A Guerra da Coréia (1950-53) foi um dos conflitos mais difíceis de analisar de forma imparcial, pelo menos no Ocidente, durante um bom tempo. Sem cobertura jornalística tão eficiente e independente — como a que surgiria alguns anos depois —, o conflito foi narrado via “mão única”. Sua inconclusão e os aspectos políticos e ideológicos envolvidos, fizeram com que objetividade e clareza ficassem em segundo plano durante décadas. Com o final (?) da Guerra Fria e a comparação de dados, outras conclusões foram obtidas.

Longe de ser um conflito popular, como a luta contra o nazismo, esta contenda, travada no Oriente distante e sob condições severas, foi uma luta inglória para ambos os lados: custou muitas vidas, muitos recursos e terminou num impasse que perdura até hoje. Tanto a Coréia do Norte como a do Sul estiveram perto da vitória em um ou outro ponto dos três anos de conflito. Ambos terminaram como começaram, com a linha divisória da nação rompida cruzando pouco acima do paralelo 38.

Duas Coreias, relíquia da Guerra Fria-www.declaracao1948.com.br

Se a guerra no chão foi ingrata, difícil e impopular — não houve um movimento civil de vulto contra a guerra nos EUA, muito devido ao clima anticomunista da Guerra Fria e ao apoio inicial do público à intervenção da ONU; no entanto, protestos e ações de grupos pacifistas contrários ao envolvimento americano e à guerra em si foram registrados — a propaganda de guerra tratou de enfatizar os combates aéreos e as grandes vitórias americanas nos céus coreanos.

Convenhamos, tal prática não chegara a ser uma novidade: na Primeira Guerra Mundial, diante de impasse parecido em terra, falava-se muito dos primeiros duelos aéreos e da fama de seus pilotos. Na Coréia, a coisa não funcionou tão bem, mas ficou na memória ocidental que, se o conflito em terra acabou em um empate, os céus coreanos pertenciam aos Sabres americanos.

Mas, essa “mão única”… foi tão única assim?

A imagem de F-86 Sabres voando tranquilamente e destruindo os Mikoyan-Gurevich – MiG-15  soviéticos foi muito difundida em filmes hollywoodianos e até em biografias oficiais, sem falar nos livros didáticos. Falava-se que os pilotos americanos haviam abatido 8, 9 ou mesmo 10 MiG para cada Sabre perdido. Desde os anos 1980, no entanto, as mesmas fontes americanas reconhecem que o número de MiG supostamente destruídos (792, oficialmente) é mais do dobro do número de aviões russos realmente derrubados naquele conflito. Observadores de outros países concordam que a proporção correta de vitórias seria a de 4 MiG para cada Sabre. Esse já seria um escore invejável, mas até hoje persiste a lenda “à la Top Gun”.

DCS: Mig-15bis Vs F-86 Sabre | Korean War 1950-1953

Em primeiro lugar, é sempre indicado vislumbrar a contextualização histórica da época: logo após o final da Segunda Grande Guerra, os EUA apareceram como os grandes vencedores do conflito. Não tiveram seu país bombardeado e sua indústria cresceu muito durante àquele período. A Europa, antiga potência, estava totalmente arrasada. Os americanos, entre outros aliados, capturaram uma grande quantidade de projetos experimentais da Alemanha, Itália e Japão, além de cientistasquem já ouviu o SciCast #330 – A Conquista da Lua – Parte 1 conhece a “Operação PaperClip”. Pretensamente, tinham razão para crer que detinham uma tecnologia muito superior a da sua rival, a União Soviética. Afinal de contas, esta tivera mais de 20 milhões de mortos e boa parte de sua porção europeia estava destruída.

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Ao que parece, os americanos também acreditaram quando os alemães relataram que os aviões da União Soviética eram tecnicamente muito inferiores e que somente tinham vencido a guerra na base da quantidade.

Nas primeiras fases do conflito, quando os norte-coreanos usaram apenas os obsoletos Yakovlev Yak-9 e os Lavotchkin La-9, isso parecia confirmar essa hipótese. “Céu de brigadeiro”, certo? Nem tanto.

Pode-se imaginar o choque das forças da ONU quando se depararam com os caças MiG-15. O novo avião era mais avançado do que qualquer coisa que os EUA tinham na Coréia.

O impacto psicológico foi considerável: nem mesmo o envio do mais sofisticado avião americano, o F-86 Sabre, conseguiu inverter a vantagem tecnológica. O MiG-15 era ligeiramente superior ao F-86. Os americanos tiveram que engolir a dura realidade de que não estavam tão superiores assim no mundo.

Para não perder a pose, lançaram uma campanha de vitórias para fazer acreditar que possuíam completo controle dos céus coreanos e que seus sucessos eram a prova de que o avião soviético era muito inferior.

BP1284 - Air War Korea - North Star Military Figures

Observadores neutros dividem suas opiniões, mas quase todos aceitam que os dois aviões eram muito parecidos e que o fator humano é que alterou a balança. Os pilotos americanos eram muitíssimo bem treinados e vários deles eram veteranos da Segunda Guerra Mundial. Os comunistas chineses eram muito jovens e sem o devido número de horas em caças a jato. Uns poucos voluntários russos, com grande experiência, apareceram em combate e deram muito trabalho aos yankees: os próprios americanos relatavam a presença de alguns aviadores extremamente hábeis, que eram encarados com grande respeito. Nessas horas ninguém falava da superioridade do Sabre.

Quase todas as publicações americanas da época narravam o enorme número de carros de combate, pontes, fábricas, trens, locomotivas e tropas salvas pelos heroicos ases indomáveis da AméricaShow Business at War!

Mas, porém, todavia, contudo, no entanto e entretanto, a sensação de derrota moral, ao final da refrega, não seria expurgada. A maior nação do mundo — com a ajuda de aliados —, não conseguiu seu objetivo: reunir as duas Coreias. Pior, descobriu que seu adversário vermelho tinha armas quase tão sofisticadas quanto ao seu melhor material.

A longo prazo, apesar das enormes perdas, de certa forma o bloco socialista saiu com ânimo “lá em cima” frente ao primeiro conflito travado com as potências do bloco capitalista. Conseguiram evitar a reunificação dos dois países sob o comando de Seul, mesmo com toda a desvantagem que desfrutavam em termos tecnológicos e de preparo de tropas.

As duras lições aprendidas no dispendioso combate não foram bem apreendidas. Os americanos voltariam a cometer esse erro no Vietnã e pagariam caro por isso. A longo prazo, a Guerra da Coréia provocou uma corrida armamentista que duraria décadas, cada bloco tentando superar o outro em tecnologia. Seria necessário um outro conflito armado para que ambos os lados verificassem que só isso não seria necessário para ganhar. Os americanos teriam que amargar no Vietnã e o russos, no Afeganistão.

North American F-86 Sabre MiG 15 War Plane Aviation Art Print Darryl Legg - Picture 1 of 1

Vale a pena lembrar:  Tanto o F-86 quanto o MiG-15 eram oponentes formidáveis ​​em combate aéreo e se equiparavam em muitos aspectos. O F-86 tinha velocidade máxima e alcance mais altos que o MiG-15, mas o MiG-15 era uma aeronave mais leve e ágil, com teto de voo mais alto e motor mais potente. Certamente, soviéticos e norte-coreanos ficaram tão abismados quanto os americanos ao se depararem com o desempenho da arma do inimigo. No fim das contas, o resultado de qualquer confronto entre essas duas aeronaves dependeria da habilidade e das táticas dos pilotos, das condições da batalha e das configurações específicas das aeronaves. É melhor um avião razoável com pilotos ótimos do que pilotos razoáveis em aviões superiores.

Sugestão de leitura:

CADEAU, Ivan. A guerra esquecida: Coreia (1950-1953). In: HECHT, Emmanuel; SERVENT, Pierre. O século de sangue: 1914-2014 – As vinte guerras que mudaram o mundo. São Paulo: Contexto, 2015.

DILDY, Douglas C; THOMPSON, Warren E. F-86 Sabre vs MiG-15: Korea: 1950-53. Oxford: Osprey Publishing, 2013. (Duel Book 50)

DUARTE, Erico. A guerra entre China e Estados Unidos na Coreia: da escalada às negociações de cessar-fogo. Curitiba: Appris Editora, 2019.

LAI, Benjamin; GUOXING, Zhao. Ground Forces in the Korean War 1950-53 (1). Oxford: Osprey Publishing, 2024. (Man-at-Arms v. 560)

MACKOWIAK, Robert C. Ground Forces in the Korean War 1950-53 (2). Oxford: Osprey Publishing, 2025. (Man-at-Arms v. 561)

MALKASIAN, Carter. The Korean War: 1950-1953. Oxford: Osprey Publishing, 2001.

NAPIER, Michael. Korean Air War: Sabres, MiGs and Meteors – 1950-53. Oxford: Osprey Publishing, 2021. (Essential Histories)

SANDLER, Stanley. A Guerra da Coreia: nem vencedores, nem vencidos. Rio de Janeiro: BIBLIEx, 2018.

THOMAS, Nigel; ABBOTT, Peter. The Korean War – 1950-1953. Oxford: Osprey Publishing, 1986. (Man-at-Arms v. 174)

TORKUNOV, Anatoly. The War in Korea – 1950-1953: It’s origin, bloodshed and conclusion. Tokyo: ICF Publishers, 2000.

 

Sugestão de vídeo:

Trailer “The Hunters”

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