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Raiva em herbívoros. E eu com isso?

por em 09/09/2019 em Ciência, Notícias | Nenhum comentário

Raiva em herbívoros. E eu com isso?

Lá vamos falar sobre a doença Raiva novamente. Dessa vez vou aqui escrever um pouco mais sobre os morcegos e os herbívoros.

Desde o mês de julho, estamos passando por um foco de raiva em herbívoros no município vizinho ao meu, Nova Brasilândia d’Oeste-Rondônia. Herbívoros são os animais que se alimentam de vegetais exclusivamente e nesse caso, refiro-me aos bovinos e equinos das propriedades rurais dessa região.

A notificação de morte desses animais ocorreu no começo de julho. Quando há suspeita de Raiva, seja por mudança de comportamento do animal (sinais nervosos) ou mesmo por morte súbita, ao acionar o sistema de Defesa Sanitária, é realizada a coleta do cerebro, cerebelo e medula do animal morto para pesquisa do vírus rábico nesse material. É uma corrente de trabalho para que esse material saia daqui do interior de Rondônia e chegue ao Laboratório oficial (aqui está a lista de laboratórios oficiais) , na temperatura refrigerada de forma correta para a realização do exame. Simultaneamente encaminhamos as pessoas que tiveram contato com os animais doentes para os postos de saúde para as medidas necessárias que devem ser avaliadas caso a caso. Quem não leu o primeiro texto sobre Raiva, olha ele aqui. E também tem esse Spin!

Repare nos dentinhos CENTRALIZADOS! Não tem nada de dente de “vampiro”

Ao chegar ao laboratório são realizados dois testes simultaneamente, a imunofluorenscência direta (I.D) e a prova biológica. Resumidamente, na I.D. você consegue observar rapidamente o vírus da Raiva no tecido nervoso. Como contra-prova, também é realizada a prova biológica que é inocular esse tecido em um camundongo e observar se o animalzinho desenvolve a doença. Sobre todos esses procedimentos, leia esse link.

Positivo no primeiro exame, já temos a resposta enviada com urgência para que tomemos as devidas medidas necessárias.

  1. Notificar a Secretaria Municipal de Saúde da ocorrência do foco
  2. Atuar dentro do foco com notificação de todos os produtores rurais para que realizem a vacinação de seus rebanhos
  3. Fazer a captura de morcegos na propriedade que está sendo atacada
  4. Procurar abrigos de morcegos na região.

Parece uma situação simples, porém segue aqui a ideia:

  1. Ao notificar a Secretaria Municipal de Saúde, essa deve organizar suas equipes para que se intensifique a vacinação de cães e gatos dessa região. Além disso, devem encaminhar e ACOMPANHAR todas as pessoas que entraram em contato com os animais doentes até o final do tratamento;
  2. Em relação ao foco em si: A área de foco tem um raio de 12 quilometros ao redor da propriedade onde houve os óbitos dos animais. Essa medida é feita devido a capacidade de deslocamento dos morcegos, que abrange em média tudo isso! Ou seja, TODOS os produtores rurais que estão dentro dessa área de foco devem ser individualmente notificados para que realizem a vacinação compulsória do seu rebanho e façam o reforço após 30 dias. Todas essas ações devem ser realizadas de forma muito rápida para que haja a proteção devida dos animais. Nesse caso daqui, a propriedade pegou uma região muito populosa com pequenas propriedades rurais, abrangendo 3 municípios diferentes;
  3. A captura de morcegos baseia-se na armação de redes de neblina ao redor da área onde os animais herbívoros estão sendo atacados, para tentar capturar os morcegos. Isso deve ser realizado à noite, com todo cuidado para não capturar outros animais. É importante identificar os morcegos corretamente (só as 3 espécies de morcegos hematófagos são importantes nesse caso. As outras DEVEM ser liberadas sem maiores ações). Os morcegos hematófagos capturados devem ser “tratados” com pasta vampiricida e liberados para que carreguem essa pasta para suas tocas. Essa pasta provoca a morte de até 7 morcegos quando eles entram em contato com ela.
  4. A busca e cadastro os abrigos dos morcegos hematófagos (os que se alimentam de sangue) tem que ser feita por equipes devidamente treinadas e equipadas para tal função, mesmo assim, não é um procedimento fácil de ser realizado pois, Amazônia, né!?! Tem desde manilha de concreto para escoar água, até cavernas, passando por oco de arvores e afins. Imagina com toda essa queimada, destruição de habitats desses animais, como não ficará ainda mais complicado.

SUA ATENÇÃO AQUI, POR FAVOR: As pastas vampiricidas são produtos extremamente tóxicos para todos os animais e tem sua venda controlada. O seu uso serve APENAS para morcegos hematófagos. NÃO FUNCIONA PARA OUTROS TIPOS DE MORCGOS.

Lembrando que MATAR ANIMAIS DA FAUNA BRASILEIRA É CRIME!

Obrigada pela atenção. Voltando…

Bom, vocês acompanharam comigo até aqui todo o básico do procedimento após o foco ter sido identificado.

A vacinação contra a Raiva em herbívoros, na maioria das regiões do país, não é obrigatória. Mas veja bem, o preço de uma dose da vacina de Raiva para herbívoros é no máximo 90 centavos aqui na região. Se você tem um rebanho de 100 animais, vai gastar 180 reais (a primeira e a segunda dose da vacina). Um bezerro tem o valor de mercado, vamos colocar um valor baixo aqui, 750 reais. UM BEZERRO.

Se esse animal for mordido por um morcego com o vírus da Raiva, ele irá a óbito. E para um pecuarista que visa o lucro, não é um bom negócio, certo?

Para uma pessoa que tem sua criação e trata com todo amor e carinho, é desolador ver seu animal morrer sem poder fazer nada.

Você, como contribuinte que paga seus impostos, imagina o custo operacional para atender a um foco!

Então, como estamos acostumados aqui no Portal Deviante, vacinação é coisa linda desse Universo e evita um monte de transtornos e despesas. Além disso, PRESERVA A VIDA DOS ANIMAIS E AS NOSSAS TAMBÉM! Não se esqueçam que a raiva é uma zoonose que MATA!

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