Imagem em destaque: Terra Brasilis (1519): Detalhe do Atlas Miller que ilustra o território brasileiro no início do século XVI. A imagem destaca o encontro cultural e econômico através da extração do pau-brasil pelos povos indígenas, cercados pela rica biodiversidade da Mata Atlântica e caravelas portuguesas na costa.

Por vezes imaginamos o Brasil como sendo, desde o início, o Brasil que conhecemos. É um erro comum de perspectiva histórica que, às vezes, acaba sendo cometido até por quem é versado em História. Trata-se do famoso anacronismo: observar um fato passado com o olhar da contemporaneidade, desprezando experiências pessoais e visões de mundo próprias da época estudada.

Em se tratando de História do Brasil, temos excelentes historiadores que se debruçam sobre a compreensão do que foi nosso país quando era apenas um território pertencente a Portugal. Mesmo após a independência, no século XIX, o Brasil continuou tendo particularidades sociais, culturais, econômicas e até naturais típicas desse “pedaço de chão”. Para dar conta disso, existem extensas pesquisas que nos revelam esses aspectos.

Dentre nossos historiadores — com foco naqueles cujos trabalhos romperam o hermetismo da academia —, podemos citar os clássicos de Sérgio Buarque de Holanda (Raízes do Brasil), Gilberto Freyre (Casa-Grande & Senzala), Caio Prado Jr. (Formação do Brasil Contemporâneo) e Boris Fausto (História do Brasil), que exploram a formação social e política do país. Figuras contemporâneas como Lilia Moritz Schwarcz (Brasil: Uma Biografia, com Heloisa Starling), Laura de Mello e Souza (O Diabo e a Terra de Santa Cruz) e José Murilo de Carvalho (Os Bestializados) focam na cidadania e política. E também temos especialistas como Mary del Priore (Histórias da Gente Brasileira) e Luiz Felipe de Alencastro (O Trato dos Viventes).

Não podemos esquecer os grandes nomes dos séculos XIX e XX, dos quais se destacam Francisco Adolfo de Varnhagen — considerado o “Pai da História do Brasil” e autor da primeira grande síntese histórica do país — e Capistrano de Abreu, que nos trouxe uma visão mais aprofundada e crítica da formação brasileira. Claro que nomes importantes estão ficando de fora dessa já extensa lista, mas a ideia é demonstrar que a historiografia brasileira é farta em mentes brilhantes que analisaram, sob diversos pontos de vista, o que foi e o que se tornou o nosso Brasil Varonil! As obras citadas não contemplam toda a produção desses mestres, já que me limitei a livros com os quais tive contato na academia e fora dela.

 

OS CRONISTAS

Fortaleza de São Sebastião, 1613, por Franz Post.

Poderíamos incluir nessa lista de “cronistas” aqueles que, apesar de não serem exatamente historiadores, deixaram, para as gerações futuras, diversas visões da vida brasileira em outras épocas através de suas obras literárias, musicais, cênicas e visuais. No entanto, nesse caso, a lista seria realmente gigante.

O que eu gostaria de destacar aqui são aqueles que observaram, pensaram e registraram o Brasil através de relatos que, se não são obras historiográficas stricto sensu, dão base para que a historiografia os transforme em valiosas fontes de informação de quem pôde registrar os acontecimentos em primeiríssima mão. Estou me referindo aos cronistas da vida brasileira, principalmente aqueles que perambularam por aqui no período colonial. Estes personagens produziram documentos históricos fundamentais para a compreensão contemporânea do que foi o Brasil Colonial. Falaremos sobre os mais importantes em breve; por ora, preciso abrir um parênteses necessário.

 

O DOCUMENTO HISTÓRICO


Da esquerda para a direita: Pijama usado por Getúlio Vargas no momento de seu suicídio e o revolver utilizado; o “Abaporu” de Tarsila do Amaral; Carta de Pero Vaz de Caminha – Exemplos de documentos históricos. (Museu da República/Arquivo Nacional Torre do Tombo/Divulgação).

A frase “toda história é história contemporânea” é uma tese historiográfica popularizada por pensadores como Benedetto Croce e Eric Hobsbawm. Ela significa que o passado nunca é estudado de forma neutra; ele é sempre interpretado e ressignificado a partir dos interesses, problemas e perspectivas do presente. A argamassa para a construção da compreensão histórica é o documento histórico, entendendo-se por “documento” não só a produção escrita, mas todo e qualquer material que sirva para que o historiador compreenda aspectos de sociedades pretéritas.

A partir desse material, o historiador infere compreensões sobre o passado que serão convertidas em conhecimento após o devido tratamento científico: observação de um fenômeno, questionamento, formulação de hipóteses, experimentação (análise de fontes), análise de resultados e, por fim, a divulgação para a comunidade científica e revisão por pares. A verificação desses documentos é possível com o auxílio de ciências de suporte, como a Antropologia, a Arqueologia e a Sociologia. Mesmo seguindo o método científico, a produção histórica não é totalmente imparcial, sofrendo a influência do pensamento de quem escreve, o que torna as teses de Croce e Hobsbawm importantes alertas ao pesquisador.

 

OS NOSSOS OBSERVADORES DO PASSADO

O registro de fatos e costumes de quem vive um determinado período, junto aos documentos já mencionados, é fundamental para a compreensão da sociedade da época. Essa importância existe desde o estudo dos primeiros grupamentos humanos que, apesar de não deixarem textos, nos brindaram com marcas gráficas e arqueológicas. Da mesma forma, as primeiras civilizações anotaram o dia a dia em registros contábeis e relatos de emissários.

Há, porém, uma preocupação que o historiador deve ter: se esses registros foram produzidos “organicamente” ou se houve a intenção de projetar uma impressão específica que não reflete a realidade ou o contexto da época. Um bom exemplo é a “construção” de uma história do Brasil tendo São Paulo como centro civilizatório, produzida por pesquisadores ligados ao IHGB (Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro), fundado em 1839 e apoiado por Dom Pedro II.

No Brasil Colônia, graças aos diários, relatórios e cartas, temos visões que nos permitem inferir o que foi a vida nos séculos XVI, XVII e XVIII. Dentre os desbravadores, destacam-se os Jesuítas, que chegaram nos primeiros momentos da colonização e permaneceram até serem expulsos por decreto do Marquês de Pombal em 1759.

Antonil descreve em seu importante livro as dinâmicas da sociedade canavieira, que já foi tema do Scicast.

Ignorando a cronologia, destaco o trabalho magistral do jesuíta André João Antonil (João Antônio Andreoni). Nascido em Lucca, em 1649, Andreoni veio ao Brasil convencido pelo Padre  Antônio Vieira. Em seu livro Cultura e Opulência do Brasil por suas Drogas e Minas (1711), ele apresenta notícias minuciosas sobre o açúcar, o tabaco e a mineração. A obra foi tão detalhada que a Coroa Portuguesa a proibiu e recolheu os exemplares, temendo que as informações facilitassem a cobiça de potências estrangeiras como França e Holanda.


Capa de uma das edições brasileiras do livro de Hans Staden “Duas Viagens ao Brasil”. Fonte: Editora L&PM.

Outro cronista essencial é o alemão Hans Staden. Capturado pelos tupinambás no século XVI, ele viveu nove meses como refém. Em seu relato, conta como escapou de um ritual antropofágico e, ao retornar à Europa, publicou Duas Viagens ao Brasil (1557), obra que se tornou um “best-seller” da época devido ao interesse europeu pelo Novo Mundo.

Frei Vicente de Salvador (1564–1635), considerado “o primeiro historiador nascido no Brasil”. Como não existem retratos feitos em vida de Frei Vicente de Salvador (que viveu entre os séculos XVI e XVII), a imagem que conhecemos é uma reconstituição artística posterior. A autoria é atribuída a José de Oliveira Moraes. Foi pintada em 1903. O quadro faz parte do acervo do Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro.

Mencionamos também o Frei Vicente do Salvador (1564-1636), considerado o primeiro historiador nascido no Brasil. Sua História do Brasil narra desde o início da colonização até a expulsão dos neerlandeses.

Capa de uma edição contemporânea do famoso tratado de Fernão Cardim. Fonte: Apple Books.

Além dele, outro jesuíta, Fernão Cardim (1549-1625), deixou tratados valiosos sobre a gente e a terra, embora sua obra só tenha sido publicada em conjunto em 1925.

Gabriel Soares de Souza (1540-1591), português de Ribatejo, chegou no Brasil entre 1565 e 1569, foi colono agrícola, evoluiu a senhor de engenho e, rico, fez-se vereador da Câmara de Salvador e Homem Bom e Honesto, título de nobreza dos bem-sucedidos na Colônia.

Um outro importante cronista, porém pouco conhecido, é Gabriel Soares de Sousa. Foi vereador, senhor de engenho da Bahia, nascido em Portugal em 1540 e morto em 1591. Escreveu dois manuscritos que seriam publicados no século XIX sob o título Tratado Descriptivo do Brasil. Também escreveu alguns Capítulos contra os jesuítas. Suas obras foram pesquisadas e trazidas à luz pelo historiador Francisco Adolfo de Varnhagen.

 

Capa do Tratado da Terra do Brasil de Pero de Magalhães Gândavo. A gravura representa a famosa lenda da Ipupiara, relatada por ele no livro. Fonte: Apple Books.

Por fim, cabe destacar Pero de Magalhães Gândavo, um erudito humanista que conviveu com Camões. Em sua História da Província de Santa Cruz (1576), Gândavo defendeu o nome original da terra, associando-o ao sentido religioso da colonização e combatendo o nome “Brasil”, que remetia ao comércio do pau-brasil.

 

SOBRE O TRABALHO DOS NOSSOS CRONISTAS

Ao analisar esses cronistas, é vital manter uma visão crítica. Seus relatos refletem o preconceito da época: muitas vezes viam os indígenas como obstáculos ao progresso ou seres “selvagens” e enxergavam a natureza apenas como recurso a ser explorado. No entanto, esses textos são a “janela” que temos para o passado. Entender esses relatos é como abrir um álbum de família e identificar os traumas e afetos que moldaram quem somos hoje. Felizmente, a maioria dessas obras está em domínio público e acessível a todos.

Tenho quase certeza de que deixei muita gente importante de fora. Portanto, se você, nobre leitor, lembrar de mais algum cronista de peso da nossa História, contribua aí nos comentários!

Um grande abraço a todos e até a próxima!

 

REFERÊNCIAS

FRANÇA, Jean Marcel Carvalho. A construção do Brasil na literatura de viagens dos séculos XVI, XVII e XVIII. Rio de Janeiro: José Olympio/ São Paulo: Unesp, 2012.

MELLO E SOUZA, Laura de. O nome do Brasil. Revista de História, n. 145, 2001.

MONTEIRO, John Manuel. Unidade, diversidade e a invenção dos índios: entre Gabriel Soares de Sousa e Francisco Adolfo Varnhagen. Revista de História, n. 149, 2003.

Para saber mais – Links e referências culturais:

Scicast:

Livros:
Livros disponíveis na Amazon com o tema História do Brasil Colonial (Alguns deles com a versão para o Kindle gratuita!) – https://abre.ai/ovib