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Um retrato de metodologia científica em ciências sociais e humanas

por em 25/05/2020 em Ciência, Notícias | Nenhum comentário

Um retrato de metodologia científica em ciências sociais e humanas

Fazer ciência não é fácil. Isso a gente já sabe. Mas fazer ciências sociais e humanas tem um nível de complexidade diferente. Como elas estão muito próximas do cotidiano das pessoas, é muito fácil dizer “não concordo com sua opinião porque essa não é a minha experiência”. No texto de hoje, vou explicar como se dá metodologia científica em pesquisas de ciências sociais e humanas pra dar uma mãozinha para quem está começando a fazer pesquisa e, quem sabe, tentar mostrar para algumas pessoas que não é uma opinião. É ciência.

Toda pesquisa parte de questionamentos sobre a nossa realidade. Cada área do conhecimento das ciências sociais, portanto, questiona os mesmos ‘objetos’, mas com interesses distintos e específicos. Vamos fazer um paralelo com fotografia, que acho que pode deixar a explicação mais fácil.

Pensa em uma paisagem. Cada cientista que interagir com essa paisagem vai querer analisar uma coisa diferente: a interação entre as pessoas, as relações entre as pessoas, a roupa que as pessoas estão usando, a disposição das ruas, os nomes das ruas, o outdoor que está ali atrás… Para isso, cada uma dessas pesquisadoras ou pesquisadores vai precisar, digamos, de uma câmera fotográfica diferente, que seja apropriada não só para o seu objeto de estudo, mas para o questionamento que quer fazer a respeito daquele objeto. Aí, com a câmera escolhida, elas e eles precisam escolher a melhor lente – ou lentes. Depois do material escolhido, precisamos pensar na luz, no foco, na direção, na posição… Não é fácil ser fotógrafo profissional!

Nessa metáfora, a câmera fotográfica é a teoria com que vamos trabalhar. Sem ela, a lente sozinha não é suficiente, e, se escolho a câmera errada, a tecnologia dela pode atrapalhar mais do que ajudar. Teorias, assim como as câmeras, já estão aí estabelecidas em cada área, mas, à medida que o tempo passa e novas descobertas vão sendo feitas, algumas podem cair em desuso, ficar ultrapassadas.

Entre todas as teorias de uma área, como faço para escolher a melhor teoria, então? Bem, não existe uma melhor teoria. Existe a que melhor responde à sua pergunta. Então a primeira coisa que precisa estar claro para a pesquisadora ou pesquisador é o que ela ou ele quer saber.

Elaborar essas perguntas não é fácil. São perguntas que devem estar apropriadas ao tamanho da pesquisa. É um artigo? Uma dissertação de mestrado? Uma tese de doutorado? Um projeto de pesquisa de vários anos? Além disso, perguntas de sim ou não dificilmente precisarão de uma discussão muito elaborada. Com perguntas ‘abertas’, a pesquisadora tem que ter cuidado para não colocar suas crenças e vieses em forma de pressupostos. Imaginemos que, pela vivência do dia a dia, alguém queira saber “por que meninos se dão melhor nas áreas de exatas”. Essa pergunta tem dois grandes problemas que fazem com que essa não seja uma boa pergunta de pesquisa.

  1. a pessoa pressupôs que meninos se dariam melhor,
  2. ‘melhor’ e ‘áreas de exatas’ são termos muito amplos além de que ‘meninos’ engloba uma faixa etária gigantesca.

Repensando essa pergunta de pesquisa, algo como ‘até que ponto identidade de gênero influencia os resultados de exames de matemática de estudantes de 6o ano do ensino privado da escola X’ vira uma boa pergunta de pesquisa viável para um TCC de graduação, por exemplo.

O tipo de pergunta que você faz também determina o método de pesquisa, se sua pesquisa será quantitativa ou qualitativa ou as duas coisas. Uma pergunta que vise a quantificar alguma coisa, determinar a probabilidade de algo acontecer de novo (Newman and Benz 1998) é primordialmente quantitativa. Uma pergunta que vise a entender profundamente o que é específico de um grupo (Davis 1995) tende a ser qualitativa. Mas nada impede que usemos os dois métodos para alcançar nossas respostas.

Mas voltemos à metáfora. Tendo escolhido o que fotografar dentro da paisagem (a pergunta de pesquisa), podemos escolher a melhor câmera (teoria) e o “ângulo” da foto (se vai tentar pegar mais gente, ou se vai focar em um grupo, por exemplo) (método). Aí passamos para a escolha da posição de onde vamos tirar a foto, a abordagem. Dentro de uma teoria, você pode abordar o tema de diversos ‘lugares’.

Vou dar um exemplo dentro de Linguística, que é minha área, para tentar não falar besteira. Dentro da Teoria de Estudos Críticos do Discurso, podemos usar uma abordagem sócio-cognitiva, uma abordagem cognitiva, de análise dialético-relacional, de análise histórica do discurso, análise conversacional… Cada abordagem tendo seus prós e contras e a escolha da mais apropriada, mais uma vez, depende da sua pergunta de pesquisa. Você pode escolher uma abordagem de cima pra baixo (top-down), em que você parte de uma hipótese a ser testada, ou você pode abordar o objeto de baixo pra cima (bottom-up), quando você deixa o objeto te mostrar padrões que serão analisados.

Depois de escolher a posição mais adequada para responder sua pergunta, você, como fotógrafo vai escolher a lente mais apropriada, escolher usar ou não tripé, definir o tempo de abertura para entrada de luz… Ou seja, você usa certas ferramentas para alcançar o melhor resultado. Ferramentas essas que dependerão do método escolhido, que depende da sua pergunta. Entre essas ferramentas, podemos citar uso de questionários, entrevistas, observações, softwares de cálculos de probabilidades…

Enfim, tudo isso é pensado e decidido antes mesmo de começar a pesquisa! Depois de você pensar em tudo isso, você começa a colocar a sua pesquisa em prática, com muita leitura para o embasamento teórico que vai dar suporte para a análise efetivamente. Ufa! E depois vem alguém te dizer que discorda da sua opinião. Por que isso?

Bem, primeiro temos a questão de proximidade das pessoas com o objeto de estudo dos cientistas sociais. Se o que foi descoberto não corresponde à sua realidade imediata, a pessoa entende que aquilo pode ser questionado. Segundo que, quando a pesquisadora ou o pesquisador faz todas aquelas escolhas acima, as escolhas carregam um pouco deles mesmo. O viés é inevitável. Mas estamos, mais uma vez, falando de ciência e não de opinião. Então essa autorreflexão sobre os nossos vieses é muito importante. O viés se torna perigoso quando o pesquisador não tem consciência dele (Baker 2012). Daí ser imprescindível ter uma metodologia clara, definida e específica. É ela que vai trazer credibilidade para a pesquisa (Davis 1995).

Credibilidade, confiabilidade e possibilidade de generalização/transferência, são alguns dos princípios do método científico. Estudos de caso dificilmente podem ser generalizados para uma população, por exemplo, mas sua metodologia deve poder ser replicável em contextos similares.

Enfim, espero que esse retrato tenha deixado alguns conceitos metodológicos mais claros. Contribuições e críticas são sempre bem-vindas!

 

Referências:

Alavi, M; Archibald, M; McMaster, R.; Lopez, V.; Cleary, M. (2018) Aligning theory and methodology in mixed methods research: Before Design Theoretical Placement. International Journal of Social Research Methodology, 21(5), pp. 527-540.

Baker, P. (2012). Acceptable bias? Using corpus linguistics methods with critical discourse analysis. Critical Discourse Studies, 9(3), pp. 247-256.

Creswell, J. W. (2007) Qualitative Inquiry and Research Design: Choosing Among Five Approaches. 2nd Ed. London: Sage Publications.

Davis, K.A. (1995) Qualitative Theory and Methods in Applied Linguistics Research. TESOL Quarterly 29(3): 427–453.

Newman, I. and Benz, C. (1998) Qualitative-Quantitative Research Methodology. Illinois: Southern Illinois University Press.

Thomas, G. (2017) How to do your research project: a guide for students. 3rd ed. London: Sage.

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