Neste feriado de Natal, estávamos eu e minha família em um sítio no interior de São Paulo, em Holambra, conhecida como a Cidade das Flores. Eu estava viajando a trabalho na véspera de Natal e meu irmão, noiva e filha já haviam ido aproveitar antes de mim.

Quando cheguei ao local, para minha surpresa, estavam os três muito felizes na piscina, mas completamente queimados de sol. Realmente, havia recebido um comunicado da Defesa Civil referente a uma onda de calor que estava se instalando no Sudeste brasileiro, mas observar os efeitos de perto foi curioso.

Ao procurar mais sobre o clima nesse período que passaríamos no sítio, me deparei com um índice interessante. No dia em que estou escrevendo este artigo, o indicador de clima aponta um índice UV nível 13, classificado como “Extremo”. Mas o que isso quer dizer na prática?

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o índice UV solar mundial, ou IUV, é uma medida da intensidade de radiação UV emitida pelo Sol na superfície da Terra e sua capacidade de causar lesões na pele. Serve, principalmente, como protocolo-base para ações de proteção quanto à exposição solar. O próprio site da OMS disponibiliza uma tabela muito fofa das ações a serem tomadas frente ao índice UV. O IUV, em si, consiste em uma escala de 0 a 11, podendo até ter valores maiores que 11, mas com significado clínico semelhante.

Entre 0 e 2,9, o índice é baixo (cor verde). Nesse caso, o perigo dos raios UV é reduzido, sendo indicado uso de óculos de sol em dias claros e uso de protetor 30+ para pessoas que se queimam facilmente.

Entre 3 e 5,9, o IUV passa a ser moderado (cor amarela). Nesse nível, é recomendado ficar na sombra perto do meio-dia, com uso de roupa protetora do sol, chapéus com abas largas e óculos escuros se estiver ao ar livre, reaplicando protetor solar a cada duas horas, ou depois de nadar ou suar.

De 6 a 7,9, o índice é considerado alto (cor laranja). Agora tornam-se imperativas as ações de proteção à pele e olhos, com indicações de redução de exposição ao sol entre 10h e 16h.

Entre 8 e 10,9, o nível é muito alto (cor vermelha). Mesmo exposições menores que uma hora com esse nível de UV podem gerar queimaduras graves.

Já para valores acima de 11, o IUV é extremo (cor violeta). Nesse ponto, o risco — com perdão do pleonasmo — é considerado extremo para a pele e os olhos, podendo ocorrer queimaduras graves em menos de 30 minutos de exposição.

 

O dia referido por este artigo estava no auge do IUV 13. Com esta realidade, faremos um estudo de caso com base nos nossos amigos, pois eles não se atentaram aos alertas e tomaram sol durante o dia inteiro. Este artigo não endossa nenhuma prática referida, mas utilizarei os efeitos das ações para melhor conscientização e análise das consequências de exposição de três etnias diferentes em condições semelhantes.

Por total coincidência, minha filha, minha noiva e meu irmão são de três etnias diferentes e os três, de forma irresponsável, se expuseram às condições relatadas anteriormente. Vamos começar pela minha filha. Ela, assim como eu, é negra de pele retinta. Antes da exposição, ela havia usado protetor solar FPS 30 e não renovou o uso depois de entrar na piscina. Com isso, o resultado de reação da pele dela foi o seguinte:

Como visto, houve um bronzeamento leve, com marca de reação restrita à área do biquíni.

Indo para nosso segundo caso, minha noiva. Ela, por sua vez, é de ascendência indígena tupinambá, da região de São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas. Ela também fez uso de protetor solar FPS 30, e o resultado foi o seguinte:

A reação da pele dela tendeu a um tom mais avermelhado, somente na área exposta ao sol, com a região inferior do braço mantendo-se na mesma tonalidade original.

Em seguida, temos o meu irmão, claramente o mais irresponsável. Ele se expôs ao sol com IUV 13, sem proteção solar nem cobertura física, e o resultado foi o seguinte:

Observa-se uma inflamação acentuada, com quatro sinais flogísticos expressos de forma contundente: rubor, dor, calor e edema.

Certo, certo. Podemos xingá-los e chamá-los de irresponsáveis cabeças de melão? Sim, podemos. Mas antes disso, vamos conferir o que temos na literatura acadêmica sobre isso.

Um estudo denominado “Conscientização, compreensão, uso e impacto do índice UV: Uma revisão sistemática de mais de duas décadas de pesquisa internacional”, de 2019, observou que a conscientização sobre o IUV varia entre países e regiões, além do baixíssimo uso do índice para promoção de comportamento de segurança solar pelas entidades públicas.

Quando foi desenvolvido em 1992, no Canadá, o IUV buscava exatamente aumentar a conscientização do público para a proteção solar e os efeitos deletérios da exposição. Nesta revisão sistemática, observou-se que, infelizmente, a implementação do IUV não resultou numa melhoria da proteção solar nem na redução da exposição.

Outro estudo de 2024, mais recente, realizou uma revisão sistemática com meta-análise, buscando observar efeitos parecidos com o primeiro estudo. Verificou-se que o país com maior nível de conscientização do IUV é a Austrália, com mais de 90% dos participantes do estudo conhecendo o índice. Supõe-se que seja muito por conta da alta prevalência de câncer de pele nesta região, sendo um dos países com maiores taxas de melanoma do mundo.

Apesar da notícia animadora da Austrália, o estudo faz questão de separar a conscientização do uso ativo do IUV, que seria a disseminação desta escala em nível público por meio de mídias de massa e redes sociais. Quanto ao uso ativo, todas as regiões estudadas estão com níveis baixos ou inexistentes de aplicação deste método, apesar de seu estabelecimento como norma ouro pela OMS por pelo menos 30 anos, desde sua proposição global.

Vivemos num país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza, já dizia Jorge Ben Jor. A região próxima à Linha do Equador apresenta muitos desafios, sendo um deles a necessidade de disseminação do índice UV, buscando maiores níveis de proteção solar durante a vida. Hoje, o câncer de pele no Brasil é o mais incidente dentre os tumores malignos, com cerca de 30% dos casos, segundo o INCA. Com a falta de uma política mais incisiva do sistema público em promover o cuidado e a atenção preconizados pelo IUV, o brasileiro médio, como visto em nossos modelos, conta muito com a heterogeneidade da matriz populacional como fator protetivo, pois, se não fosse por isso, talvez nossa situação fosse ainda pior.

Aproveite o verão e use protetor solar! Siga as orientações do índice UV!

 

Referências:

Mapa de índice UV – tempo.com | Meteored

The UV index sun protection table

Heckman, Carolyn J., Katherine Liang, and Mary Riley. “Awareness, understanding, use, and impact of the UV index: a systematic review of over two decades of international research.” Preventive medicine 123 (2019): 71-83.

CORRÊA, Marcelo de Paula. Índice ultravioleta: Avaliações e aplicações. 2003. Tese (Doutorado) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2003. . Acesso em: 26 dez. 2025.

Kaiser, Isabelle, et al. “The extent of public awareness and use of the Global Solar UV Index as a worldwide health promotion instrument to improve sun protection: A systematic review and meta‐analysis.” Photochemistry and Photobiology 101.3 (2025): 636-659.

https://www.gov.br/inca/pt-br/assuntos/noticias/2022/inca-estima-704-mil-casos-de-cancer-por-ano-no-brasil-ate-2025