Pontos de Ruptura:

Temos como hábito, no estudo da História, observar com mais ênfase os acontecimentos pontuais, que muitas vezes entram para o senso comum como eventos “game change”, uma virada de jogo definitiva. Isso acontece com os ditos “marcos históricos” usados para dividir as idades históricas (tipo a queda do Império Romano para separar a antiguidade da idade média, a tomada de Constantinopla, para separar a idade média da idade moderna, etc.).

Acontece que esses eventos não se deram da noite para o dia e a mudança de uma época para outra não foi pontual. Foram processos de longa duração, durante aos quais existiram permanências e rupturas simultâneas.

Longas Rupturas

Podemos pegar como exemplo para isso a questão do pensamento iluminista. Herdeiro de um processo de longa duração (pelo menos três séculos) que entrou para a História como “Renascimento” (que por sua vez já se coloca como herdeiro da Antiguidade Clássica). O Iluminismo teve o seu processo de consolidação nos séculos XVIII e XIX.

Jacques Le Goff nos fala de uma “longa idade média”, indo da queda do Império Romano até a Revolução Industrial, ou seja: do século IV até o século XVIII, na qual a quebra da hegemonia da Igreja Católica e o desenvolvimento do humanismo, do racionalismo e do pensamento liberal (além, é claro, da ascensão econômica da burguesia) culminaram com a consolidação do Iluminismo como base de formação das sociedades a partir daí.

Mas, afinal, o que seria o Iluminismo? Bem, vamos à História. O iluminismo foi um movimento intelectual que surgiu na Europa, no século XVIII, e defendia a valorização da razão como forma de garantir o progresso da humanidade. Questionou os valores sociais e os símbolos de autoridade em sua época, como a religião e o absolutismo, e defendia novos modelos econômicos. Entre os principais pensadores iluministas podemos citar John Locke, Jean Jacques Rousseau e Voltaire.

Consolidação do Iluminismo

O principal foco do iluminismo, em sua época, foi a crítica ao poder absoluto dos monarcas, legitimado pela Igreja Católica como sendo um direito divino. Os iluministas tinham como base do seu pensamento a noção de que todos os homens nascem iguais. Defendiam também um pensamento laico, independente das doutrinas religiosas, mesmo reforçando a liberdade de crença; pregavam a razão como principal forma de mediação nas relações sociais e o liberalismo econômico e político. Esse ideário foi o pontapé inicial na mentalidade atual, que privilegia a consciência individual e autônoma.

O desenvolvimento do pensamento iluminista está intimamente ligado à consolidação da burguesia enquanto classe social rica e poderosa capaz de rivalizar com a monarquia. Não por acaso, a discussão da economia sob o Iluminismo deu base para o estabelecimento do sistema capitalista conforme temos hoje vigorando: economias liberais apoiadas na livre iniciativa e em acúmulo de capitais.

Podemos ponderar, então, que vivemos em um mundo (pelo menos no ocidente) de base iluminista. Que Grécia Clássica? Que Período Helenístico? Que Roma Antiga, o quê? Não somos herdeiros da antiguidade clássica! A mentalidade do nosso mundo atual vem do século XVIII!

Não por acaso fica também no Século XVIII o marco inicial da nossa idade contemporânea: a Revolução Francesa!

Nossa cultura surgiu do acasalamento entre o ocidente e o oriente. Devorou as culturas nativas da América e da África para crescer, passou por uma adolescência na idade moderna e veio desembocar na contemporaneidade como uma civilização análoga a um indivíduo adulto: cheio de erros e acertos, pesos na consciência, uma capacidade intrínseca de meter o pé pelas mãos e sentado sobre uma montanha de contradições.

E, sim, isso é uma generalização! Por mais que você, indivíduo, floquinho de neve, se considere um outsider, você está com o pé lá: no Iluminismo!

“Ah! Mas o Iluminismo criou o liberalismo que deu margem para o surgimento do capitalismo e eu sou socialista…”

Mesmo? Já leu Rousseau? Dá uma verificada então! Ele é considerado um dos inspiradores do Liberalismo e também do Socialismo. Uma espécie de “proto-lacrador” já naquela época!

Em outra vertente (porque eu não posso deixar de arrumar briga com todo mundo), muito se fala que aqueles que se dizem “conservadores” no dia de hoje negam os principais valores do iluminismo. Não vejo dessa forma. Jacobinos e Girondinos sentavam na mesma assembleia iluminista no século XVIII e de lá saiu o conceito de direita x esquerda.

Creio que no ponto em que estamos enquanto sociedade, não dá para escapar.

Somos o resultado do Iluminismo?

Jogando de novo o gancho lá para a introdução do texto, quando discutíamos os processos de longa duração, temos um exemplo claro disso no Iluminismo: uma mudança que vem se processando na sociedade ocidental há, pelo menos, um quarto de milênio, passando, ela mesma, por transformações resultantes das novas dinâmicas sociais com inúmeros pontos de rupturas e permanências sobre os quais foram erigidas as bases da nossa sociedade ocidental.

Por mais que se renegue ou se declare a sua influência, é impossível não observar que o pensamento iluminista se faz presente na sociedade, para o bem ou para o mal.

Por exemplo: a questão do capitalismo, que falamos brevemente quando citamos o liberalismo, permeia toda a discussão sociológica desde o início do século XX.

Capa Original de A Ética Protestante e o “Espírito” do Capitalismo

Em seu clássico A ética protestante e o “espírito” do capitalismo (no original em alemão Die protestantische Ethik und der ‘Geist’ des Kapitalismus) Max Weber discute a relação do “novo” cristianismo, ou seja, as denominações protestantes, com a justificativa religiosa para o acúmulo de capital. Weber demonstrou nesse livro como essas novas formas de se professar o cristianismo modificaram a visão religiosa que se tinha da riqueza. Segundo as escrituras, ela não deveria ser um fim em si mesma, mas agora era considerada como uma comprovação da honestidade e da idoneidade religiosa do indivíduo.

Nunca a riqueza tinha sido vista de forma tão positiva. A partir dessa nova forma de encarar a religiosidade, a dedicação ao esporte, às artes e a outras atividades “não produtivas” eram consideradas inadequadas e dissonantes com a principal obrigação da vida: trabalhar. A religião protestante contribuiu assim para formar o moderno homem de negócios e mesmo o trabalhador dos tempos atuais: “ela fez a cama para o homem econômico moderno”.

O espírito profissional dos tempos modernos tem sua raiz na moral religiosa puritana. Em outros termos, apesar de atualmente estar apagada, a motivação religiosa está por detrás do impulso aquisitivo que está na base da conduta capitalista.

O Iluminismo não poderia deixar de considerar também esse aspecto, uma vez que a Reforma Protestante e, por consequência, essa nova forma de encarar a riqueza individual, fazem parte do processo de longa duração que desembocou na nossa sociedade contemporânea.

São muitos aspectos a serem considerados em uma discussão infinita, mas importante de se fazer nos tempos atuais. E se você acha que algo do que foi colocado aqui não se enquadra bem na reflexão que eu tentei provocar, ou se considera que alguma coisa importante foi deixada de fora, manifeste-se aqui nos comentários. Vamos estender e enriquecer essa conversa!

Abraços “iluministas” a todos!

BIBLIOGRAFIA:

LE GOFF, Jacques. Uma longa Idade Média. Rio de Janeiro: Ed. Civilização Brasileira, 1998.

SALLES, Ricardo. Nostalgia Imperial: escravidão e formação da identidade nacional no Brasil do Segundo Reinado. Rio de Janeiro: Editora Ponteio, 2013, 212p.

WEBER, Max. A ética protestante e o “espírito” do capitalismo. Antônio Flávio Pierucci (Ed.). São Paulo: Companhia das Letras, 2004.