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Cabelo, cabeleira, cabeluda, descabelada – Parte I

por em 27/09/2018 em Ciência | Nenhum comentário

Cabelo, cabeleira, cabeluda, descabelada – Parte I

Começa aqui a saga mais embaraçada do Portal Deviante. Tudo o que você já quis (ou não) saber sobre cabelos. Lisos, ondulados, cacheados, crespos. Pretos, loiros, ruivos, grisalhos. Naturais, tingidos, alisados. Ah, e sobre a falta de cabelo também. Então todo mundo pode chegar.

Primeiramente, cabelo é um tipo de pelo, mas você sabe o que são os pelos? De forma geral, pelos são a cobertura característica da pele de todos os mamíferos, sendo que sua função original é a proteção natural do corpo contra fatores ambientais, como calor, frio, luz solar, lesões e impactos. Independente da origem e da localização no corpo, todos os apêndices epidérmicos (que além de todos os tipos de pelos, engloba também penas, chifres, unhas, cascos, entre outros) têm certas características em comum.

A principal semelhança é que esses apêndices são constituídos de uma classe específica de proteínas: as queratinas (dessas você já deve ter ouvido falar ou talvez lido em algum rótulo de creme pra cabelo). Pois bem, as queratinas são proteínas caracterizadas por um conteúdo alto de cisteína, um aminoácido que contém enxofre e é capaz de estabelecer ligações cruzadas via ligações dissulfeto. Mas, PARAÊ!, que vou falar mais dessas proteínas depois do intervalo.

Queratina? Só depois do intervalo!

Com o que eu falei até agora, você pode estar pensando “Mas se todos os pelos do corpo são formados da mesma ‘coisa’, por que eles não crescem de forma igual? Meu cabelo tem 30 cm de comprimento e continua crescendo, mas o pelo no meu braço não passa de uns 2 cm…”.

Bom, ainda bem por isso, né. Mas até o final deste texto, você vai entender… por que no restante dessa primeira parte da série de textos mais cabeluda que já passou por esse portal, vou explicar mais sobre o nascimento, crescimento e morte daquele que está (ou já esteve) na cabeça de todos os seres humanos: o cabelo.

Pra começar, vamos dar uma olhadinha na nossa pele, afinal ela é a base para nosso cabelo.

A pele é dividida em camadas (para facilitar o entendimento, recomendo ir acompanhando a leitura com a figura):

Estrutura da pele

– A epiderme é a camada superior, que por si só pode ser dividida em duas partes: a mais externa que é pele “morta”, aquela que sai numa esfoliação, por exemplo, e a parte “viva” que é uma camada mais abaixo. Essa camada “viva” da epiderme é constituída de células que são continuamente divididas, formando novas células.

Quando as novas células vão sendo formadas lá na parte mais inferior da epiderme, as mais antigas vão sendo empurradas epiderme acima, no processo de queratinização até que chegam longe demais do suprimento de alimento. Com isso, essas células vão endurecendo e morrendo. E aí quando essas células chegam mortas à superfície da pele, elas descamam (e a gente vai aos poucos “trocando de pele”).

– Já a derme, que fica abaixo da epiderme, se assemelha a uma rede de fibras e é nessa parte que ficam os vasos sanguíneos (que são as rodovias por onde o alimento chega às células da parte mais inferior da epiderme, permitindo o processo de crescimento de novas células que expliquei anteriormente).

A junção entre a derme e a epiderme é chamada de papila dérmica, devido a ela ser caracterizada por saliências da derme em direção à epiderme.

– Por último, temos o tecido subcutâneo que é uma camada que fica entre a pele propriamente dita e o músculo e é onde estão as veias e artérias que são as vias principais das quais se ramificam os vasos sanguíneos.

Mas aí eu ouço você dizendo: “Tá, mas e o cabelo? Isso aqui tá parecendo programa do João Kléber mesmo!”.
Pois bem, estamos chegando lá! É justamente na camada mais inferior possível da epiderme, a chamada camada basal, que tudo acontece. Nessa camada é onde ficam glândulas sudoríparas, glândulas sebáceas e ele, berço do protagonista da nossa série, o folículo capilar!

O folículo capilar nasce como um conjunto de células epidérmicas que vão crescendo, se multiplicando e descendo cada vez mais na derme (são as estruturas capilares primárias). A estrutura final formada é o folículo capilar, que podemos imaginar que seja como um tubo, dentro do qual o cabelo irá crescer. Como essa estrutura foi formada a partir de células da epiderme crescendo em direção à derme, na base do folículo, temos a junção entre as duas camadas da pele e, portanto, encontra-se uma papila dérmica. Esta papila é rica em vasos sanguíneos que nutrem as células epidérmicas dentro do folículo, possibilitando o crescimento do cabelo em direção ao exterior da pele.

Nós já nascemos com todos os folículos capilares que teremos: cerca de 5 milhões!

“É muito cabelo, aposto que a maioria tá na minha cabeça!”, você deve estar pensando. Mas não! Somente cerca de 100.000 folículos estão presentes no nosso escalpo (isso é só 2% do total).

“Legal! Sempre quis saber quantos fios de cabelo eu tinha. Então são 4,9 milhões espalhados pelo corpo e 100.000 na minha cabeça…”

Ééééééé… não!

Não são todos os folículos que estão crescendo cabelo ao mesmo tempo. E com o envelhecimento, alguns param com o crescimento (daí que pessoas ficam com menos cabelo, ou mesmo carecas, com o tempo).

Cada folículo capilar tem três fases de crescimento:

Fases de crescimento do folículo capilar.

 

1. Anágena: a fase em que o cabelo nasce e cresce (e morre também!).

O cabelo ‘nasce’ com o crescimento de uma raiz no fundo do folículo. Essa raiz é, assim como a gente já viu com a formação do folículo, um conjunto de células epidérmicas que vão se dividindo e crescendo. Com o crescimento, essa raiz vai subindo pelo folículo. Em dado momento, as células passam pelo processo de queratinização, que comentei antes que também ocorre na pele, e vão endurecendo. Antes do fio de cabelo atravessar a camada exterior da epiderme, ele passa pela glândula sebácea. Esta glândula adiciona óleo ao cabelo, que o mantém brilhante e macio (e também oleoso). Até aqui, o fio de cabelo está dentro do folículo capilar, vivo e crescendo até que ele esteja comprido o suficiente para atravessar a superfície da pele. A raiz do cabelo continua viva e crescendo, sempre empurrando as células mais antigas em direção ao exterior da pele, e com isso, o cabelo vai crescendo… até que morre. E mesmo que o cabelo esteja aí grudadinho na sua cabeça ele está morto!

Como é que é?

Sim! O desenvolvimento e crescimento do fio de cabelo ocorre somente dentro do folículo, porque aquela parte do cabelo que sai do folículo não é mais nutrida. Logo, todo o cabelo que está na superfície da sua pele está morto. Mas isso é bom… é por isso que cortar o cabelo não dói.

2. Catágena: a fase do ciclo folicular quando o crescimento do fio de cabelo pára.

Após a fase anágena chegar a seu fim, a raiz do cabelo começa a encolher e com isso vai se desprendendo da papila dérmica. Até o momento em que se desprende totalmente, não recebendo mais nenhuma nutrição. Assim, o fio pára de crescer.

3. Telógena: nesta fase, é dito que o folículo está ‘dormente’.

Ocorre quando acaba a fase catágena. O fio de cabelo ainda está no folículo, mas não tem nenhum crescimento do fio nesta fase. Ao mesmo tempo, a papila dérmica começa a crescer lentamente.

O ciclo recomeça quando um novo folículo se desenvolve ao redor da papila dérmica. O novo fio de cabelo empurra o fio antigo para fora e, assim, o cabelo cai.

A duração de cada uma dessas fases vai depender da posição do folículo capilar no corpo. E o comprimento do fio vai depender da duração da fase anágena. E tudo isso é regulado geneticamente (isso quer dizer que seu cabelo tem um comprimento máximo que ele pode chegar, independente do shampoo que você use!).

Respondendo a pergunta lá do começo do texto, é por isso que o cabelo na sua cabeça tem 30 cm e talvez continue crescendo e no seu braço não passa de 2 cm. No escalpo, a fase anágena pode durar de dois a seis anos (varia de pessoa pra pessoa), enquanto a fase anágena dos folículos do resto do corpo dura no máximo algumas semanas.

Uma possível explicação para isso é evolutiva. Quando o ser humano se tornou bípede e seu cérebro ficou maior, houve a necessidade de melhor regulação térmica para evitar o superaquecimento do cérebro. Assim, a duração da fase anágena dos pêlos foi diminuindo não permitindo grandes comprimentos capilares no corpo todo, facilitando a troca de calor. Outra hipótese para o cabelo da cabeça permanecer com grandes comprimentos é que este continua com sua função original de proteção contra frio e impacto, enquanto o restante do corpo não necessita dessa função devido ao uso de vestimentas.

Entendi, hehe.

Além disso, mesmo quando na mesma região do corpo, cada folículo está numa fase. Por isso também é normal perder por volta de 100 fios de cabelo por dia (não se desespere quando você vê aquela quantidade de cabelo no ralo após o banho). Se todos nossos folículos estivessem na mesma fase, todos os nossos fios de cabelo/pêlo iriam não só crescer ao mesmo tempo, como nós teríamos um momento de troca de pelagem em que todos os pêlos iriam cair ao mesmo tempo, como acontece com alguns animais.

Como esse texto já está chegando no comprimento do cabelo da Rapunzel, vou parando por aqui. Mas essa série ainda vai continuar, afinal de contas prometi falar sobre a queratina. Também não vimos ainda porque temos tantas texturas e cores diferentes de cabelo, entre outras coisinhas capilares.

Qualquer dúvida diga aí nos comentários.

Pode ir bater cabelo que por hoje acabou!

 

Referências:

LEE, C. M.; INGLIS, J. K. Science for hairdressing students. Pergamon Press, 1983.

BOUILLON, C.; WILKINSON, J. The Science of hair care. Taylor & Francis, 2005.

MONTAGNA, W.; ELLIS, R. A. The biology of hair growth. Academic Press, 1958.

How hair grows.

Why humans lost their body hair: to stop their brains from overheating as we evolved.

Dear Science: Why does the hair on my head grow longer than the hair on my body?

SciShow: Why body hair?

Capa: Enrolados

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