“O material que vai revolucionar a indústria!”

Provavelmente, essa é a frase mais repetida por quem atua no mercado do grafeno. Ela projeta o potencial do material para o futuro, ou seja, para algo que ainda está por acontecer. Diante disso, cabe a pergunta: trata-se de uma utopia, de uma profecia ou apenas de uma mentira?

Na parte 1 deste texto, definimos o que é grafeno para alinhar o entendimento do que falamos. Nesta segunda parte, sempre que mencionarmos grafeno, consideraremos a ampla diversidade de materiais e formas associadas ao termo. Além disso, analisaremos o cenário de mercado e refletiremos se, de fato, esse material, dentro de um sistema que prioriza o lucro de acionistas à frente da eficiência, conseguirá atender às expectativas da sociedade.

Preço: a propriedade determinante de qualquer material

O grafeno foi sintetizado pela primeira vez na Inglaterra, em 2004, por Andre Geim e Konstantin Novoselov, feito que lhes rendeu o Prêmio Nobel de Física em 2010. O reconhecimento se deu pelo potencial de aplicação em diversas áreas da ciência e da tecnologia. Desde então, inúmeras instituições passaram a investigar formas de aplicar o grafeno em inovações e ampliar sua produção.

No entanto, uma “propriedade” fundamental para a escolha de qualquer material logo se impôs como um obstáculo ao grafeno: o alto preço. Embora tecnicamente não seja uma propriedade do material, o custo influencia diretamente as decisões de seu uso em projetos. Assim, por anos, o grafeno permaneceu restrito ao ambiente acadêmico, pois seu elevado custo não se justificava frente aos benefícios práticos.

Em certo momento, chegou a ser comercializado por cem dólares por grama ($100/g), o que afastou até os mais entusiastas. Todavia, com os avanços nas tecnologias de produção e uma melhor compreensão sobre o que realmente constitui o grafeno e seus derivados, esse valor caiu drasticamente. Atualmente, encontra-se grafeno por menos de um dólar por grama ($1,00/g). Isso reacendeu o interesse e a expectativa.

Está barato! Vamos colocar grafeno em tudo!!

Por mais exagerada que pareça, a expressão “em tudo” não está distante da realidade. Com a redução de preços e aumento de escala de produção, diversas empresas passaram a disputar espaço como fornecedoras desse insumo. Houve investimentos em plantas fabris, pesquisa, desenvolvimento e marketing, tudo para posicionar o grafeno como elemento essencial para… bem, para quê mesmo?

Segundo algumas correntes da economia, os mercados se desenvolvem a partir da existência de demandas que devem ser sanadas por ofertas. Outras defendem o caminho inverso: cria-se a oferta e, depois, surgem as demandas. Isso foge um pouco da minha alçada, e por isso não me aprofundarei, mas certamente, o grafeno se encontra neste segundo caso. Temos a solução, criamos o problema!

Naturalmente, inovações tecnológicas não devem ser vistas apenas como geradoras de problemas. Contudo, num sistema que não busca eficiência, mas sim lucro para os acionistas das empresas, as fábricas já produzem suas mercadorias com os materiais que já existem para dores já apresentadas. Nem sempre, algo disruptivo é bem-vindo, porque ele vem com custo. Afinal, para que mexer em time que está ganhando?

O grafeno chegou com a promessa de transformar o mundo que conhecemos. Mas isso é muito amplo, muito genérico, muito vazio. A lógica empresarial busca reproduzir soluções prontas, com ganhos previsíveis, a exaustão. O grafeno, um material que de certa forma nem desejado era, surgiu como uma bomba, em que prometeu tudo e não entregou nada, em que todos falavam e ninguém precisava usar. E para piorar, mesmo barato, é caro.

Restou, então, aos que apostaram na viabilização do grafeno, comprovar sua real utilidade industrial. Qual dor ele resolve? A resposta ainda é tentativa e erro. Por isso, encontramos grafeno em uma diversidade de aplicações: painéis solares e cremes dentais, sistemas de liberação de fármacos e reforços mecânicos em polímeros, lubrificantes e soluções antimicrobianas. As possibilidades parecem infinitas.

Poxa, então grafeno é só promessa?

Durante um período, sim, o grafeno não passou de promessa. No Brasil, criou-se uma expectativa elevada e, em muitos casos, irresponsável. O grafeno é um material como qualquer outro: sua utilidade depende da estrutura química, do processamento, das propriedades específicas e da aplicação.

A divulgação de que o grafeno é 200 vezes mais resistente que o aço, mais leve que qualquer material conhecido e um condutor elétrico e térmico excepcional gerou a falsa ideia de que seria capaz de substituir todos os componentes estruturais metálicos, criar superestruturas ultraleves e permitir transferências de dados em velocidades quase infinitas. Chegou como o salvador universal. Essa conversa é de tamanha incoerência que levou alguns a imaginar aplicações tridimensionais para um material bidimensional.

Esse movimento tanto alimentou quanto enfraqueceu o entusiasmo. Muitos se decepcionaram e passaram a ver o grafeno como mera jogada de marketing. Outros persistiram, conscientes de que o grafeno oferece mais do que promessas quando BEM APLICADO.

Como todo nanomaterial, o grafeno apresenta desafios. Por isso, instituições que trabalham com ele reforçaram seus departamentos de pesquisa ou suas parcerias com instituições de pesquisa. Dessa forma, a cada novo projeto, avança-se no entendimento sobre as formas mais eficazes de aplicação. Assim, cai por terra a ideia de que o grafeno resolve tudo sozinho. Na maior parte dos casos, ele funciona como reforço em uma matriz ou como parte de um sistema ou produto por inteiro.

Para aplicações viáveis existe uma série de dificuldades que devem ser sanadas, como evitar a sua aglomeração, garantir uma boa dispersão na matriz e ter uma estrutura química adequada para aplicação. De certa forma, se deu um passo para trás e se recomeçou a história do grafeno, agora no ritmo e nas possibilidades mais próximas a sua viabilização.

Eu quero um tênis com grafeno!

Surge com frequência a pergunta: onde o grafeno já está sendo usado? Um material tão promissor e tão divulgado deveria estar amplamente disponível. No entanto, como vimos, o desenvolvimento de sua compreensão e de sua aplicação ainda está em andamento, o que leva a sua presença em produtos de consumo final ser tímida.

Algumas empresas já o utilizam em seus portfólios: tênis, armamentos, rodas de empilhadeiras, tintas, lubrificantes, anticorrosivos e embalagens. Sim, são poucos exemplos. No entanto, o interesse por P&D permanece alto. Assim instituições de pesquisa e empresas constroem conjuntamente conhecimento e aplicações com ganho técnicos sólidos e comercialmente viáveis para seus produtos e serviços.

Vale destacar que o grafeno oferece também ganhos institucionais e financeiros, além dos técnicos. A mídia e os investimentos que o grafeno oferece são muito atraentes. Ao se estar vinculado ao material, a marca pode aparecer em diferentes meios de divulgação e levantar fundos de investimentos como os dos editais do FINEP. Assim, chega-se a produtos realmente inovadores, mas que o grafeno somente emprestou seu nome para viabilizá-lo.

Por fim, existe o lado contrário também. Tal como qualquer material disruptivo, manter sigilo de sua formulação é de fundamental importância para quem o desenvolveu. Assim, empresas abrem mão da mídia e dos investimentos do grafeno para garantir que seu produto seja irreprodutível e domine algum mercado. Dessa forma, em algumas aplicações, as quais não temos conhecimento, o grafeno já é uma realidade e nós certamente nos beneficiamos disso. Quem sabe seu tênis tenha grafeno e você nem saiba.


Encerramos esta série de dois textos sobre o grafeno com a constatação de que, apesar do hype, trata-se de um material com muito a oferecer. Ainda estratégico para países como o Brasil, o grafeno está em processo de consolidação. A tendência é que, com o tempo, surjam métodos confiáveis para verificar sua qualidade e presença em produtos. A partir disso, será possível construir um conhecimento sólido, distribuído e acessível sobre suas aplicações reais.