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Goethe e os nomes que damos para as nuvens

por em 21/05/2020 em Ciência, Notícias | Nenhum comentário

Goethe e os nomes que damos para as nuvens

Você sabia que as nuvens possuem nomes? E não estou falando de carneirinho, poodle, algodão e outras coisinhas fofas que nós vemos quando estamos deitados em um gramado enquanto olhamos para o céu e relaxamos.

Para falarmos sobre os nomes das nuvens, vamos precisar voltar no tempo, no comecinho do século XIX, quando um meteorologista amador inglês chamado Luke Howard decidiu que seria uma boa ideia propor um sistema de classificação de nuvens, dando nomes às nossas amigas fofinhas de acordo com sua aparência. Howard se inspirou no trabalho de Lineu, que décadas antes havia proposto o sistema de classificação biológica e que logo se popularizou dentro da comunidade científica. Nem é preciso dizer que esse sistema proposto por Lineu é usado até hoje e nós até aprendemos um pouco disso nas aulas de biologia da escola.

Howard decidiu fazer algo semelhante para descrever as nuvens. Em 1803 ele publicou o Essay on the Modification of Clouds, publicação em que ele classificou as nuvens dentro de três principais categorias: Cumulus, Stratus e Cirrus. Esses nomes usados até hoje.

Claro que nosso querido Howard não foi o primeiro a ter essa ideia de classificar nuvens. Até  Lamarck teve essa ideia e antes dele e mesmo na Antiguidade, as pessoas já tinham essa ideia de classificar as nuvens de acordo com sua aparência ou até de acordo com critérios mais subjetivos. O trabalho de Howard foi no entanto bastante criterioso, ele fez uma publicação detalhada com suas proposições e ele conseguiu a ajudinha de um amigo, como veremos daqui a pouco.

O trabalho de Howard foi aperfeiçoado ao longo dos anos e daqui a pouquinho eu conto essa história. Mas antes disso, preciso dizer quem era best friend de Howard: Goethe. Isso mesmo, queridos leitores, o cara era ‘apenas’ amigo de Johann Wolfgang von Goethe. E estou dando esse grande bom dia com o chapéu alheio (obrigada pelo chapéu, Howard) porque isso é bem importante para nossa história. Goethe gostava muito de ciências naturais, o cara era amigo de Alexander Von Humboldt também. Quando Goethe teve acesso ao trabalho de Howard, ficou encantado. Eles ainda não se conheciam. Goethe logo mandou uma cartinha para Howard, para elogiar. Howard até achou que fosse uma piada de mal gosto, como assim o famosão Goethe fala comigo?

Pois então, Goethe gostou tanto da ideia de Howard que decidiu escrever alguns poemas curtos, uma homenagem a cada tipo de nuvem que Howard descreveu. Por exemplo, para a nuvem descrita como stratus, Goethe escreveu:

When o’er the silent bosom of the sea / Quando, pelo peito silencioso do mar,
The cold mist hangs like a stretch’d canopy; / A névoa fria paira como um dossel alongado;
And the moon, mingling there her shadowy beams, / E a lua, misturando ali suas traves sombrias,
A spirit, fashioning other spirits seems; / Um espírito, formando outros espíritos parece;
We feel, in moments pure and bright as this, / Nós sentimos, em momentos puros e brilhantes como este,
The joy of innocence, the thrill of bliss. / A alegria da inocência, a emoção da felicidade.
Then towering up in the darkening mountain’s side, / Então, elevando-se no lado da montanha escura,
And spreading as it rolls its curtains wide, / E se espalhando enquanto abre as cortinas,
It mantles round the mid-way height, and there / Mantém-se à volta da altura do meio e lá
It sinks in water-drops, or soars in air. / Ela afunda em gotas de água ou sobe no ar.

Não vou reproduzir todos os poemas, pois meu colega Vinícius fez algumas traduções nesse link que eu sugiro a visita. Parece que Howard e Goethe se corresponderam por um tempo e tudo indica que Goethe, com seus poemas, ajudou na popularização do sistema de classificação de nuvens proposto por Howard.

Como eu disse anteriormente, o trabalho de Howard foi aperfeiçoado. Em 1873 foi fundada na Áustria a International Meteorological Organization (IMO). Essa instituição foi o embrião para a padronização das atividades meteorológicas a nível mundial. A IMO existiu até 1951 e foi substituída pela World Meteorological Organization (WMO), que foi fundada em 23 de março de 1950. Periodicamente a WMO publica um material chamado International Cloud Atlas (Atlas Internacional de Nuvens) e a versão mais recente desse documento (2017) pode ser consultada online. Não há uma periodicidade regular para a publicação desse documento, uma vez que a WMO faz atualizações conforme a necessidade. A versão de 2017 é inteiramente on-line e com as tecnologias atuais é possível disponibilizar quantas imagens forem necessárias para ajudar a descrever o tipo de nuvem. As imagens atuam como exemplos, para que o observador de nuvens possa comparar o que está vendo da janela de sua casa com as imagens selecionadas por especialistas.

Um dos motivos que levou a WMO a criar essa edição de 2017 é que a comunidade meteorológica estava debatendo um novo termo para classificar nuvens já há alguns anos. O termo em questão é o asperitas, para nomear nuvens com essa aparência:

Stratocumulus asperitas. Fonte: Wikimedia Commons

Isso quer dizer que nuvens com a característica asperitas nunca haviam sido observadas? Nada disso! Não é um tipo novo de nuvem, foi apenas uma maneira nova de classificar algo que os observadores meteorológicos já notavam há muito tempo. Hoje qualquer um pode fotografar o que está vendo a qualquer momento, com um smartphone qualquer um pode registrar algo “estranho” que está vendo no céu e isso não quer dizer necessariamente que não existiam coisas estranhas ou diferentes antes, significa apenas que essas coisas podem ser mais bem documentadas.

E como eu posso começar a observar nuvens? O segredo é observar bastante, fotografar se for possível e então comparar suas imagens com aquilo que está documentado no International Cloud Atlas. É trabalhoso e demora algum tempo até conseguir ter prática e identificar os dez principais gêneros das nuvens imediatamente. Para vocês terem uma ideia, alunos do curso de Bacharelado em Meteorologia (ou Bacharelado em Engenharia Meteorológica ou Bacharelado em Ciências Atmosféricas, dependendo da Universidade) aprendem sobre classificação de nuvens no primeiro ano de curso e depois acabam revendo alguma coisa quando estudam Meteorologia por Satélite. Poucos meteorologistas se dedicam a arte de observação de nuvens porque há outras inúmeras áreas de atuação. Eu me especializei nessa área porque trabalhei por 10 anos na Estação Meteorológica do IAG-USP, uma estação meteorológica onde são feitas observações visuais dos gêneros das nuvens.

E que conversa é essa de gênero de nuvem, Dona Samantha? Pois então, as nuvens são classificadas em 10 gêneros principais. A partir desses 10 gêneros, podemos falar também em espécie, variedade e características suplementares. Essa questão das espécies, variedade e características suplementares pode ser consultada nessa tabela resumida da Estação Meteorológica do IAG-USP.

Por exemplo, uma nuvem tipo Cumulus pode ser Cumulus humilis ou Cumulus congestus, dependendo de seu tamanho. Observaram que o primeiro nome é escrito em letra maiúscula (Cumulus) e o segundo – a espécie da nuvem- é em letra minúscula (humilis). Pois então, essa é a regra para nomear nuvens. Tanto humilis quanto congestus são o que chamamos de espécie. Uma nuvem pode ter apenas uma espécie, mas pode ter mais de uma variedade e mais de uma característica suplementar. Reparem que até esse padrão de maiúscula e minúscula é algo que o sistema de classificação de nuvens guarda em comum com o sistema de classificação biológica proposto por Lineu.

Algo a se destacar é que nós não traduzimos os nomes das nuvens. A nomenclatura proposta por Howard e aperfeiçoada ao longo dos anos usa nomes em latim. Portanto, se você ler por aí alguma coisa como cúmulo, cúmulo-nimbo, estrato ou cirro, saiba que está errado, tecnicamente falando. Num artigo científico não podemos usar essas traduções e elas devem ser evitadas em livros, apostilas e outros materiais didáticos.

E outra coisa que preciso destacar é que o que estou apresentando aqui é a classificação de acordo com a WMO e digo isso porque pilotos e entusiastas da aviação argumentam que usam nomes diferentes, jargões próprios dessa área e aqui não estou falando de aviação, embora evidentemente as definições se interlacem.

Para o dia a dia, posso dizer que saber apenas os 10 gêneros das nuvens já é o suficiente. Claro, se você quiser saber mais basta clicar nos links que indiquei ao longo do texto ou nos links que deixarei no finalzinho.

Continuando, esses 10 gêneros podem ser ainda separados em 3 diferentes níveis de altura ou étages:

Nuvens baixas: aquelas que possuem sua base localizada a uma altura de até 2000m. Nessa categoria temos Stratocumulus, Stratus, Cumulus e Cumulonimbus

Nuvens médias: aquelas que possuem sua base localizada a uma faixa de alturas entre 2000m e 6000m. Nessa categoria temos Nimbostratus, Altocumulus e Altostratus.

Nuvens altas: aquelas que possuem sua base localizada a alturas acima de 6000m. Nessa categoria temos Cirrus e Cirrostratus.

Agora vamos conhecer as definições de algumas das palavras que usamos para dar nomes às nuvens:

–  Cirrus (do latim para “fibra” ou “cabelo”);

– Cumulus (do latim para “amontoado” ou “pilha”);

– Stratus (adaptado do latim estrato para “camada” ou “folha”);

– Nimbus (como aparece em Cumulonimbus ou Nimbostratus): a palavra nimbus também é adaptada do latim (“nuvem”) e serve para designar nuvens que apresentam chuva;

– Alto: usado para determinar que se trata de uma nuvem média.

Eu diria que classificar nuvens é uma arte. Claro, há todo conhecimento técnico-científico, mas é necessário ser detalhista, cuidadosa e paciente para conseguir classificar uma nuvem corretamente.

E para por aí? Claro que não. Além dos 10 diferentes gêneros, há os “sobrenomes” das nuvens, como nos exemplos que dei anteriormente (Cumulus humilis e Cumulus congestus). Outro ponto a se considerar é que nesse texto eu falei das nuvens que se formam na troposfera, que é a primeira camada da atmosfera da Terra (que vai até uns 10km-15km de altura, dependendo da latitude do local). Temos ainda nuvens estratosféricas e mesosféricas, mas deixo isso como tema para uma próxima conversa.

Espero que tenham gostado do texto e estejam com a cabeça nas nuvens. Até a próxima.

 Links 

https://www.monolitonimbus.com.br/poesias-dos-tipos-de-nuvens/

http://meteoropole.com.br/2014/04/selos-e-o-dia-meteorologico-mundial/

https://cloudatlas.wmo.int/en/home.html

http://meteoropole.com.br/2016/10/nuvens-undulatus-asperatus-ou-asperitas-como-elas-sao-classificadas/

http://www.estacao.iag.usp.br/site_apoio/index.php

http://meteoropole.com.br/2017/03/tema-do-dia-meteorologico-mundial-de-2017-entendendo-as-nuvens/

Como Goethe ajudou na popularização dos nomes das nuvens

http://meteoropole.com.br/2017/05/como-e-que-se-determina-o-nome-de-uma-nuvem/

http://meteoropole.com.br/2011/10/as-nuvens-possuem-nomes/

https://cloudatlas.wmo.int/en/clouds-supplementary-features-asperitas.html

https://www.deviante.com.br/podcasts/scicast-338/


Samantha Martins é meteorologista e mestre em Meteorologia pela Universidade de São Paulo. Tem experiência com observações meteorológicas e divulgação científica através de palestras na Estação Meteorológica do IAG-USP. Atualmente escreve no blog Meteorópole, colabora com o Portal Deviante e participa de alguns podcasts.

 

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