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La Dansarina – Uma saga em meio à pandemia

por em 16/06/2020 em Entretenimento, Notícias | Nenhum comentário

La Dansarina – Uma saga em meio à pandemia

A resenha de hoje é do livro de história em quadrinhos: “La Dansarina”, publicado pelo selo Jupati Books da Marsupial Editora. O roteiro é de Lillo Parra e as ilustrações de Jefferson Costa. A obra venceu o Troféu HQ Mix nas categorias Melhor Edição Especial Nacional e Melhor Roteirista.

Na história central, acompanhamos a peregrinação de Petro, um garoto de 12 anos, atravessando a cidade de São Paulo carregando o corpo da mãe, para enterrar na Capela de São Miguel Arcanjo. A história se passa no meio da pandemia da Gripe Espanhola em 1918/1919, e a jornada é motivada pelo desespero do garoto ao ver o corpo da mãe, acometida pela doença, aguardando mais de 3 dias sem ser removido pelo serviço funerário saturado devido ao surto. Petro faz questão de realizar ele mesmo o enterro, e escolhe fazê-lo na Capela de São Miguel Arcanjo, santo anjo de quem a mãe era devota, na distante Vila de São Miguel.

A história ainda intercala cenas de 2010 e nos faz refletir sobre a vida como jornada e a morte como transição, apresentando visões do catolicismo e da umbanda. Ao longo da narrativa, a HQ explora temas como religiosidade, ritos, tradições, cultura popular e misticismo. Esses elementos não só permeiam o enredo, como são incrivelmente representados através das ilustrações expressivas de Jefferson Costa.

Outro detalhe relevante da obra é a representação do Brasil de 1918. “La Dansarina” é apresentada chegando ao Brasil em um porto de Salvador e passando pelas ruas da capital da república, o Rio de Janeiro, onde até o presidente Rodrigues Alves, reeleito para seu segundo mandato, se torna uma das vítimas da espanhola antes de reassumir o cargo enquanto subestimava a força da gripezinha.

Mas é em São Paulo onde a história central se passa. A saga do protagonista se inicia em um cortiço no bairro do Cambuci, na região central da cidade, e segue em direção a São Miguel Paulista, atravessando uma Zona Leste ainda rural (antes dos loteamentos e do boom desenvolvimentista da cidade das décadas de 50, 60 e 70). Figuras típicas da população paulistana da época vão se integrando à história, como os caipiras, os ex-escravos e descendentes, os imigrantes europeus (o próprio Petro é filho de espanhóis) e os recém-chegados imigrantes japoneses (que se estabeleceriam em colônias nas fazendas de Itaquera por esse período), bem como referências regionais, como o Rio Tietê (que, se pegarem, os levaria de volta ao centro), o Rio Jacu (que leva a São Miguel, atualmente identificada pela Avenida Jacu-Pêssego) e a Capela de São Miguel Arcanjo (um dos símbolos do atual bairro de São Miguel Paulista, tombado pelo IPHAN).

Outro fator que ajuda muito na fluidez da história é a linguagem escolhida para os personagens. Lillo Parra ousou deixar de lado a língua ortograficamente culta nas falas dos personagens e conseguiu algo que não é fácil na leitura escrita: ele foi capaz de transmitir com palavras os trejeitos e os sotaques dos seus personagens. Conseguimos ouvir até seus tons de vozes e as cadências de suas falas. Lillo e Jeff foram capazes de nos fazer sentir a presença de cada personagem.

Ao final do livro, no melhor estilo “Escudo do Mestre”, Lillo Parra abaixa o escudo e revela seu processo criativo, as imensas dificuldades que surgiram, a parceria com Jefferson Costa e a inspiração nascida lá nos finais dos anos 70 até a publicação em 2015.

Na última década, o Brasil tem visto florescer seu mercado de graphic novels, com lançamentos tanto por grandes editoras, quanto, e principalmente, pelas menores, além de inúmeras publicações independentes. Temos uma grande geração de artistas brasileiros produzindo obras fantásticas e que merecem o nosso apoio e os nossos olhares. Além de nos presentear com grandes histórias, tais quais livros de outras partes do mundo também são capazes de fornecer, as obras nacionais ainda conseguem explorar os elementos únicos da nossa cultura que não encontraremos nas publicações mundiais mainstream. E no meio dessa farta fonte que é o mercado nacional de quadrinhos, não é exagero nenhum afirmar que La Dansarina é uma das melhores obras que você vai ler!

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