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Resenha: Metrópole à Beira Mar

por em 29/01/2020 em Notícias | Nenhum comentário

Resenha: Metrópole à Beira Mar

Essa resenha é uma parceria do Portal Deviante com a Cia da Letras, que disponibiliza livros do seu catálogo para os nossos redatores escreverem as resenhas. Livro de hoje: Metrópole à Beira Mar.

Graça Aranha, Oswaldo Cruz, Siqueira Campos, Gago Coutinho, Sacadura Cabral, Cardeal Arcoverde… os cariocas reconhecerão estes nomes como ruas, praças e estações de metrô da cidade, e Metrópole à Beira-Mar conta a história desses e de tantos outros personagens que marcaram seus nomes na história. Podemos dizer que esse livro é uma biografia (gênero de especialidade do autor Ruy Castro), mas ao invés de contar a história de uma pessoa, conta a de uma cidade – o Rio de Janeiro. Como toda biografia, o personagem principal vai se desenvolvendo ao longo da trama, passa por maus bocados e outros de momentos inspiração divina, daqueles que mudam o curso da História. Bem, o Rio de Janeiro não só mudou, mas fez história na década de 1920, e é isso que o livro se dispõe a contar.

O autor decide começar o livro descrevendo o cenário que envolvia a cidade no final da década de 1910: a Europa lidava com o final da 1ª Guerra Mundial, o mundo inteiro via suas populações dizimadas pela gripe espanhola e no Brasil, a economia precisava se adaptar rápido devido ao conflito internacional e à menor demanda por café. Por todo o pessimismo que envolveu os anos 1910, o último carnaval da década se destoa, e a festa se torna histórica. Um dos motivos é que as pessoas se jogaram na folia com a justificativa que aquele poderia ser seu último Carnaval, se a epidemia da gripe espanhola espalhasse mais. Talvez um dos marcos mais conhecidos de 1919 é a estreia de um dos blocos ainda hoje mais famosos: o Cordão do Bola Preta.

Além do protagonismo do Carnaval, é importante lembrar o que o Rio de Janeiro representava para a época. A cidade era cortada por bondes elétricos (pasmem cariocas contemporâneos, eram 60 linhas que ligavam as ruas do centro aos bairros), era uma das única no país com iluminação pública elétrica, o Rio era a sede da primeira universidade do país, da Academia Brasileira de Letras e de diversos cinemas e teatros. Tudo muito avant-garde. O Rio fervilhava com jornais – lembre-se que era a capital federal, centro da política e do poder – e consequentemente era habitada por inúmeros jornalistas, muitos dos quais escreviam sobre várias áreas e também se dedicavam a outras artes. Havia aqueles que trabalhavam nas páginas policiais de março a janeiro e como cronistas de Carnaval em fevereiro, nada de surpreendente. A cidade era um fervilhar das artes, especialmente das letras. A capital atraia todos aqueles que buscavam uma vida melhor, seja através do pincel, da pena ou de um cargo público. O Rio era a cara da modernidade que se instaurava no mundo, sempre influenciado por Paris. O próprio autor de Metrópole à Beira-Mar descreve o clima da cidade assim: “O sexo, as drogas, a censura, a política e temas sociais estavam na atmosfera, no jornalismo e na literatura do Rio. As palavras, a seu serviço, não tinham para onde fugir.” E quem queria fugir do Rio?

Para os brasileiros de hoje, pode ser curioso que há 100 atrás São Paulo fosse um coadjuvante com pouco espaço no cenário nacional. Os livros de história indicam que São Paulo começa a despontar ao ser a sede da ruptura promovida pela Semana de Arte Moderna de 1922, mas o Rio já era frequentado por uma grande parte dos artistas envolvidos com o modernismo. Então por que não realizar a semana aqui? Porque a modernidade da vida e das artes já convivia com os cariocas desde os anos 1910 e apresentar o modernismo como uma enorme ruptura cultural não seria nada escandaloso no Rio – o futuro das artes sempre conviveu com os velhos parnasianos nos cafés da Cidade Maravilhosa.

Tanto que o Rio é onde a história do teatro brasileiro nasce – mesmo que futuramente todo esse movimento viesse a ser reduzido pela historiografia. O nome de Procópio Ferreira ainda tem reconhecimento, mas outros como Leopoldo Fróes ficara-me aquecidos. Além disso, teatros históricos, que ajudaram a formar artistas e plateias caíram no esquecimento ou suas histórias foram minimizadas em expressões como “comédia de Trianon” – em referência a um dos teatros mais movimentados da capital nacional na época e que teve muito mais do que comédias em seus cartazes. Para muitos jovens, a expressão “teatro de revista” nem faz sentido, mas foi um movimento expoente nas suas exibições “críticas, cômicas e musicadas dos acontecimentos do ano” e ao longo do tempo ganhou o formato mais famoso com coristas, coreografais e músicas. Mas, talvez o grande legado dessa arte foi criar e/ou popularizar expressões que usamos até hoje como forrobodó, etc. e tal, tim-tim por tim-tim.

 

Uma das grandes características da década de 1920 no Rio são as muitas novidades para as mulheres: os cortes de cabelo à la garçonne e os vestidos com bainhas mais altas, que deixavam as nucas e canelas femininas de fora – uma loucura. Mas a grande revolução acontece para lá da moda. Muitas mulheres já se destacavam na sociedade carioca, como a escritora Julia Lopes de Almeida (cujo marido foi aceito na Academia Brasileira de Letras como em compensação a ela – que como mulher não poderia entrar), a mecenas Laurinda Santos Lobo e a jornalista Emília Bandeira de Mello (mais conhecida pelos pseudônimos de Júlio de Castro e Carmem Dolores). Todas elas já carregavam bandeiras feministas e se colocavam em papeis de protagonismo ao circularem pelos principais espaços da capital em pé de igualdade com seus maridos (quando não com mais prestígio que eles).

Julia Lopes de Almeida

E por falar em grandes revoluções sociais, seria impossível passar pelos anos 20 e por Metrópole à Beira-Mar sem falar da criação do ritmo que hoje conhecemos como samba, um movimento liderado por Sinhô. Os primeiros anos do século XX viram o nascimento das modas, as mudanças no maxixe e as influências internacionais que aos poucos foram se misturando até chegar no bairro da Estácio, casa dos primeiros bambas e compositores do que hoje são reconhecidos como os primeiros sambas. Influenciados pela música e através da vontade de se destacar, os ranchos – que podem ser comparados a enormes blocos de carnaval que desfilavam com carros enfeitados – evoluiriam para as escolas de samba, mais organizadas, temáticas, e já trazendo as tradicionais baianas. Ruy Castro descreve que a primeira ala das baianas foi composta por homens com vestimentas tradicionais que escondiam suas navalhas (arma de preferência da época) por baixo dos babados só para “garantir que nada aconteceria”. A pioneira escola de samba, “Deixa Falar”, fez questão de se denominar “escola de samba” simplesmente para se diferenciar dos ranchos. E tudo isso sonorizado pela invenção dos surdos, tamborins e cuícas.

Como falei na abertura desta resenha, a narrativa de Ruy Castro é inevitavelmente recheada de famosos que viriam a dar seus nomes a diversos espaços público na cidade. Talvez a maior habilidade deste livro é trazer tantos personagens relevantes sem atropelar a história da própria cidade, que a final de contas, é a protagonista deste livro. Mas é impossível negar que a história da cidade é escrita pelas mãos de homens e mulheres que fizeram do Rio o que é. Como Lima Barreto, um escritor brilhante, alcoólatra, negro e preconceituoso, crítico ferrenho da modernidade que avassalava o Rio, mas apaixonado pela cidade. Ou Heitor Villa-Lobos, um exímio contador de histórias, tão fantasiosas que era impossível separar a verdade da imaginação (incluindo sua data de nascimento, que poderia ser qualquer ano entre 1881 e 1887 segundo seus documentos).Quantas pessoas sabem que o Cardeal Arcoverde fica na história da cidade por ler liderado a procissão que desceu com a imagem de S. Sebastião – padroeiro da cidade – do Morro do Castelo para que este fosse demolido e desse espaço para os pavilhões da Exposição Internacional do Centenário da Independência e posteriormente aos arranha-céus? Sim cariocas, havia um morro no meio do que hoje é o Castelo, e cujas terras deram origem ao aterro do Flamengo – pasmem.

Por sinal, o ano do centenário da independência – 1922 – foi de grandes ebulições políticas que influenciariam bastante a história da cidade e do país: é fundado o partido comunista do Brasil no mesmo ano que nasce o Centro D. Vital – uma instituição que visava retomar a força da Igreja, da direita, da moral e dos bons costumes. Esta última, ganha certa influência no governo e impõe uma forma censura contra livros considerados pornográficos. Nada mais eram do que obras descrevendo o sexo e o adultério que já existiam por todas as esquinas da cidade. Para quem não se lembra, 1922 também é o ano do massacre aos 18 do Forte (que segundo relatos nunca foram 18), na tentativa de derrubar a política do café com leite. Uma mudança política que viria a cavalo oito anos depois.

A década de 1920 realmente não deixou nada a desejar, e revolucionou até os esportes. Os clubes de futebol e remo, que já existiam antes, se proliferaram, se organizaram em ligas, se profissionalizaram e caíram no gosto de todos os públicos. As mulheres ganhavam cada vez mais espaço: poetisas, como Gilka Machado, estrearam nas letras com temáticas sensuais, falando de desejo sem pudor. As educadoras levantaram suas vozes, por exemplo, Leolinda Daltro lutou contra a educação indígena pela religião e fundou o primeiro partido dedicado à mulher (mesmo que essas só viriam a ter direito a voto em 1932). E quem sabia que Cecília Meirelles, poeta famosa, também teve atuação crucial em batalhas educacionais? Também foi a década das ciências: aposto que poucos sabem que Albert Einstein e Marie Curie vieram ao Rio em 1925 e 26 respectivamente para apresentar suas teorias e conversar com cientistas brasileiros. E eu descobri lendo este livro que que Antoine de Saint-Exupéry (autor de o Pequeno Príncipe) visitava o Brasil com certa frequência quando trabalhava como piloto da Compagnie Generale Aeropostale (empresa de correio aéreo).

Comitiva de Marie Curie no Rio de Janeiro

Por mais que Ruy Castro se dedique a contar muitas narrativas esquecidas ou desconhecidas, não poderia faltar na história da cidade momentos que entraram para a História, com letra maiúscula mesmo, como o nascimento do jornal mais famoso do país (o Globo), a construção do Cristo Redentor, o desenvolvimento do rádio, o surgimento de Carmem Miranda, dentre tantos outros nomes que ainda conhecemos e com o quais convivemos até hoje, 100 anos depois.

Metrópole à Beira-Mar se dispõe a contar a década de 1920 no Rio de Janeiro, e cumpre seu papel com graça, leveza e uma infinidade de detalhes históricos, frutos de um trabalho incessável de pesquisa. Definitivamente não é uma leitura leve e blasé, mas também não é essa a proposta. Eu recomendo a leitura a todos que, como eu, amam conhecer detalhes das esquinas da cidade, entender o que fizeram tantos homens e mulheres para merecer ter seus nomes nas ruas da cidade, e acima de tudo, para lembrar que mais do que História, as cidades têm alma.

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