Escrevi essa história há quase dez anos, sou muito fã do gênero cyberpunk. Na época, eu tinha uma outra visão de mundo, as coisas mudaram na atualidade, então essa história também precisa se adaptar mantendo a sua essência.

Estamos no ano 2125. Com uma taxa de natalidade menor que 1 filho por casal, algumas famílias menos favorecidas chegam a combinar suas poupanças para ter uma criança, a fim de evitar que seus sobrenomes sumam dos registros da humanidade.

O clima ficou extremo: os polos congelaram, deixando o norte do Canadá, Groenlândia, Escandinávia e a Sibéria completamente desabitados. As regiões e as cidades próximas ao Equador viraram desertos com poucos humanos morando ali.

Os Estados Unidos se dividiram culturalmente com a formação dos Estados Livres do Leste, União do Sul, Federação do Texas e Federação da Califórnia, além dos Estados Unidos do Norte e Alaska. A Oceania foi ocupada por ricos e poderosos, um verdadeiro oásis natural sem poluição e superprotegido; eles se chamaram de “Inalcançáveis”.

Foram semanas para montar uma boa equipe. Ivan teve muito trabalho para formar um grupo razoavelmente equipado. Acabou gastando muitos recursos e agora precisava fazer grana.

Lee foi um dos primeiros a se juntar, porém Ivan não confiava muito no asiático. De poucas palavras, Lee seria capaz de matar qualquer um em segundos. Era um cara experiente, devia ter feito muito serviço sujo para sua antiga corporação. Ivan tinha presenciado a capacidade de Lee; é necessário ter alguém com tanto talento, mesmo sendo um cara visivelmente perigoso e cobrando tão pouco.

O Chris também era experiente, tinha vários contatos com vagabundos e ex-colegas. Era um cara útil. Ninguém sabia por que ele saíra de lá, e ele não gostava nada de falar dos tempos na polícia. Era o único do grupo com cyber implantes visíveis: uma parte da testa, a mão direita que tentava esconder e a perna direita totalmente robótica. Será que isso tudo foi pelo tempo na polícia? Se precisassem de equipamento novo, poderiam procurá-lo, ou então o “A”. Este esteve envolvido em muita negociata e tinha acesso ao mercado negro. Foi ele quem procurou Ivan para fazer parte da equipe. Como conseguiu essa informação? Por que Ivan? Ou será que precisava de proteção e veio se esconder? Já o Fred parecia ser mais confiável, responsável pelo equipamento e suprimentos.

Como a grana estava no fim, Ivan recorreu ao resto. Dois deles eram verdadeiros “faz-tudo”, mas insistiam em alcançar a fama cantando à noite; a dupla recebeu o apelido de “Canários”. E havia a tropa de frente: eram bravos e pouco inteligentes, obedeciam às ordens sem questionar e sabiam atirar — o básico necessário. Eram Edu, Zeh e Tow.

Não demorou muito para que “A” conseguisse um contrato interessante. Alguém de uma corporação queria ferrar com o esquema de um diretor; provavelmente queria o cargo e o negócio para ele. O contratante desejava que Ivan se livrasse do alvo. As informações diziam que havia três seguranças armados dando proteção 24 horas. O alvo seguia a mesma rotina diariamente, usando vias mais seguras para chegar e voltar da empresa. Não seria um trabalho tão complicado definir o local da emboscada; a questão era decidir como executar.

Após algumas semanas, o dia da operação chegou. Fred ficou próximo do trabalho do alvo para informar sua saída. O prédio principal da DT2A tinha uns 50 andares, era colossal para a cidade, um dos maiores; deveriam existir uns 150 seguranças só para o prédio. Existiam boatos de um subsolo com mais cinco andares onde funcionava o laboratório de desenvolvimento tecnológico da empresa. O foco da DT2A era fornecer robôs de limpeza e trabalhos repetitivos em geral. Seus produtos eram um sucesso nacional e começavam a avançar no mercado mundial. Uma aventura perigosa que requeria muita proteção para executivos e informações confidenciais. Provavelmente os responsáveis pelo desenvolvimento de novas soluções eram bem monitorados pela empresa, afinal, entrar no mercado mundial requer autorização dos Inalcançáveis. Nesse dia, o alvo demorou duas horas a mais para sair.

Antes de escurecer, uns vagabundos no local da operação tentaram atacar os Canários, mas Tow, Zeh e Edu conseguiram dar cabo dos desgraçados. Como eram estabanados, conseguiram chamar atenção. Tiveram que sumir do local, pois em alguns minutos a polícia apareceu para recolher os corpos e fazer perguntas.

Acreditando numa mudança de rota, Ivan pediu para que Chris e os Canários ficassem onde estavam. Caso o alvo fizesse o caminho planejado, os três trapalhões, junto com Ivan e Lee, se reagrupariam esperando a confirmação da rota. A informação voa nesta cidade: o carro do alvo mudou realmente sua rota. Fred acompanhava de longe com sua moto e, de perto, com dois microrrobôs.

Houve alguma discussão entre ele, Ivan e Chris para a definição do novo local do ataque. Fred pediu um pouco mais de tempo, e foram mais alguns minutos para traçar a provável rota definida pelos seguranças, considerando os caminhos mais seguros até a casa do alvo. Um ponto foi definido como melhor local para o ataque; todos tinham quatro minutos para chegar lá. Chris e os Canários não conseguiriam chegar a tempo. O restante partiu em direção ao local indicado, cruzaram as ruas de moto ganhando xingamentos e às vezes acertando algumas pessoas. Quando chegaram, tinham trinta segundos para se preparar.

Assim, Ivan e Lee foram para o outro lado da rua e ficaram um pouco mais à frente. Quando o carro do alvo apontou na rua, o trio estava bem escondido; algumas pessoas que tinham notado a ação haviam se dispersado, outras observavam atentamente de lugares seguros. Quando o carro alcançou o local indicado, foi acertado com uma rajada de PEM, fazendo ele parar metros à frente. Vários disparos foram feitos; os pneus duplos furados obrigaram o motorista a encostar do lado de um posto, mas o sistema de segurança do carro não levaria mais que quarenta segundos para se recuperar. O trio buscou abrigo esperando um revide, assim os seguranças decidiram sair e abrir fogo. Lee desistiu de lançar dentro do carro uma granada de fumaça. O primeiro a cair foi um segurança do lado do motorista. Dois deles tentavam proteger seu contratante e todos usavam submetralhadoras. Zeh também acabou atingido e foi ao chão. Do outro lado do carro, o alvo tentou sair atirando, mas levou um balaço de Lee, executando o contrato. Ivan também derrubou outro, restando apenas um. O segurança não se entregava: aproveitando uma das portas abertas, jogou sua granada de fumaça e saiu pelo fundo do carro, mas Tow não deu chance e queimou o cara.

Fred apareceu quando a confusão terminou e cruzou com várias pessoas que fugiam dali. O cenário era de diversos prédios marcados à bala, várias janelas quebradas ao fundo e duas pessoas, pegas no fogo cruzado, no chão sem reação — provavelmente mortas. Alguns curiosos observavam, talvez tentando descobrir quem realizou a ação; isso poderia valer alguma coisa no futuro ou garantir a morte deles também, por isso o cuidado de encobrir as identidades. Fred antecipou que não havia relatos da polícia sobre o incidente, mas seria bom fugir. Seus microrrobôs foram destruídos na troca de tiros. As redes de notícias ainda não relatavam nada, mas as primeiras postagens começavam a surgir. Esse tipo de acontecimento era mel para os jornalistas, mesmo acontecendo de cinco a seis vezes por dia. A notícia insistentemente distribuída atualmente, porém, era o casamento da filha do dono da empresa Alfa Transportes com um dos filhos de uma grande indústria do aço. Então chegam Tow e Edu com Zeh carregado; o tolo estava inconsciente.