Bom dia! Bem-vindas, bem-vindos e bem-vindes a mais um Spin de notícias, o seu giro diário de informações científicas em escala subatômica. Aqui é a Debbie Cabral e hoje falaremos de bilinguismo, cérebro e imigração

No programa de hoje:

– Como o cérebro troca de linguas perfeitamente

– ‘Linguagem comum’ e testes de proficiência: um exame crítico dos requisitos de inscrição para agentes oficiais de imigração na Australia

Shiushiu shiu Spin de Notícias

Em uma entrevista à Scientific American, a doutoranda da Universidade de Nova Iorque Sarah Frances Phillips, fala de como o cérebro reage a troca de línguas. Em linguística, a gente chama isso de mudança de código, ou code switching, em inglês.

Vamos começar com um pouquinho de background, dando uma pincelada em mudança de código. Primeiro vou diferenciar ‘mudança de código’ de ‘empréstimo’. É comum a gente pegar emprestadas várias palavras de outras línguas. Isso significa que, mesmo quem não fale inglês, sabe o que é deletar ou download”. Ou seja, podemos manter a palavra original ou adapta-la, como na conjulgação do verbo deletar. Já a mudança de código acontece quando alguém fala mais de uma língua, e, no meio de uma frase em uma língua, a pessoa puxar um termo na outra língua que “caiba melhor” naquela situação.

Uma coisa interessante que me veio à mente aqui, enquanto escrevia meu roteiro, é que, no contexto do Brasil, a troca de línguas é vista como um pedantismo, né? Quantos Tweets a gente não vê “por que falar ‘realise’ se a gente tem ‘se dar conta’?”. Só que em países de língua inglesa, por exemplo, a mudança de língua é vista com certo preconceito, como se a pessoa não fosse tão proficiente na língua. Entre linguistas, a gente sabe que não é por aí.

Na verdade, é necessário um conhecimento profundo das duas ou mais línguas para entender o contexto e saber que aquela palavra expressa melhor o que você quer dizer, a pessoa precisa saber que está substitutindo uma expressão que funciona como adjetivo por outra que tenha a mesma função. E quando digo isso, não é necessária a consciência das classificações de substantivo, adjetivo, verbo, advérbio, etc. Assim como um falante da língua não sabe a classificação e usa a língua perfeitamente. (Vou deixar aqui o link para o meu melhor texto no Portal, que é Saber português não é saber gramática, pra quem se interessar por esse assunto). A birra com a forma com as pessoas falam vem de um preconceito social e a gente precisa estar atento a isso.

Bom, vamos, então à reportagem. Estima-se que mais da metade do planeta fale mais de uma língua. A Sarah Frances Phiillips resolveu entender melhor como funciona o comportamento bilingue no cérebro. Pelos motivos que expliquei acima, alguns pesquisadores argumentam que, em vez de déficit na língua, que os bilingues teriam uma vantagem cognitiva a quem fala só uma língua. Isso porque, algumas pesquisas mostraram que pessoas bilingues eram mais rápidas em testes cognitivos. Só que a pesquisadora argumenta que esses testes não são necessariamente linguísticos e dependem de aspectos como memória e atenção. E quando perguntada se o bilinguismo ou multilinguismo não influencenciariam a memória e atenção, ela cita uma outra pesquisa (para mim surpreendente) que mostra que essas habilidades estão em evitar a troca da língua, mais do que na troca em si.

Mas vamos à explicação do que a Sarah fez na pesquisa dela. Ela selecionou 20 pessoas que são proficientes em todas as habilidades (ouvir, falar, ler e escrever) em inglês e coreano. Essas pessoas passaram por 700 testes, em que foi usado magneto encefalograma para ver a resposta do cérebro a certos estímulos linguísticos que são iguais nas duas línguas, como sujeito+verbo intransitivo.

Quando mostrada a combinação gelo + derrete, o lóbulo temporal anterior esquerdo do cérebro era acessado, mas quando ‘derrete’ era combinado com ‘pulo’, isso não acontecia. O teste foi replicado em pessoas que só falam uma língua e o resultado foi o mesmo. E aqui vou abrir aspas para a última fala da pesuisadora:

“Uma das coisas que eu queria que as pessoas soubessem e entendessem é que a mudança de código é natural para pessoas bilingues. Exigir que mantenhamos uma lingua só é mais difícil. Eu acho que, apesar de a maioria dos individuas bilingues terem uma atitude negativa à mudança de código – constumam achar que é ruim e que tem que manter uma língua só – na verdade, não é ruim para o cérebro. Acho que é importante reconhecer que, só porque não parece comportamento monolingue, não quer dizer que é [comportamento] deviante”

É isso! Vamos passar para o segundo artigo: ‘Common language’ and proficiency tests: a critical examination of registration requirements for Australian registered migration agents. (Linguagem comum e testes de proficiência: um exame crítico dos requisitos de inscrição para agentes oficiais de imigração na Australia)

Laura Smith-Khan usa a sociolinguística para investigar as regras do teste de proficiência em inglês e as justificativas do ministério de imigração da Australia para esses testes. Os resultados mostram que essas exigências são desnecessariamente descriminatórias. Vamos ver como foi a pesquisa.

Esses agentes de imigração são pessoas, ‘não-advogados’, que auxiliam as pessoas nos pedidos de visto e imigração. Os requisitos para ser um agente são revistos sempre e tem ficado cada vez mais exigentes com o passar dos anos. Antes, por exemplo, qualquer pessoa de um país onde inglês fosse a língua predominante era considerado proficiente na língua e não precisava fazer o teste de proficiência. Agora, essa proficiencia é restrita a uns poucos países e mais gente tem que fazer o teste para provar a proficiência. O comitê de direitos humanos do parlamento chamou atenção para a descriminação nesse processo seletivo, ao exigir o teste de uns e não de outros. As justificativas do governo para mater os testes (que foram oficialmente impostos) é o que a Laura vai analisar, junto com os requisitos para se tornar um aficial de imigração.

Uma das questões levantadas pela autora é que a concepção de proficiência em uma língua nas leis e nas diretrizes institucionais se baseiam em crenças problemáticas sobre a língua. Assim como no Brasil temos a ideia de que existe um português certo (que nunca é o que falamos ou escrevemos – volto a sugerir a leitura do meu texto ‘Saber português não é saber gramática’) e que este está relacionado com quem tem poder, o mesmo acontece com o inglês na Austrália (e eu diria nas línguas de todo o mundo).

“As regras sobre língua estão “frequentemente ancoradas em ideologias, esteriótipos, racismo e xenofobia, resultando em vítimas linguísticas”” palavras de Elana Shohamy, citada pela autora.

O número de países cujas pessoas não precisam de teste de proficiência caiu de 56 para 7. O argumento maior do governo foi ter restringido a apenas países que tenham inglês como ‘língua comum’ (título do artigo): Australia, E.U.A, Reino Unido, Nova Zelandia, Canada e Africa do Sul. A definição do governo de língua comum é a que predomina no país, em que inglês seria a língua nativa.

Aqui começa o problema. Ser nativo não dá automaticamente a proficiência para, por exemplo, ler artigos da lei. Você, ouvinte/leitor, já tentou ler artigos da constituição? Já viram como é difícil?

Continuando o argumento do governo australiano, a língua comum também teria que ser nativa a maioria das pessoas do país. Essa ideia se baseia (e aqui temos um link com o artigo anterior) no preconceito de que a exposição a outras línguas, prejudica  a proficiência. Argumento que já foi refutado diversas vezes por linguistas. E, se prestarmos atenção aos 7 países selecionados, a Africa do Sul tem 11 línguas oficiais. O Canadá tem o francês e, vamos combinar que o espanhol é bem presente nos Estados Unidos. No Reino Unido, ainda, que, além de muitos decendentes de indianos e paquistaneses que mantêm as duas ou mais línguas, tem entre seus países (Gales, Escócia, Irlanda e Inglaterra) uma variedade imensa de formas de falar inglês.

O artigo, então, passa pela crítica a este e outros testes de proficiência que se baseiam em uma forma padrão de inglês e ignoram toda a variedade que existe. Não é defendido hora nenhuma no texto que não haja teste nenhum, mas as pessoas que estão em processo de se tornar agentes de imigração já tem que passar por um curso com provas de competência específica da área, que é o que importa.

P-p-p-por hoje é só, p-pessoal! Lembro que todos os links comentados estão no post e deixe lá também seu comentário, elogio, crítica, declaração de amor ou sugestão de comprimido que queiram que eu dissolva. Lembro ainda que esse podcast só é possível acontecer por conta de seu apoio no patronato do SciCast, no Patreon, no Padrim ou PICPAY. Um grande abraço apertado e até amanhã!

 

Referências:

How Brains seamlessly switch between languages

Saber Português não é saber Gramática

‘Common language’ and proficiency tests: a critical examination of registration requirements for Australian registered migration agents.