Lembro que certa vez vi em algum lugar alguém falando que “o Brasil é tão, mais tão colonizado, que a gente acha super normal falar português”. De início achei curioso, pois de fato a língua de um país se perde. Isso vale de exemplo para vários outros lugares do mundo, México fala espanhol, Nigéria fala inglês e a Costa do Marfim fala francês. Quando peguei a fantasia “Babel” para le,r não esperava que fosse me trazer uma reflexão nesse sentido.

No texto de hoje vou falar sobre como tive contato com a autora R F Kuang e fazer uma breve resenha do livro Babel e como achei genial o subtítulo chamado “ou a necessidade da violência”. Vamos lá.

 

Kuang

Nos últimos anos existe um fenômeno no TikTok no qual se estimula os seus usuários a lerem mais. Vários livros de diferentes gêneros fazem sucesso por lá, Seja o livro de fantasia com leves toques de autoajuda “Biblioteca da Meia noite”, os novos clássicos romances brasileiros, como “Tudo é rio” e “Coreografia do Adeus” , ou até os romances coreanos, como “Amêndoas”, e as fantasia fantásticas, como a trilogia da “Guerra da Papoula”

A rede social, que para muitas pessoas é conhecida como “a das dancinhas”, atualmente é uma das grandes estimuladores da leitura entre os jovens. A própria plataforma se entende como uma estimuladora dos estudos, sendo a leitura uma dessas formas. Nos últimos anos é uma das patrocinadoras da Bienal, tendo em destaques em algumas livrarias o chamado “sucesso do tiktok”.

Essa introdução é importante pois é nesse contexto que conheço a autora R F Kunag. De acordo com a sua editora oficial do Brasil, a Intrínseca, Kuang é escritora, tradutora de mandarim e bolsista da Marshall Scholarship. Mestre em Filosofia na área de Estudos Chineses por Cambridge e em Estudos Chineses Contemporâneos por Oxford, atualmente cursa o doutorado em Literatura e Línguas do Leste da Ásia em Yale.

(imagem 1 autora R F Kuanag fonte link)

Conheci a autora por meio do TikTok e já procurei o seu primeiro sucesso por lá, a chamada Guerra da Papoula, o primeiro livro de uma trilogia espetacular. Esses livros mostram um universo ficcional em que uma guerra que ocorreu no passado é o principal meio econômico do país.

O medo de que uma guerra do passado possa assolar o presente e de como as novas gerações estão se preparando para lidar com as consequências desse possível novo conflito é o que dita a trilogia da Guerra da Papoula. No decorrer dos livros é trabalhado desde a perda da inocência, genocídio, até a influência de agentes externos. Muitos dos temas abordados nessa trilogia, a autora traz de volta em Babel.

 

Babel

Em Babel entramos em um mundo muito próximo do nosso, para ser específico Oxford, Inglaterra, 1836. Porém a história começa em Cantão, na China, onde um jovem garoto e sua mãe estão à beira da morte, até que um homem misterioso aparece salvando o menino com um espécie de mágica e o traz para Inglaterra, mas sob uma condição, essa criança deverá se dedicar ao estudo das línguas e, futuramente, ingressar na Universidade de Oxford, onde está localizado o Real Instituto de Tradução, um prédio de oito andares chamado de Babel.

Assim conhecemos Robin Swift e a sua jornada de amadurecimento, curiosidade, descoberta de afetos, propósitos de vida e morte, consciência de classe e a necessidade da violência.

O sistema mágico criado por Kuang baseia-se em barras de prata que, quando são escritas com palavras semelhantes em línguas diferentes, em cada lado da barra, a magia realiza ao manifesta exatamente aquilo que se perde na tradução, ou seja, aquela lacuna entre o significado real da palavra original e o significado aproximado da palavra traduzida. 

Trazendo a explicação do blog Roendo Livros 

O fato é que, para ser capaz de utilizar essa magia, a pessoa precisa ser falante das línguas impressas na prata. Não basta ler a palavra, nem mesmo conhecer a língua superficialmente. É necessário ser fluente e ter total domínio da língua. Por isso, os estudantes de Babel costumam ser estrangeiros que passam boa parte do seu tempo estudando diferentes línguas para serem capazes de produzir barras de prata mágicas.

Esse tipo de magia dá uma vantagem política para a Inglaterra, o único país que possui essa tecnologia. Aqui entra a questão principal do livro, o que países colonizadores fazem com um mundo onde se tem vantagem perante outros países.

A magia desse universo é irônica, pois para que ela exista é necessário o conhecimento dos aspectos culturais do outro, além de sua linguagem, porém aqueles que a usam o fazem para acabar com a cultura dos outros. Aqui volto para o início do texto: Brasil é tão colonizado que achamos normal falar português.

Agora pensem o quão violento foi esse processo de apagamento cultural na história do país para chegarmos aqui falando português. Mas esse é um tema que já trago de volta.

Nosso personagem, Robin Swift, consegue entrar na faculdade, faz belas amizades, descobre por meio delas o amor, que talvez para época da história não seja tão convencional, viaja por países, conhece línguas e culturas diferentes. Tem contato com o bom e ruim que o conhecimento pode trazer.

(imagem 2 capa do livro Babel mais aproximada mostrando o prédio onde acontece parte da historia)

Aqui entra o conflito interno entre o conforto que a universidade pode lhe fornecer na Inglaterra, um país no qual ele sempre será de fora, e uma luta justa, pois o conhecimento produzido dentro da universidade é usado para acabar com as suas raízes culturais. 

Não pretendo aprofundar mais nos spoilers da história, ela é gigante por si só. Para dar uma de crítico literário, tem muitos elementos da trilogia Guerra da Papoula que aqui se repetem, e caso você seja um leitor atento da Kunag vai perceber os mesmos padrões se repetindo, algo que não é bom nem ruim apenas repetido.

É um livro longo, com uma leitura que pode ser bastante densa, mas talvez seja daqueles que precisamos estar muito tempo próximos para sentir tudo o que os personagens sentem. Principalmente entender o subtítulo do livro “a necessidade da violência”.

 

A necessidade da violência

Uma imagem que vem marcando bastante esse ano foi a de um protesto indígena, ocorrido no  primeiro dia do Seminário Técnico sobre a Ferrogrão no âmbito do Grupo de Trabalho (GT) do Ministério dos Transportes, em Santarém, oeste do Pará, com representantes do governo do Estado. Lá estava sendo discutido um projeto a partir do qual se pretende construir uma ferrovia em meio à floresta.

O protesto chamou bastante atenção, pois o líder indígena da tribo kumaruara passou tinta vermelha urucum no rosto dos defensores do projeto. A cena é violenta e sem um contexto pode parecer exagerada, mas em um mundo onde a população originária vem sendo negligenciada, talvez essas formas de protesto sejam a única saída para chamar atenção pro que vem ocorrendo nos últimos anos.

De acordo com o autor do protesto, João Kumaruara:

Os impactos desse empreendimento afetarão diretamente não apenas as aldeias indígenas que residem na região, como os povos Munduruku e Kayapó Paranã, mas também acarretarão danos significativos à fauna e flora local. Manifestamo-nos contra esse plano que ameaça o Rio Tapajós, onde diversas aldeias, incluindo a minha, estão situadas. Como povos originários da floresta, defendemos incansavelmente nosso território, pois sem ele não há vida nem preservação da nossa cultura. Exigimos respeito pelos nossos corpos e pelos nossos territórios.

Nesse contexto que trago o livro Babel de volta com o seu subtítulo “ou a necessidade da violência”, durante muito tempo acreditamos estar em uma certa civilidade, porém essa só é possível devido a exploração e exclusão de pessoas. Sendo essa uma das interpretações do filme US (2019) dirigido por Jordan Peele, uma sociedade que se estrutura enquanto outra é deixada de lado.   

No livro de Kuang, a violência necessária não é especificamente contra a população, mas sim contra uma estrutura de poder, que, trazendo para o mundo real, reflete até os dias atuais. As veias da América Latina continuam abertas. 

Em Babel, mesmo usando da ferramenta da fantasia e sendo estruturada nos dias passados, os temas abordados refletem a atualidade, principalmente em um pensamento anticapitalista. Talvez essa seja a função da literatura em um mundo à beira de um colapso.

 

Informações adicionais.    

Tradução: Marina Varga

Páginas: 592

Gênero: Fantasia

Vencedor dos prêmios Nebula e Locus

Leituras complementares. 

BookTok e o incentivo à leitura no TikTok

https://periodicos.ufpb.br/ojs/index.php/tematica/article/view/64157/36038

Como TikTok está transformando jovens em leitores e autores em best-sellers

https://www.bbc.com/portuguese/articles/cek5e5mr3pdo

Roendo Livros crítica Babel

https://www.roendolivros.com.br/2024/04/babel-de-r-f-kuang-magia-traducao-e.html

Protesto indigena

https://g1.globo.com/pa/santarem-regiao/noticia/2024/05/08/indigena-kumaruara-passa-tinta-de-urucum-no-rosto-de-defensores-da-ferrograo-em-sinal-de-protesto-video.ghtml

Informações sobre o livro

https://intrinseca.com.br/blog/2024/05/babel-como-traduzir-uma-fantasia-sobre-traducao/

https://intrinseca.com.br/livro/babel-ou-a-necessidade-de-violencia/