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Saber português não é saber gramática

por em qui 17America/Sao_Paulo ago 17America/Sao_Paulo 2017 em Ciência | Nenhum comentário

Saber português não é saber gramática

Oi, pessoas! Bão? Achei interessante fazer esse texto para vocês entenderem que saber português não é saber gramática.                        

Confesso que esse é um assunto que eu adoro! E ele pode ajudar a quebrar algumas barreiras que vocês tenham criado com relação à língua portuguesa e vai deixar vocês mais abertos para aprender o que eu tenho para falar.

Surpreso?

Percebi, nos meus anos como professora de português, uma certa esquizofrenia no que diz respeito ao conhecimento de Língua Portuguesa. A gente usa esta língua até dormindo, nos sonhos! A gente escreve, fala, ouve músicas, vê filmes e seriados, trabalha…e ainda assim as pessoas acham que não sabem português. Isso só acontece porque a maioria das pessoas associa português com regras gramaticais. Vou te contar um segredo. Chega mais perto. Mais. Isso. Lá vai: ninguém se expressa de acordo com todas as regras gramaticais. NINGUÉM!!

Um pouquinho de história para vocês. A gramática, enquanto conjunto de regras escritas, foi criada por Alexandre, o grande. Passado um tempo, depois que ele conquistou todo o mundo conhecido da época, escravizou uma galera e obrigou esses povos a falar a língua dele, ele viu que a língua estava mudando. Afinal, a língua é viva!!

Enfim, Alexandre ficou PUTO! Os povos iam adaptando o vocabulário grego às estruturas das suas línguas. Aí ele pensou: “Minha língua vai desaparecer! Precisamos escrever como é a forma certa de falar!”. Aí ele juntou alguns homens (sim, homens, não havia mulheres), se baseou em livros que já tinham sido escritos (sim, as pessoas escreveram antes de existir um conjunto de regras!). E produziu a primeira gramática.

        

Agora vamos pensar um pouquinho. Imagina que você é Alexandre, o grande. Pensa aí em umas dez pessoas que você escolheria para criar a gramática com você. Pensa em quais livros você se basearia. Pensou? Massa. Qual é o problema que temos aqui? Você consegue ver?

Qual foi seu critério na escolha das pessoas e dos livros que basearam essas regras? Você pensou no Machado de Assis ou no Ariano Suassuna, ou Paulo Coelho, ou na tradução de Crepúsculo? O resultado das regras gramaticais seria diferente para cada um desses exemplos. Outro ponto: qual a parcela da população fala ou escreve exatamente como esse grupo que você selecionou? Percebeu? As regras da gramática, na sua essência, são escolhidas de maneira tendenciosa, que não leva em consideração como a maioria da população fala ou escreve!

Eu falei que a língua é viva. Ela muda o tempo todo! Existem ao mesmo tempo, várias formas de falar a mesma coisa. Algumas dessas formas ficam, outras somem. Um exemplo fácil de ver são as expressões que foram usadas pelos seus avós e caíram em desuso, ou que você usa e alguém mais velho ou mais novo não entende, mas tem mais um monte de exemplos e nosso foco não é esse. Então deixa eu voltar ao que interessa.

Língua Portuguesa não é um conjunto de regras determinado por um livro. Uma pessoa que nunca foi alfabetizada sabe português. Uma criança que nunca foi para a escola, sabe português. Existe um pedacinho no cérebro que nos prepara para aprendermos qualquer língua. Nascemos com essa capacidade! E essas regras do livro são as regras de um grupo de pessoas, de um momento específico na história e que, não necessariamente, retratam toda a variedade da nossa língua.

Uma língua é um traço de uma cultura e, portanto, é influenciada por essa cultura. Como cada cultura é diferente, cada língua será diferente também. Pensa aí como a cultura do Nordeste do Brasil é diferente da do Norte, da do Sul, da do Centro-Oeste. Claro que temos predominantemente traços em comum, porque estamos dentro de uma cultura brasileira, mas, nesse país enorme, cada canto tem suas peculiaridades, que refletem na língua. E não estou falando só de sotaque! Para a pergunta: “O almoço está pronto?”, por exemplo, poderíamos ter a resposta “O almoço não está pronto”, mas também poderíamos ter várias respostas, entre elas: “Não está pronto, não” ou “Está não” ou “Está pronto não”. Você diria que alguma dessas respostas está errada? Como criar a regra de colocação do não na frase? Difícil, né?

É impossível criar regras para cada coisinha que fazemos na língua, o que faz com que tenhamos um conjunto enorme de regras inviável de se decorar. A palavra é essa: decorar. Não aprender. É aí que está o problema. O motivo de todos acharem que não sabem português.  O que as pessoas não sabem é todas as regras gramaticais. E tudo bem!

Isso não significa que não precisamos estudar a gramática porque já sabemos tudo que precisamos para nos comunicar!! Por que, então, estudar a gramática? Porque vivemos em sociedade e temos contextos diferentes que exigem comportamentos diferentes. A mesma demanda social que exige que você não use chinelo no trabalho ou na escola, exige uma forma de falar e escrever específica para certos ambientes. É só isso! ☺

Fica ligadx! No próximo texto vou falar sobre “a outra gramática”, aquela que já vem no nosso cérebro e que te permitiu aprender sua(s) língua(s).

BAGNO, Marcos. Nada na língua é por acaso – por uma pedagogia da variação linguística. 3ª. Ed. São Paulo: Parábola, 2007.


Debbie Cabral

É Analista do Discurso. Educadora. Feminista. Eterna aspirante a retirante dos seus lugares comuns. Netflix addict. Ótima para rir, péssima para fazer piadas.

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