maior que os humanos e detentores de uma tecnologia avançadíssima. Esse foi um bom uso da 3ª Lei de Clarke:

“Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível de magia”.

Mas as artes ocultas eram outra história. Como explicar os conceitos de viagem astral, mente fora do corpo, encantamentos e etc, sem trair os princípios que o próprio MCU estabeleceu, sendo que nem telepatas existem (por causa dos X-Men estarem na mão da Fox)?

O Juramento

A solução encontrada foi contar com alguém que soubesse conduzir uma história de transição, mas sem se distanciar muito. A tarefa caiu nas mãos do diretor Scott Derrickson, especialista em filmes de terror e ocultismo, embora jovem. Basta conferir seu portfólio (Hellraiser V: Inferno, O Exorcismo de Emily Rose, A Entidade, Livrai-nos do Mal e o terrível remake do clássico O Dia em que a Terra Parou).

Claro que um filme sem elenco não é nada, e a Marvel acertou na mosca ao escalar Benedict Cumberbatch (Sherlock, O Jogo da Imitação, Star Trek: Além da Escuridão) como o protagonista. Assim como Robert Downey Jr. encarnou Tony Stark, o ator britânico desenvolveu o papel com tanta desenvoltura e naturalidade que é seguro afirmar que o ator britânico É Stephen Strange.

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Cumberbatch trouxe de Sherlock Holmes toda a carga de orgulho e arrogância que o maior detetive do mundo ostenta para dar forma ao auto-intitulado melhor neurocirurgião do planeta, mas é na jornada de descobrimento que ele se revela como algo mais. Ainda que tente manter a panca o tempo todo Strange reconhece que o mundo que ele acredita ser real é apenas um minúsculo grão de areia em possibilidades infinitas.

Uma Terra Sem Nome, Um Tempo Sem Fim

É aqui que a a Anciã, interpretada pela sempre classuda Tilda Swinton (As Crônicas de Nárnia, Adaptação, Precisamos Falar Sobre o Kevin) se destaca como o arquétipo do Mentor, que ensina os caminhos do oculto para Strange a fim de expandir suas Portas da Percepção. E ela faz o mesmo pelo filme como uma extensão da ideia do que a Marvel planejou: era preciso torcer as regras um pouquinho a fim de admitir que há algo mais do que supersoldados, alienígenas, monstros verdes, homens de armadura e deuses nórdicos voadores.

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A Marvel deu um nó em suas próprias regras para introduzir o conceito de magia à sua própria maneira e acredite, faz sentido. Não há poções, não há vapores, não há substâncias místicas. Apenas uma forma de abordar o tecido da realidade diferente e extrair vantagens disso, o que para qualquer um de fora que veja é bruxaria pura e simples. Embora se denominem como magos, a bem da verdade eles não o são como você imagina que sejam.

Triunfo e Tormento

O restante do elenco também é muito bom, desde Rachel McAdams (Meia-Noite em Paris, True Detective) como a dra. Christine Palmer e Michael Stuhlbarg (Um Homem Sério, Homens de Preto 3) como o rival dr. Nicodemus West no núcleo “mortal”. Chiwetel Eijofor (12 Anos de Escravidão, Perdido em Marte) como Mordo e Benedict Wong (Marco Polo, Perdido em Marte) como Wong no núcleo místico, servindo de apoio e fontes de conflito para o desenvolvimento de Strange.

O vilão Kaecilius, interpretado por Mads Mikkelsen (Trilogia Pusher, A Caça e o futuro Rogue One: Uma História Star Wars) foi promovido de bucha de canhão nas HQs (ele era um mero capacho/garoto de recados místicos do Barão Mordo) para o antagonista da película e convence como uma ameaça real aos magos, que possuem a tarefa de defender toda a realidade de agressões extradimensionais. Esse aliás é o principal motivo de porque a Anciã e seu discípulos não interferiram nos rolos anteriores em que os Vingadores se meteram: eles possuem ameaças MUITO MAIORES com as quais lidar. Uma cidade ou duas é café pequeno perto de toda a realidade.

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Claro que há uma série de easter eggs espalhados pelo filme, desde os mais óbvios como alguns que os Marvetes ficaram estasiados ao verem ou ouvirem menções, e a direção artística com as cidades se desdobrando deixaria M.C. Escher orgulhoso. Não obstante, uma das cenas conseguiu de modo primoroso reproduzir a arte de Ditko na tela, e só por isso recebe muitos pontos extras.

No mais, basta dizer que as peças para Os Vingadores: Guerra Infinita, o filme em duas partes onde todos os heróis do MCU se unirão contra Thanos, o Titã Louco, estão se encaixando cada vez mais.

Conclusão

Doutor Estranho era o projeto mais ousado da Marvel, porém a alquimia entre Fiege, Derrickson e o elenco conseguiram dar vida a personagens que ninguém pensava que fosse capaz de ser realizado, colocando magia e ciência lado a lado e não como forças antagônicas. Cumberbatch ostenta o Manto de Levitação de Strange com naturalidade, na mesma escala que RDJ faz com Stark: não dá para imaginar outro ator no papel.

O equilíbrio entre passagens tensas e engraçadas é bem orgânico, e embora seja uma fórmula a Marvel e a Disney sabem utiliza-la muito bem e o filme não fica maçante, nem… estranho.

Agora uma dica: Doutor Estranho DEVE ser apreciado em 3D, de preferência em IMAX. Os efeitos nas magias foram muito bem adaptados em três dimensões,

Cotação:

5/5 Olhos de Agamotto.

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O Portal Deviante assistiu à cabine de imprensa de Doutor Estranho a convite da Disney.

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