Texto de Bruna Sá

Imagine a seguinte situação…

Duas horas da tarde, auge do verão. Você está caminhando por uma estrada de terra batida, numa paisagem rural. Sol quente, céu azul, sem nuvens, 40° C. Você está suado e sente muito calor. Qual a sua estratégia? Procurar uma sombra e descansar.  Você olha ao redor procurando uma árvore frondosa, cheia de galhos e folhas abundantes que irão te oferecer a tão desejada sombra, certo? Pois bem, à sua frente há árvores, mas sinto informar, não há sombra. Você suspira resignado e continua sua caminhada, ainda com muito calor.

E é isso, bem-vindo à Caatinga.

A Caatinga é o maior domínio biogeográfico de Floresta Tropical Seca das Américas. Ela abrange uma grande extensão geográfica de clima semiárido no nordeste do país e é caracterizada principalmente por um curto período chuvoso ao longo do ano, altas temperaturas e elevadas taxas de evapotranspiração. Por causa dessas características tão marcantes, a biodiversidade da Caatinga teve que desenvolver adaptações importantes para contornar os extremos da seca e sobreviver.

Na situação hipotética acima, você caminharia até finalmente encontrar uma sombra e descansaria até o “sol esfriar”. A maioria dos animais faz isso. É a solução mais simples!

Mas e aqueles organismos que não podem se deslocar? Como fazem para suportar tamanho calor? Bom, existem inúmeras estratégias, e a maioria delas são bem criativas.

No universo botânico, a sobrevivência das plantas à constante exposição solar e escassez hídrica se deu por meio de adaptações morfológicas, anatômicas ou fisiológicas.

Por exemplo, há algumas espécies de árvores e arbustos que perdem todas as suas folhas durante a estação seca, um processo chamado de caducifólia. Essa estratégia é eficiente justamente porque é nas folhas que se encontram células especializadas, chamadas de estômatos, responsáveis pelas trocas gasosas e pela transpiração. Ao perder suas folhas, essas plantas garantem que haverá redução da transpiração celular, que é a perda de água em forma de vapor, e diminuem a sua taxa fotossintética. Assim, durante o período desfavorável, a atividade fotossintética será mínima, e menores serão os danos por desidratação e alta radiação solar.

Outras adaptações botânicas interessantes desenvolvidas ao longo dos anos para evitar tais infortúnios são folhas menores (microfilia) e/ou presença de tricomas foliares, que auxiliam na redução da incidência de radiação solar e perda hídrica, e, é claro, a mais conhecida de todos, os espinhos, que nada mais são do que folhas modificadas para otimizar essa perda hídrica durante todo ano. A Evolução é mesmo uma coisa maravilhosa!

Figura 2: Imagem de uma espécie de cacto, com destaque para os espinhos. Crédito: Dragan Tomić

Ciclos de vida curtos, com desenvolvimento rápido, constituem outra adaptação, muito comum nas plantas herbáceas (ervas). A maioria das espécies deste grupo possui ciclo de vida anual, em que, durante o período chuvoso, há o investimento em crescimento rápido e reprodução. Ao final das chuvas, suas sementes já estarão depositadas no solo em estado de dormência, aguardando as próximas precipitações, para poderem, assim, reiniciar a vida.

Essa mesma lógica é utilizada por algumas espécies de peixes anuais, que nascem, crescem, se reproduzem e morrem, tudo isso num intervalo de tempo muito curto, durante o período chuvoso. Isso garante que haja a deposição de ovos no sedimento antes que as lagoas sequem na estiagem. Os ovos recém-depositados entram em estado de diapausa, uma estratégia evolutiva eficiente e bem complexa que interrompe ou diminui o desenvolvimento do embrião até que as condições do ambiente sejam novamente favoráveis ao crescimento.

A chuva para os organismos da Caatinga é sinônimo de reinício de seus ciclos. O som de um trovão é quase como um arauto da sobrevivência. O ambiente aparenta estar seco e vazio, porém a vida pulsa por aqui, e pulsa com estratégia. Afinal, “a vida sempre encontra um jeito”.

 

Referências:

da Silva, J. M. C., Leal, I. R., & Tabarelli, M. (Eds.). (2018). Caatinga: the largest tropical dry forest region in South America. Springer.

Barros, I. O., & Soares, A. A. (2013). Adaptações anatômicas em folhas de marmeleiro e velame da caatinga brasileira. Revista Ciência Agronômica44, 192-198.

Moro, M. F., Amorim, V. O., de Queiroz, L. P., da Costa, L. R. F., Maia, R. P., Taylor, N. P., & Zappi, D. C. (2024). Biogeographical districts of the Caatinga dominion: a proposal based on geomorphology and endemism. The Botanical Review90(4), 376-429.

Abrantes, Y. G., de Medeiros, L. S., Bennemann, A. B. A., de Medeiros Bento, D., Teixeira, F. K., Rezende, C. F., … & Lima, S. M. Q. (2020). Geographic distribution and conservation of seasonal killifishes (Cyprinodontiformes, Rivulidae) from the Mid-Northeastern Caatinga ecoregion, northeastern Brazil. Neotropical Biology and Conservation15(3), 301-315.

Easwaran, S., & Montell, D. J. (2023). The molecular mechanisms of diapause and diapause-like reversible arrest. Biochemical Society Transactions51(5), 1847-1856.

 


Bruna Sá, baiana em terras pernambucanas, bióloga, amante das plantinhas miúdas que todo mundo chama de mato. Cursando a formação tradicional dos vilões (o doutorado).