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Fintechs e competição bancária

por em 10/02/2020 em Ciência, Notícias | Nenhum comentário

Fintechs e competição bancária

Parece que a cada dia surge um banco digital novo, um aplicativo para ajudar a organizar as contas ou que facilitem o pagamento entre amigos. Isso tudo é fruto do que muita gente chama de revolução digital no mercado bancário – causada pelas fintechs.

Duas notícias recentes sobre essas empresas nos mostram que o cenário está mudando, e rápido, o que pode ser um excelente sinal de maior competição e melhoria nos serviços financeiros. Uma novidade é a onda de registros de empresas não-financeiras no Banco Central para operarem como bancos digitais. A outra novidade seria a possibilidade de clientes de bancos digitais sacarem dinheiro em estabelecimentos comerciais.

E como isso é relevante na sua vida? Os meus spins de notícia já vêm tratando desse assunto há algum tempo. No Spin 609, eu falei sobre a concentração bancária no Brasil – 88% de todas as transações e contas acontecem nos cinco maiores bancos nacionais. Além disso, expliquei um pouco do modelo Open Banking no Spin 763  – no qual o cliente pode liberar seus dados para as empresas que ele achar melhor e com isso receber ofertas de produtos. O que todo esse movimento das fintechs causa é uma mudança estrutural no setor bancário.

Muita gente chama esse movimento de revolução porque imaginava-se que seria difícil desbancar os bancos (sem trocadilhos), porque haveria uma barreira de entrada muito forte para novos concorrentes. Parte dessa vantagem é que as grandes instituições já têm muitas agências consolidadas, e qualquer novo banco precisaria de toda essa estrutura para alcançar o que se chama de capilaridade: a capacidade de atingir um enorme público nas mais diversas áreas do país. Outra dificuldade para novos bancos seria o acesso a serviços e meios de pagamentos – os “bancões” já têm contratos que monopolizam alguns desses serviços, dificultando a escolha por parte do consumidor. Uma série de regras do Banco Central também engessa o mercado com um todo, além dos custos de instalação e manutenção de certas garantias serem altos.

O que está em discussão com o open banking e uma possível nova regulamentação sobre os serviços de débito automático e boletos é uma mudança estrutural e legislativa para que instituições menores também possam oferecer esses serviços – criando competição. O que então parecia ser um mercado concentrado e com muitas barreiras de entradas a novas empresas, cada vez mais vai se mostrando um novo espaço de mercado.

Quando muitas empresas buscam entrar em algum setor, podemos chegar a duas conclusões um tanto quanto óbvias:

1. Que há muito lucro e espaço neste mercado – o que já sabemos que o setor financeiro tem mesmo;

2. Com a entrada de muitos players, podemos esperar uma competição mais acirrada no futuro, cuja consequência natural seria uma queda nos preços e melhoria dos serviços.

Vou dar um exemplo bem prático dessa mudança toda aqui: uma grande parte das empresas que entrou com registro no BC são o que chamamos de grandes varejistas, como lojas de eletrodomésticos ou de departamento. Hoje em dia, muitas delas já oferecem um cartão próprio, sem anuidade e com vantagens nas compras naquela loja. Atualmente você precisa ir à loja pagar a fatura ou ir com o boleto num banco enfrentar fila. Agora, se você pudesse pagar a fatura desse cartão online ou ir à loja pagar a conta e ainda sacar dinheiro, isso facilitaria sua condição financeira. Se você começar a ver essas vantagens nas lojas, os bancos “tradicionais” serão obrigados a ter outros diferenciais se quiserem te atrair como cliente.

Logo, eu enxergo o aumento de registros como algo muito positivo para reduzir a concentração bancária e aumentar a competição. Algo que me deixa ainda mais tranquila é que o BC brasileiro é bastante rígido como suas normas e observações, por isso eu imagino que só poderão se registrar as empresas que demonstrarem a capacidade financeira e gerencial que a legislação considera essencial para esse tipo de negócio.

Agora vamos pensar nas consequências da possibilidade dos saques em lojas. Quem tem conta em algum banco digital sabe que talvez a parte mais difícil seja sacar dinheiro, que em geral só podemos fazer naqueles caixas eletrônicos 24hs vermelhinhos. Mas em cada esquina há lojas que já contam com sistemas de pagamento robustos e que – de certa forma – se comunicam com os bancos para processar pagamentos. Logo, um sistema em que o banco digital paga uma taxa para que seu cliente possa sacar dinheiro em loja é vantajoso para ambos os lados: o banco pode negociar uma taxa menor do que atualmente paga para os caixas eletrônicos e a loja recebe um fluxo maior de clientes.

Até o momento, as discussões envolvem saques através do QR code e não do cartão, o que pode ser um fator de segurança extra, mas também pode ser limitador para um público que não entenda tanto de tecnologia. Mais uma vez a visível vantagem dos bancos de ter uma estrutura enorme começa a parecer mais um custo do que uma vantagem. E um mercado que parecia concentrado e fechado, pode estar começando a desabrochar.

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