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Cinco mitos e lendas urbanas na história militar

por em 25/01/2016 em Ciência, Entretenimento | 4 comentários

Cinco mitos e lendas urbanas na história militar

Existem sempre alguma parte verdadeira por trás de qualquer lenda urbana, parte esta que é a origem da respectiva lenda. Na História Militar não é diferente, lendas e mitos de guerreiros medievais e modernos destruindo 200 soldados inimigos num só ataque não são tão incomuns quanto você pensa.

Abaixo segue uma pequena lista que 10 dessas lendas urbanas militares que se espalharam pelo mundo ocidental (especialmente Europa e Estados Unidos):

1- Os Cavaleiros Templários e o primeiro rei da Escócia Independente (Robert the Bruce)

Quadro "Batalha de Bannockburn" Batalha que deu origem à Escócia independente (autor desconhecido)

Quadro “Batalha de Bannockburn” Batalha que deu origem à Escócia independente (autor desconhecido)

Uma dessas lendas urbanas, que tem se repetido erroneamente como fato histórico, é o caso do envolvimento do rei escocês, Robert the Bruce e os Cavaleiros Templários, que na época da Batalha de Bannockburn, 1314, já estavam sendo caçados como hereges e infiéis pela Igreja Católica.

De acordo com esse conto, um pequeno grupo de templários foi para a Escócia (país predominantemente católico) durante a luta de Robert contra a Inglaterra, para declarar seu reino independente. Esse grupo chegou no meio da batalha de Bannockburn, esmagando o flanco inglês e garantindo a vitória escocesa. Essa estória, porém, é coberta por uma grande névoa de mistério, não havendo registros oficiais dessa carga de cavalaria templária nem por parte dos vencedores escoceses, nem por parte dos derrotados ingleses.

Por essa lenda ter uma aura de romaticismo, muitos historiadores acreditam que ela seja isso mesmo, uma mera lenda romântica, como muitas que surgiram na Europa durante a Idade Média (como a do Rei Arthur, para os ingleses). O que ajuda essa aura mística é o fato de que a própria batalha de Bannockburn ser pouco registrada no período que ela aconteceu, sendo que os textos históricos que tratam da batalha foram produzidos muito tempo depois desta.

2- As Origens do toque fúnebre de corneta Bugle (o “Taps“)

O toque Taps é, indiscutivelmente, um dos toques que corneta mais reconhecíveis de toda a História Militar Ocidental, sendo tocado várias vezes durante cerimônias fúnebres militares em várias partes do mundo.

De acordo com o que se conta, o toque Taps foi originalmente feito para sinalizar que as luzes seriam apagadas nos edifícios e prédios militares, porém ele foi assimilado rapidamente como toque fúnebre pelo Exército da União e pelo Exército Confederado, durante a Guerra Civil Norte-Americana. Registros militares apontam que a primeira vez que o Taps foi usado como toque fúnebre foi em 1862, durante a Campanha da Península, na Virgínia.

Mas quais são as origens reais desse toque de corneta tão comum atualmente? É aqui que entra a lenda urbana da vez.

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Reza a lenda que, em 1862, um capitão unionista, Robert Ellicombe, escutou o choro e o lamento de um soldado ferido no campo de batalha, um campo que ia das suas linhas de batalha até as linhas inimigas, perto de Harrison’s Landing, na Virginia.

Atravessando corajosamente o campo de fogo inimigo, ele foi resgatar o soldado abatido. Para seu horror, voltando para o campo amigo, o soldado morreu em seus braços durante o transporte até a barraca médica. Para piorar a situação e o horror da experiência, o soldado nada mais nada menos era seu próprio filho, que lutava pelos Confederados!

O Capitão Robert suplicou que seu filho, mesmo sendo um soldado inimigo da União, tivesse um enterro digno, com toda pompa militar possível, mas a súplica foi negada pois ele era um soldado inimigo. Mesmo assim, um tocador de corneta foi permitido à tocar um toque fúnebre enquanto o filho do capitão unionista era baixado em sua cova. Ellicombe deu para o corneteiro um papel com uma série de 24 notas musicais. Essas notas se tornariam a Taps, o toque fúnebre militar mais reconhecido no mundo.

Mas, dizendo a verdade, a Taps tem uma origem muito mais simples e sem romantismos que essa do mito. A única parte verdadeira dessa lenda é que, realmente, a Taps foi tocada na região mencionada, Harrison’s Landing, mas quem mandou que ela fosse empregada foi o general da União Daniel Butterfield – a música era um toque meio antigo e pouco usado chamado “Scott’s Tattoo”, “tattoo” sendo um termo militar holandês que significa que era hora dos soldados fecharem seus canecos de cerveja com aquelas tampas europeias clássicas (chamadas de Taps) e que estava na hora de voltar para o campo militar, para suas tendas, dormir.

3- Os Anjos de Mons

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O cenário é este: é 23 de Agosto de 1914, a Primeira Guerra Mundial tinha acabado de começar, tropas britânicas estavam sendo atacadas por alemães na cidade belga de Mons. Cercados pelo inimigo, os britânicos estavam em grandes apuros, só um milagre os salvaria, só uma tropa vinda do próprio Paraíso poderia salvá-los da morte certa. E lá estavam eles, os Anjos de Mons.

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Existem vários elementos que sempre se repetem nas várias versões dessa lenda, mas o que mais se repete é este: o Exército Britânico estava numa situação muito difícil em campo de batalha, geralmente necessitando recuar ou morrer, recolhendo seus feridos e tentando abrir caminho pela frente inimiga e com a ajuda de seres angelicais que os guiaram por todo território inimigo até as linhas aliadas.

As variações desses “seres angelicais” são grandes: algumas versões do mito dizem que eram criaturas de fumaça e nuvem; outros dizem que eram cavaleiros medievais cavalgando com cavalos alados; e as fontes da suposta origem dessa lenda são tão abundantes quanto as formas de contá-la.

Uma dessas fontes é um homem chamado Arthur Machen, que era um escritor de fantasia. Ele diz ter escrito uma estória no jornal London Evening Times sobre o testemunho de um soldado que foi salvo por uma entidade angelical durante a Batalha de Agincourt, isso mesmo a Batalha de Agincourt de 1415. Tal estória foi publicada no London Evening no dia 29 de Setembro de 1914.

O segundo ponto de partida possível para entender as origens da lenda dos Anjons de Mons é o General Brigadeiro John Charteris, Oficial Chefe de Inteligência na época, que estava envolvido com a retirada britânica em Mons.

Qualquer que seja a fonte dessa lenda, o governo e os militares britânicos não desmentiram nem confirmaram os fatos da retirada de Mons, o que deu ao público em geral a ideia o esforço de guerra britânico era dignamente divino e apoiado pelos Céus. A força dessa lenda foi tanta na época que houveram pregações e sermões nas igrejas britânicas baseadas na lenda dos Anjos de Mons!

4- Os Lendários Cossacos Russos

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Outro mito proveniente da Primeira Guerra, dessa vez vinda do Fronte Leste, onde os russos batalhavam contra alemães e austro-húngaros, e também aconteceu em Agosto de 1914, no início do conflito.

A estória diz que havia um enorme exército russo se movendo através de TODA A EUROPA, para alcançar e ajudar seus aliados franceses e britânicos no Fronte Ocidental. Havia testemunhas que diziam ter visto esse gigantesco exército sendo transportado via trem até a Inglaterra e a França e, quando lá chegassem, fariam um “grande sanduíche dos alemães”, com suas ofensivas tando do oeste quanto do leste.

Esse papo chegou a tanto que havia até evidências fotográficas desse suposto monstruoso exército russo atravessando fronteiras e pontes ferroviárias, mas nunca chegaram aos olhos do público civil, pois fotos assim eram armazenadas e, muitas vezes, destruídas pela censura militar de tempos de guerra. No entanto, não havia esse tipo de censura na mídia dos Estados Unidos na época, e a estória ganhou ainda mais detalhes, controvérsias e suposições, tanto que chegou ao ponto de que esse tal exército russo se transformou num grande grupo de Cavaleiros Cossacos FANTAMAS!

No outro lado da fronteira, muitos oficiais alemães acabaram acreditando um pouco que um exército de cavaleiros russos poderia estar em terras alemãs, fazendo sabotagens e espionagens. Apesar de não existir muitos registros fiéis que confirmem, muitas das movimentações da infantaria alemã foram feitas para tentar “evitar” um encontro desnecessário com esses cavaleiros russos, que poderia fazer um grande estrago nos infantes antes dele chegarem à frente de batalha.

Assim como as outras nesse texto, essa lenda também tem várias origens e formas de ser contada. Alguns dizem que foi por causa de soldados russos serem vistos na Inglaterra e na França na época, junto à um problema crônico da região do Oeste Europeu em tempos de guerra, o atraso dos trens. Outra fonte afirma que existia um telegrama explicando que cem mil russos estariam chegando em Londres vindos de Aberdeen, Escócia. O remetente desse suposto telegrama queria dizer algo completamente diferente (sobre uma compra de ovos e comida), mas como telegramas tinham de ser concisos e rápidos, a mensagem saiu com um duplo sentido, o que iniciou os boatos do exército russo na Frente Ocidental.

Para ajudar a impulsionar os boatos, houve também o caso de soldados escoceses vindos do condado de Ross Shire e estavam indo em direção ao sul, mas o nome do local de origem pode ter sido mal interpretado por alguém, que leu Russia, em vez de Ross Shire.

Qualquer que seja a origem disso, a Inteligência de Guerra Britânica não desmentiu nem admitiu os boatos, e deixou que o rumor se espalhasse, justamente para atingir o inimigo.

5- A Fábrica Alemã de Corpos

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Realmente a Primeira Guerra, além de ser um divisor de águas da História Mundial, também foi palco de vários mitos e lendas militares. As lutas nas trincheiras eram uma coisa muito próxima, pessoal, para os soldados. Essa talvez seja a razão para o surgimento desse outro mito militar, que até hoje podemos observar, aquele que mostra que o inimigo é horrível e desumano, um ser monstruoso que deve ser morto para salvar a nação.

Em 1917, uma estória foi impressa no The Times, afirmando como os alemães estavam tratando os corpos de seus próprios mortos durante a Grande Guerra: os corpos dos soldados caídos estavam sendo “reciclados”, reaproveitados, sendo transformados em matéria prima para o esforço de guerra, como por exemplo na produção de glicerina, óleo e até de gordura animal. Até os ossos eram esmagados até vivarem pó para alimentarem os porcos nas fazendas.

Depois de alguns meses, outras informações chegaram para dar mais um impulso à essa estória no Times. A “Fábrica de Corpos” alemã ganhou um nome:  a Deutsche Asfallverwertungsgesellschaft [Fábrica Alemã de Processamento de Produtos Usados].  Junto à isso, mais estórias grotescas apareceram com o novo nome. Supostas testemunhas contaram como os corpos dos soldados mortos eram colocados em caldeirões ferventes até serem reduzidos aos componetes básicos do corpo humano. Os alemães tentaram conter essa enganação e mentira, dizendo que tudo não passavam de uma campanha de difamação mundial, para todos irem contra a Alemanha, inclusive seus aliados austríacos e otomanos.

O mito da “Fábrica de Corpos” alemã durou até 1925, quando o novo governo republicano alemão publicou um documento oficial provando que os rumores não tinham base nenhuma, que era apenas uma campanha de difamação, totalmente falsa.

Texto Adaptado de: War History Online

Matheus “Prof.º Barbado” Silveira é Professor de História formado pela PUCPR, Especialista em História Contemporânea e Relações Internacionais, formado pela PUCPR e Podcaster residente do SciCast.

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