Quando o ser humano finalmente pousou na Lua, em julho de 1969, ele realizou um feito técnico extraordinário — mas, curiosamente, também inaugurou uma pequena confusão linguística. Desde então, muita gente no Brasil passou a afirmar com convicção que a Apollo 11 havia feito uma “alunissagem”. Afinal, pousou na Lua, não na Terra, não é mesmo?
Do ponto de vista linguístico, o “terra” de “aterrissagem” nunca significou exclusivamente o planeta Terra. A palavra vem do latim terra, que significa chão, solo, superfície firme. É por isso que se aterrissa em pistas, campos, desertos, ilhas e não no mar. De fato, existe um termo correto para este último, a “amerissagem”. Aterrissar está para a terra assim como amerissar está para o mar. E como não há mar na Lua*, era tão simples dizer “aterrissou na Lua”.
Por que inventaram “alunissagem”?
Eu tenho minhas broncas, minhas manias — quem não tem? Amo linguística, etimologia, entender como as palavras se formam, evoluem, e tudo mais. Entendo os diversos mecanismos com que as palavras nascem, muitas vezes por erros gramaticais ou ignorância da própria língua… e nada disso me perturba, até acho bonito. O que me incomoda, de fato, é quando essa ignorância vira petulância de alguém querer corrigir o que já tava certo, a hipercorreção.
A maioria das palavras nasce da necessidade de se expressar melhor. Por exemplo, quando surge algo novo que nenhum termo vigente é capaz de dar conta (como é o caso da palavra fotografia). Em outros momentos, a palavra nova surge simplesmente para economizar explicações repetidas, quando algo se aplica a muitos casos recorrentes: dizer rodovia é muito mais eficiente do que repetir indefinidamente “estrada pavimentada”.
Será que pousar no solo lunar era algo assim tão diferentão do que pousar em solo terrestre? Ah, já sei, se tornou algo tão corriqueiro que estava dando preguiça de escrever “aterrissagem lunar” tantas vezes, não é? Acho que vale mencionar que até hoje ocorreram apenas 6 eventos desse em toda a história da humanidade.
A ironia histórica
O termo “alunissagem” é um empréstimo direto do francês alunissage,[1] cuja primeira ocorrência registrada data de 1923,[2] décadas antes da Apollo 11. Não porque a França tenha sido pioneira no lançamento de foguetes, mas porque foi pioneira no cinema. “Voyage dans la Lune” é frequentemente citado como um dos primeiros filmes de ficção científica da história, criado pelo francês Georges Méliès, que iluminou a imaginação de toda uma geração sobre a possibilidade de o ser humano pisar na Lua.[3]
No filme, a viagem é feita numa bala de canhão, o que está longe do que chamaríamos de uma “aterrissagem” — é mais uma colisão mesmo. Ainda assim, o tema viagem à Lua ganhou popularidade e viu surgir um monte de entusiastas sabichões sobre o assunto. Sem perceber o óbvio e querendo pagar de intelectualoide da roda, lá se vai o ignorante-soberba corrigir o que já estava perfeito:
— Pare de escrever errado. Não tá vendo que se pousaram na Lua, isso não há de ser uma atterrissage. O certo é alunissage, evidentemente.
Soando com tanta convicção, segue-se toda a turba de puxa-sacos a repetir o adágio de seu emissário (quem disse que só LLM alucina? o ser humano vem fazendo isso há séculos).
Claro que em algum momento o assunto chegou para os entendidos de verdade, tanto de linguística quanto de ciência. Ambos, a Académie française e a Académie des sciences criticaram o termo, recomendando o uso de atterrissage sur la Lune.[4]
Ou seja: o idioma que criou o neologismo tentou freá‑lo… mas acabou vencido, não por necessidade linguística, mas por bravata técnica e repetição midiática.
Uma especificidade inútil
A despeito do alerta de que se havia inventado um monstro feio e desnecessário, o termo resistiu bravamente e foi sendo importado para as demais línguas latinas, chegando ao português, sobretudo a partir da década de 1960, como “alunissagem”, em traduções jornalísticas e textos de divulgação científica.[5]
Hoje, 60 anos depois, não tenho mais nenhuma pretensão de tentar nos salvar desse ornitorrinco linguístico. Afinal, o seu uso já se consagrou à exaustão, sendo registrado inclusive em dicionários contemporâneos.
Ainda assim, toda vez que o leio, a agonia persiste. É simplesmente feio. Carrega consigo a lógica boçal de que um termo ancestral como “aterrissar” de alguma maneira estaria fazendo menção à Terra (o planeta), em vez da terra (o chão firme). E se essa moda pega, logo logo estarão usando coisas mais medonhas ainda como “amartissagem” para o pouso em Marte, “avenusagem” para o pouso em Vênus, “amercurissagem” para Mercúrio e assim por diante, quando apenas um “aterrissagem” basta.
Então me resta fazer esta crônica que, espero, tenha te entretido um pouco, enquanto me ajuda a externalizar essa birra pessoal. Me parece uma troca justa.
Mas agora que você sabe, talvez fique mais difícil ignorar. E já que a esperança é retornar à Lua nos próximos anos (se as missões Artemis não forem canceladas), então é bem provável que vejamos mais e mais esse neologismo inútil retornar com força às manchetes de jornais. A não ser que você me ajude encaminhando este artigo para seus jornalistas preferidos.
:D
*Ok, existe mar na Lua e, de fato, a Apollo 11 aterrissou no “Mar da Tranquilidade”. Porém, no contexto lunar, “mar” se refere a grandes regiões escuras de terra que, no passado, se pensou erroneamente serem preenchidas por água.
Referências
- Infopédia – Alunissagem (etimologia do francês): https://www.infopedia.pt/dicionarios/lingua-portuguesa/alunissagem
- CNRTL – Alunissage (etimologia e primeiras ocorrências, 1923): https://www.cnrtl.fr/etymologie/alunissage
- Wikipedia – Le Voyage dans la Lune, Georges Méliès: https://en.wikipedia.org/wiki/A_Trip_to_the_Moon
- CNRTL – Alunir (críticas da Académie française e Académie des sciences): https://www.cnrtl.fr/definition/alunir
- Hemeroteca Digital – uso do termo “alunissagem” em jornal brasileiro (1969): https://hemeroteca.ciasc.sc.gov.br/oestadofpolis/1969/EST196916144.pdf

