É público e notório que vivemos numa sociedade altamente tecnológica, na qual a quantidade de conhecimentos acumulados pela humanidade dobra em questão de poucos anos — muito diferente do que acontecia há cem ou duzentos anos.

Isto tende a gerar um ambiente multicultural, sem fronteiras e imprevisível, em que as certezas absolutas perderam e perdem sua razão de ser, bem como as antigas fórmulas de resolução de problemas não mais se verificam com a exatidão tamanha com a qual se verificavam — num passado não muito distante.

Ao mesmo tempo, o processo tecnológico trouxe consigo um grande temor, vindo da excessiva mecanização da sociedade. Contudo, hoje parece cada vez mais claro e evidente que o computador e o celular (símbolos máximos da automação) podem ser “humanizados”.

É bem verdade que esta tecnologia, ao ser usada no setor produtivo da sociedade, pode gerar desemprego e novas regras na relação entre capital e trabalho. Todavia, a tônica desta discussão passa pela maneira como humano e tecnologia se relacionam e interagem na construção de trabalhos e processos educativos, e não pelo impacto social decorrente do uso destes recursos.

Descrição da imagem: um desenho representando a clássica sequência da evolução humana, encerrando-se em uma pessoa com a cabeça de @ e um notebook saindo voando.

 

Nesta perspectiva, o ensino da História deve estar atento para as mudanças advindas dessa nova realidade, possibilitando ao educando ser capaz de compreender, de ser crítico, de poder ler o que se passa no mundo, qualificando-o para ser, dentro deste processo, um cidadão pleno, consciente e preparado para as novas relações trabalhistas. Para que isto aconteça, a atividade de ensinar deve estar em sintonia com o nosso tempo.

“Oxigenar” a prática docente. Talvez seja esse o grande triunfo das novas tecnologias que se apresentam à educação. Entre elas, destaca-se o papel desenvolvido pela Educação à Distância.

Contrariando os tradicionais modelos de transmissão do saber – que ainda insistem em se autodenominar “modernos” – os novos modelos – dos quais a Educação à Distância faz parte – tendem a ser se firmar como abordagens mais democráticas, flexíveis e dialéticas, especialmente a partir de 2020. Isso ocasiona um rompimento do monopólio do saber escolástico, acadêmico e formal, ou seja, a escola não é mais a detentora absoluta do saber, bem como o professor deixa de ser o único baluarte máximo do conhecimento humano. Reflexos de uma educação pós-pandemia?

Essa nova conjuntura confere a oportunidade do(a) estudante seguir seu próprio caminho, ser o construtor e o maior responsável pela aquisição contínua do conhecimento que ele próprio julga necessário obter. Entretanto, o professor precisa se adequar às novas regras do jogo, ou seja, precisa achar uma nova maneira e estratégia de readquirir sua importância – e este processo, naturalmente, não estará livre de estranhamentos iniciais, acidentes de percursos, erros, acertos, derrotas, vitórias, resistências, etc.

Importante ressaltar que o interesse e motivação dos educandos aumentam sempre quando eles se tornam responsáveis pelo seu próprio processo de estudo. O ensino ativo permite que o(a) estudante desenvolva a sua capacidade de ser crítico, de se expressar, de questionar, de criar e de ter uma autodisciplina nas tarefas, contribuindo para que da atividade individual parta para a construção coletiva.

A metodologia ativa nesse contexto aplica-se também ao ensino de História que, ao pautar-se nas contribuições da Escola dos Annales, por exemplo — cuja preocupação para com a aprendizagem reside nas experiências vividas pelas pessoas —, valoriza a reflexão sobre o cotidiano, a sobrevivência, os prazeres e os patrimônios culturais.

Cada estudante poderá perceber como esse cotidiano é um espaço de múltiplos projetos, lutas e disputas entre os indivíduos. Estaremos, portanto, falando de um ensino não mais ligado aos grandes acontecimentos, nomes, datas e heróis, mas sim de um ensino onde seja considerada a pessoa no seu dia a dia, criando, dessa forma, condições para o(a) educando(a) se situar na história como um agente construtor do processo histórico.

Apesar da manutenção de um ensino ainda centrado em uma perspectiva conservadora e positivista da História, temos a possibilidade não só de contestar e romper com esta lógica estabelecida, mas, também, de propor mudanças de concepções que devem vir não só do professor, como da História, dos indivíduos, da sociedade e da prática pedagógica.

Estas mudanças podem acontecer com o uso das novas tecnologias, pois a multimídia como forma de comunicação, a rede mundial de computadores, como veículo, e a Educação à Distância como meio, têm a propriedade de democratizar as informações e de atingir comunidades maiores. Além disso, estas tecnologias vêm contribuindo decisivamente para a superação das distâncias geográficas no mundo, ao mesmo tempo em que aumenta, substancialmente, o interesse e a possibilidade de educar através da interação entre o emissor e o receptor, tornando o processo ativo em permanente diálogo.

Vejamos um exemplo:

Aprender história ficou mais fácil: já está disponível na Internet o portal do Centro de Pesquisa e Documentação de História (CPDoc) da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Os pesquisadores colocaram disponíveis na rede informações sobre um milhão de documentos provenientes de arquivos pessoais de políticos e homens públicos – como Getúlio Vargas, Tancredo Neves, Juscelino Kubitschek e Ulisses Guimarães. Também inseriram no site 35 mil fotos, entrevistas com personalidades e verbetes do Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro. O acesso ao endereço http://www.cpdoc.fgv.br é gratuito. De acordo com a diretora do CPDoc, Marieta de Moraes Ferreira, “o objetivo é conquistar um público novo, de gente que se interessa pela história contemporânea do Brasil mas não é pesquisador ou historiador. O portal pode ser uma ótima ferramenta de aprendizado”, afirma. Para facilitar as consultas, o portal tem um link intitulado Fatos e imagens, que oferece 200 pequenos resumos de fatos importantes da vida brasileira dos últimos 50 anos, ilustrados por 300 fotografias. Por esse link, atualizado mensalmente, é possível, por exemplo, descobrir o que foi o movimento tenentista, como começou o Estado Novo ou quem foram os articuladores da Proclamação da República. Os técnicos da FGV desenvolveram um software que permite o acesso a documentos tão diversos como cartas, discursos, memorandos, fotos e vídeos. Com isso, é possível, por exemplo, consultar on line os bilhetes escritos pelo líder comunista Luiz Carlos Prestes ou pelo ex-presidente Jânio Quadros.

Descrição da imagem: meme baseado na obra de arte “Amor Desarmado” modificada, na qual há uma mulher segurando um alien pelos braços. Pode-se ler, na imagem “Me segura que estou louco para estudar história”.

Enfim, considerando os novos horizontes que se encontram, aos poucos, delineando e tomando forma, precisamos realizar um esforço conjunto a fim de conferir novos sentidos às práticas educativas. Ao mesmo tempo, é necessário realizar uma revisão profunda nos atuais processos de aquisição do conhecimento humano.

Os professores precisam sair de uma posição defensiva, partindo para uma fase de autocrítica e de reconstrução de sua proposta pedagógica. Este, deve assumir seu papel de agente histórico de transformação da realidade educacional, articulando a realidade social mais ampla.

Assim, se realmente buscamos meios de adaptar a educação aos meios tecnológicos disponíveis — e que se encontram incessantemente surgindo — devemos ser capazes de, primeiramente, criar novas diretrizes e práticas capazes de promover novas significações em nossos atuais processos e modelos de transmissão do conhecimento, bem como compreender e conferir flexibilidade às novas relações interpessoais que derivarão destas transformações originadas.

Renovar o conteúdo programático curricular já desgastado e enfraquecido frente às realidades atuais é uma necessidade mais do que urgente. Até mesmo o mercado de trabalho demonstra mudanças drásticas, exigindo currículos mais flexíveis, que permitam a aquisição do conhecimento individual e independente, desafiando a filosofia educacional predominante.

Necessário se faz lançar mão de tecnologias educacionais que ultrapassem os meios de comunicação, ampliando assim a possibilidade da educação ativa, onde a função professor e aluno é ampliada, é repensada. A Educação à Distância é peça-chave para tanto, pois com ela  o educando vai deixar de ser anônimo, podendo verbalizar sua posição sem receio de ser punido.

Descrição da imagem: meme da fantástica fábrica de chocolate com o personagem Willy Wonka interpretado por Gene Wilder e a frase “Então vc faz humanas conte-me… não, não me conte, vc não sabe contar”.

 

Para saber mais:

CUNHA, Maria Isabel da. O Bom Professor e Sua Prática. 2 ed. Campinas, SP, Papirus Editora, 1992.

CRUZ, Marília Beatriz Azevedo. In: NIKITIUK, Sônia L. (org.) Repensando o ensino de História. São Paulo, Cortez, 1996.

FONSECA, Selva Guimarães. Caminhos da História Ensinada. Campinas, SP, Papirus, 1993.

GRAMSCI, Antônio. Concepção Dialética da História. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1978.

MICELI, Paulo. In: MORAIS, Regis de (org.). Sala de Aula: que espaço é esse? 7 ed. Campinas, SP, Papirus, 1994.

NUNES, Silma do Carmo. Concepções de Mundo no Ensino de História. São Paulo, Papirus, 1996.

ROCHA, Ubiratan. “Reconstruindo a História a partir do imaginário do aluno”. In: NIKITIUK, S.L (org.). Repensando o Ensino de História. São Paulo, Cortez, 1996.

SAVIANI, Dermeval. Educação e Questões da Atualidade, São Paulo, Cortez, 1991.

SILVA, Marcos A. da. História: o prazer em ensino e pesquisa. Brasiliense, São Paulo, 1995.